Guerra do Paraguai: Entre a Devastação e o Nascimento de uma Cidade

Ilustração horizonta

A história de Campo Grande, capital do atual estado de Mato Grosso do Sul, está intrinsecamente ligada à Guerra do Paraguai (1864-1870), o maior conflito armado da história da América Latina. Paradoxalmente, foi das cinzas e dos relatos desse sangrento conflito que nasceu o núcleo urbano que se transformaria na próspera cidade que conhecemos hoje.

O Contexto da Guerra no Sul de Mato Grosso

Quando a Guerra do Paraguai eclodiu em dezembro de 1864, o Paraguai lançou a Campanha de Mato Grosso, invadindo a província brasileira simultaneamente por duas frentes.

A província encontrava-se praticamente desguarnecida militarmente, com defesas fronteiriças perigosamente fracas, apesar de alertas dados desde 1862 sobre o crescente poderio militar paraguaio.

As forças paraguaias tomaram rapidamente o Forte de Nova Coimbra, seguido por Albuquerque, Tage e Corumbá em janeiro de 1865. Um destacamento foi enviado para atacar o posto militar de Dourados, onde o tenente Antonio João Ribeiro e seus 16 homens resistiram até a morte. A superioridade numérica paraguaia permitiu uma campanha rápida e devastadora que deixou o sul de Mato Grosso ocupado por quase quatro anos.

A Região Antes da Guerra

Antes do conflito, a região onde hoje se localiza Campo Grande era uma vasta extensão de campos naturais, conhecidos como “campos de Vacaria”, praticamente desabitada e utilizada apenas ocasionalmente por tropeiros que conduziam gado.

O governo paraguaio havia planejado cuidadosamente a invasão, realizando incursões de espionagem desde 1862, quando a zona de Miranda foi percorrida por uma patrulha paraguaia sem ser detectada.

A ocupação paraguaia transformou profundamente o cenário regional. O sul de Mato Grosso sofreu com deportações de pessoas, epidemias e um caos generalizado durante os anos de ocupação. As atividades econômicas foram paralisadas, fazendas foram saqueadas e a população local ou fugiu para o norte ou foi deportada.

O Nascimento de Campo Grande Após a Guerra

José Antonio Pereira, mineiro nascido em Barbacena em 1825, foi motivado por relatos de soldados que batalharam na Guerra do Paraguai a desbravar o sul de Mato Grosso em 1872. Ao chegar na região dos campos de Vacaria, ele se deparou com terras de excelente qualidade, desabitadas e propícias à pecuária.

José Antonio estabeleceu-se inicialmente na confluência dos córregos Prosa e Segredo, construindo um rancho e formando uma pequena roça antes de retornar a Minas Gerais. Em 1875, ele retornou trazendo sua família (esposa e oito filhos), escravos e outros, num total de 65 pessoas

No local do primeiro rancho, encontrou Manoel Vieira de Sousa (Manoel Olivério) e sua família, vindos de Prata, que também haviam sido atraídos pelas notícias dos campos de Vacaria.

Campo Grande foi fundada por mineiros logo após o fim do conflito, juntamente com outras cidades que surgiram nas antigas fortalezas da guerra, como Dourados e Coxim.

A localização estratégica e o clima favorável atraíram habitantes de municípios de São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e do Nordeste brasileiro.

A região que viria a ser Campo Grande começou a se desenvolver justamente pelos relatos dos soldados que retornavam da guerra. Com o fim da Guerra do Paraguai, o retorno para o Brasil dos soldados oriundos da cidade de Monte Alegre levaram notícias sobre os campos de Vacaria, despertando o interesse de agricultores e pecuaristas.

Inicialmente considerada uma vila, a realidade só mudou em 26 de agosto de 1899, quando o governo estadual promulgou a emancipação e a elevou à condição de município com o nome de Campo Grande.

O nome, segundo o IBGE, origina-se do vastíssimo campo que se estende a sudoeste da cidade.

A privilegiada situação geográfica de Campo Grande, localizada no divisor de águas das bacias dos rios Paraná e Paraguai, tornou-a passagem obrigatória para quem se dirigia ao extremo sul do estado, a Camapuã ou ao Triângulo Mineiro. Essa posição estratégica impulsionou seu desenvolvimento como centro comercial e de serviços para a crescente atividade pecuária regional.

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