Como Três Lagoas lançou as raízes de um dos maiores polos de celulose e madeira do mundo
BR-262 em Três Lagoas
Três Lagoas, terça-feira, 10 de fevereiro de 2026: O que hoje é chamado de Vale da Celulose, responsável por bilhões de reais em investimentos, milhares de empregos e uma profunda transformação econômica no leste de Mato Grosso do Sul, não nasceu de forma repentina. Sua origem remonta a quase quatro décadas atrás, quando Três Lagoas passou a ser palco de pesquisas pioneiras com eucalipto, ainda em um cenário dominado pela pecuária extensiva e pela agricultura tradicional.
Em meados da década de 1980, a região começou a integrar estudos experimentais de silvicultura por meio do Projeto Chamflora, ligado à então Champion Papel e Celulose. À época, o objetivo era testar a adaptação de espécies de eucalipto às condições do cerrado sul-mato-grossense: solos arenosos, longos períodos de estiagem, topografia favorável à mecanização e proximidade de corredores logísticos estratégicos.
Esses experimentos iniciais, ainda discretos em escala, foram o alicerce técnico e científico do que viria a se tornar, décadas depois, um dos maiores polos florestais e industriais do Brasil. Os resultados demonstraram que o eucalipto apresentava crescimento acelerado, boa resposta ao manejo e alto potencial produtivo na região de Três Lagoas — dados que, ao longo dos anos 1990 e 2000, seriam refinados por melhoramento genético, avanços no manejo florestal e integração com a indústria.
Quando os grandes projetos industriais começaram a se materializar no século XXI, a base já estava pronta. O que se viu a partir da década de 2010 foi a aceleração de um processo cuidadosamente construído ao longo de mais de 30 anos.
A explosão dos números: florestas plantadas e liderança nacional
Nas últimas duas décadas, Mato Grosso do Sul protagonizou uma das maiores expansões florestais do país. A área de florestas plantadas — quase totalmente composta por eucalipto — saltou de cerca de 300 a 375 mil hectares no início dos anos 2010 para aproximadamente 1,7 milhão de hectares em 2025, representando um crescimento superior a 436% em pouco mais de uma década.
Projeções oficiais indicam que o estado pode atingir até 2,7 milhões de hectares de florestas plantadas até o fim de 2026, o que colocaria Mato Grosso do Sul na liderança nacional da produção de eucalipto, superando Minas Gerais, historicamente o maior produtor do país.
Atualmente, cerca de 98% da área destinada à silvicultura no estado é ocupada pelo eucalipto, matéria-prima essencial para a produção de celulose, papel, madeira serrada, painéis estruturais e chapas de MDF utilizadas pela indústria moveleira e pela construção civil.
O território do Vale da Celulose
A consolidação do setor deu origem a uma nova configuração regional conhecida como Vale da Celulose, um corredor produtivo que se estende por dezenas de municípios do leste sul-mato-grossense. Dentro desse território, Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo, Água Clara, Brasilândia, Bataguassu e Inocência assumiram protagonismo nacional.
Quatro desses municípios figuram entre os maiores produtores de eucalipto do Brasil em área plantada, evidenciando a concentração territorial da atividade e sua capacidade de reorganizar economias locais inteiras.
Indústrias, investimentos e uma nova base produtiva
O crescimento florestal foi acompanhado por uma industrialização sem precedentes. Mato Grosso do Sul abriga hoje algumas das maiores e mais modernas fábricas de celulose do mundo:
- Eldorado Brasil, em Três Lagoas, em operação desde 2012
- Suzano, com unidades em Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo — esta última considerada a maior linha única de produção de celulose do planeta
- Arauco, com megaprojeto em Inocência, previsto para entrar em operação entre 2026 e 2027
- Bracell, com investimentos voltados à produção de celulose e derivados em Água Clara e Bataguassu
Somados, os investimentos industriais e florestais ultrapassam R$ 50 bilhões, com projeções que podem superar R$ 70 bilhões até o final da década, criando uma das mais robustas cadeias produtivas do país.
Paralelamente à celulose, a região também avançou no processamento de madeira de eucalipto para outros fins:
madeira para construção civil, painéis estruturais, chapas de MDF e insumos para a indústria moveleira, fortalecendo polos industriais em Água Clara, Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo e Bataguassu.
Veja a reportagem:
Empregos, renda e impacto econômico
A cadeia da celulose e da madeira se tornou um dos principais motores da economia estadual. O setor já responde por mais de 10% do PIB de Mato Grosso do Sul, movimentando cerca de R$ 15 bilhões por ano.
Em termos de trabalho, os impactos são expressivos:
- Mais de 15 mil empregos diretos nas áreas florestal e industrial
- Aproximadamente 12 mil empregos indiretos em logística, serviços e comércio
- Crescimento superior a 100% no número de empregos formais do setor desde 2010
Os salários médios do setor industrial figuram entre os mais altos da indústria de transformação no estado, superando a média estadual em mais de 40%.
Em municípios como Água Clara, a cadeia da celulose já representa quase metade dos empregos formais, evidenciando o grau de dependência econômica e, ao mesmo tempo, a força de transformação territorial promovida pela atividade.
Cidades que cresceram junto com as florestas
O avanço da indústria florestal redesenhou o mapa urbano do leste sul-mato-grossense.
Três Lagoas, pioneira do processo, consolidou-se como polo industrial, logístico e exportador.
Ribas do Rio Pardo experimentou um salto populacional e econômico com a instalação da megafábrica da Suzano.
Água Clara e Bataguassu fortaleceram cadeias ligadas ao processamento de madeira e painéis industriais.
Inocência, até então um município de perfil essencialmente agropecuário, passa por uma transformação acelerada com a chegada da Arauco.
O resultado é uma nova geografia econômica, marcada por crescimento urbano, pressão por infraestrutura, expansão imobiliária e reconfiguração das dinâmicas sociais.
Sustentabilidade, debates e desafios
O crescimento acelerado também trouxe questionamentos socioambientais. Pesquisadores e organizações alertam para impactos potenciais das monoculturas de eucalipto, como alterações no regime hídrico, pressão sobre pequenos produtores e mudanças na paisagem rural.
Por outro lado, as empresas destacam investimentos em certificação ambiental, manejo sustentável, preservação de áreas nativas e programas sociais, defendendo que a silvicultura moderna opera em ciclos planejados e com controle ambiental rigoroso.
Esse debate, longe de ser periférico, tornou-se parte central da discussão sobre o futuro do Vale da Celulose e o equilíbrio entre desenvolvimento econômico, sustentabilidade ambiental e justiça social.
A ascensão do Vale da Celulose em Mato Grosso do Sul é resultado de um processo histórico longo, iniciado ainda nos anos 1980 com pesquisas discretas em Três Lagoas, amadurecido ao longo de décadas e acelerado por decisões estratégicas no século XXI.
O que hoje impressiona pelo volume de investimentos, produção e empregos tem raízes profundas em ciência, planejamento territorial e adaptação tecnológica. Ao compreender esse percurso, fica claro que o protagonismo atual do estado não é obra do acaso, mas fruto de escolhas feitas ao longo do tempo.
O desafio, agora, é garantir que esse crescimento continue a gerar desenvolvimento equilibrado, cidades sustentáveis e oportunidades duradouras para as próximas gerações — no mesmo solo onde, quase 40 anos atrás, surgiram os primeiros experimentos que mudariam para sempre a história econômica do leste sul-mato-grossense.
Por Yuri Spazzapan
