Miranda: Três séculos de história na fronteira de MT
Imagem: Planta do forte de Miranda. [Sargento Mór e Engenheiro correspondente do Real Arquivo Militar José Antonio Teixeira Cabral]. – [1811] 41,5 x 77,4 cm. Mapa manuscrito, aquarelado com desenho e nanquim. Biblioteca Nacional – Brasil (Acervo Cartografia).
Uma Narrativa Histórica Baseada no “Voyage Autour du Brésil” (1880-1881)
Dr. João Severiano da Fonseca
Introdução
A história de Miranda, cidade estratégica na fronteira sul do antigo Mato Grosso, é um testemunho eloquente das sucessivas ondas de colonização, conflito e reconstrução que moldaram o interior do Brasil. Situada às margens do rio que leva seu nome, a 120 quilômetros de sua foz no rio Paraguai, Miranda representa não apenas um ponto geográfico, mas um símbolo da resistência e da capacidade de renovação do povo brasileiro diante das adversidades da guerra e do isolamento.
I. AS ORIGENS COLONIAIS: SANTIAGO DE XEREZ (1580-1648)
A Fundação Espanhola
A história de Miranda remonta ao final do século XVI, quando os espanhóis, em sua incansável busca por riquezas e pela expansão territorial no coração da América do Sul, penetraram os sertões do que hoje conhecemos como Mato Grosso do Sul. Em 1580, o explorador espanhol Ruy Dias de Melgarejo fundou Santiago de Xerez às margens do rio que os indígenas chamavam de Mboteteyn, estabelecendo um dos primeiros assentamentos europeus permanentes naquela região remota.
Santiago de Xerez representava a audácia colonial espanhola, um posto avançado destinado a servir como base para futuras expedições e como centro de controle sobre as populações indígenas locais. A cidade nasceu sob a invocação de Santiago Maior, santo padroeiro da Reconquista espanhola, simbolizando assim o espírito de conquista que caracterizava a expansão ibérica no Novo Mundo.
O Massacre de 1648: Paulistas e Guaycurus
A existência de Santiago de Xerez, porém, foi efêmera. Em 1648, a cidade sofreu um ataque devastador que a apagaria do mapa por mais de um século. Os bandeirantes paulistas, aqueles incansáveis desbravadores do sertão brasileiro que buscavam ouro, pedras preciosas e mão de obra escrava indígena, uniram forças com os temidos índios Guaycurus, guerreiros nômades conhecidos por sua ferocidade e perícia equestre.
Este ataque não foi um evento isolado, mas parte de um padrão mais amplo de conflito entre as coroas portuguesa e espanhola pelo controle do interior sul-americano. Os bandeirantes paulistas, embora tecnicamente súditos da coroa portuguesa, operavam frequentemente à margem da lei, destruindo as missões jesuíticas espanholas e capturando indígenas já cristianizados para vendê-los como escravos.
A destruição de Santiago de Xerez foi completa. Quando, em 1776, mais de um século depois, o explorador João Leme do Prado chegou àquela região sob ordens do governador Luiz de Albuquerque, encontrou apenas ruínas e vestígios do que fora a primeira tentativa de colonização europeia permanente daquele território.
II. O RENASCIMENTO: A ERA DE LUIZ DE ALBUQUERQUE (1776-1797)
A Exploração de 1776
O século XVIII trouxe renovado interesse português pela região. O governo colonial português, preocupado com a segurança de suas fronteiras ocidentais e com a necessidade de estabelecer limites claros com os domínios espanhóis, determinou a exploração sistemática dos rios da região.
Em 1776, o capitão João Leme do Prado recebeu ordens diretas do 4º capitão-general de Mato Grosso, Luiz de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, para explorar o rio que os indígenas chamavam de Mboteteyn. Prado batizou o rio de Mondego, em homenagem ao governador, que havia nascido às margens do rio de mesmo nome em Portugal.
Esta expedição tinha objetivos múltiplos: mapear o curso do rio, avaliar seu potencial para navegação, identificar possíveis riquezas minerais e, mais importante, estabelecer a presença portuguesa em uma região ainda disputada com os espanhóis.
A Política de Fortificação
Luiz de Albuquerque foi, sem dúvida, o capitão-general que mais contribuiu para a consolidação da presença portuguesa no Mato Grosso. Governando por quase dezessete anos (mais tempo que qualquer outro administrador colonial da região), ele implementou uma política sistemática de fortificação e criação de estabelecimentos permanentes nos pontos mais vulneráveis da fronteira.
Entre 1778 e 1782, Albuquerque fundou uma série de presídios (fortes militares):
- Setembro de 1778: Presídio de Albuquerque (hoje Corumbá)
- Outubro de 1778: Villa Maria do Paraguay (hoje São Luiz de Cáceres)
- Novembro de 1778: Presídio de Mondego (futura Miranda)
- 1782: Presídio de San-Pedro de El-Rei (hoje Poconé)
- 1782: Vila de Casalvasco
Esta rede de fortificações tinha por objetivo criar uma linha defensiva ao longo do rio Paraguai e seus afluentes, protegendo o território português contra incursões espanholas e garantindo o controle das rotas fluviais.
III. A FUNDAÇÃO DA MIRANDA MODERNA (1797)
Caetano Pinto de Miranda Monténégro
Em 6 de novembro de 1796, assumiu o governo de Mato Grosso o 6º capitão-general, Caetano Pinto de Miranda Monténégro (posteriormente marquês de Villa-Real da Praia-Grande), nomeado por cartas régias de 18 de setembro de 1795.
Montenegro encontrou uma província em expansão, mas ainda vulnerável. Um de seus primeiros atos foi fortalecer os presídios estabelecidos por seu antecessor. O presídio de Mondego, em particular, recebeu atenção especial.
A Construção da Redoute (1797)
Em 1797, Montenegro ordenou a construção de uma fortificação mais robusta no local do antigo presídio de Mondego. A nova estrutura era uma redoute (reduto) de forma quadrada, flanqueada por quatro redans (obras defensivas salientes) e circundada por um fosso (vala defensiva).
Esta fortificação foi batizada de Miranda, em homenagem a um dos sobrenomes do próprio governador. O nome pegou não apenas para o forte, mas para todo o assentamento que cresceu ao seu redor e, posteriormente, para o próprio rio.
Francisco Rodrigues do Prado: O Primeiro Comandante
O primeiro comandante do presídio de Miranda foi Francisco Rodrigues do Prado, um oficial experiente que já havia servido como comandante do estratégico Forte de Coimbra, mais ao norte. A escolha de Prado não foi casual: tratava-se de um militar testado, capaz de organizar a defesa de um ponto tão remoto e vital.
Prado chegou ao novo presídio acompanhado de uma guarnição composta inicialmente por um destacamento militar modesto, mas que seria reforçado nos anos seguintes. A vida naquele posto avançado era dura: o isolamento era quase absoluto, os suprimentos irregulares, e a ameaça de ataques indígenas uma realidade constante.
Em 1797, poucos meses após assumir o comando em Miranda, Prado foi chamado para fundar outro presídio, e foi substituído pelo tenente-coronel de engenharia Ricardo Franco de Almeida Serra, figura eminente na história do Mato Grosso e engenheiro responsável pelo mapeamento de vastas regiões inexploradas.
Ricardo Franco chegou em setembro de 1797 com reforços significativos: 50 dragões e 18 auxiliares comandados pelo tenente Joaquim José dos Santos. Nos meses seguintes (setembro e dezembro de 1797), chegaram mais dois reforços, um de 40 homens e outro adicional, consolidando a presença militar portuguesa no local.
IV. A CONSOLIDAÇÃO ADMINISTRATIVA (1827-1857)
Sede Militar e Administrativa
O século XIX trouxe transformações importantes para Miranda. Com a independência do Brasil em 1822 e a estabilização política que se seguiu, a província de Mato Grosso reorganizou suas estruturas administrativas.
Em 1827, Miranda tornou-se a sede do 4º distrito militar e do comandamento da fronteira do Paraguay, função que manteria por décadas. Esta designação refletia o reconhecimento de sua importância estratégica na defesa da fronteira sul da província.
Elevação Religiosa e Administrativa
28 de agosto de 1835: Miranda foi elevada ao status de freguesia (paróquia eclesiástica) sob a invocação de Nossa Senhora do Carmo, abrangendo todo o território desde Corumbá até Coimbra (exclusive). Esta elevação representava não apenas uma organização religiosa, mas também administrativa, pois as freguesias serviam como unidades básicas de governo local no Brasil imperial.
30 de maio de 1857: Uma lei provincial conferiu a Miranda o status de vila, um reconhecimento formal de seu crescimento e importância. Com cerca de 700 habitantes às vésperas da Guerra do Paraguai, Miranda era um centro modesto mas vital na fronteira sul do império.
Abertura do Porto (1856)
25 de outubro de 1856: Um decreto abriu o porto de Miranda ao grande cabotagem (navegação costeira de longo curso), em virtude do tratado de 6 de abril do mesmo ano. Esta medida facilitava o comércio e a comunicação com outras partes do Brasil, embora na prática a navegação do rio Miranda apresentasse desafios consideráveis.
V. A COLÔNIA MILITAR DE MIRANDA (1850)
Uma Estratégia de Povoamento
Paralelamente ao desenvolvimento da vila de Miranda, o governo imperial implementou uma estratégia de povoamento do interior através da criação de colônias militares. Estas colônias serviam a múltiplos propósitos: defesa da fronteira, abertura de estradas, desenvolvimento agrícola e fixação de população em áreas estratégicas.
23 de novembro de 1850: O governo brasileiro fundou a Colônia Militar de Miranda, localizada próxima às nascentes do rio Miranda, acima da confluência com o rio Feio, a aproximadamente 250 quilômetros ao sudeste da vila de Miranda.
A colônia foi estabelecida com:
- Um destacamento militar da guarnição de Miranda
- Cerca de 30 agricultores civis
Esta iniciativa buscava criar um ponto de apoio mais ao interior, facilitando a colonização das terras altas e servindo como estação intermediária nas comunicações entre Miranda e as regiões mais ao leste.
VI. A GUERRA DO PARAGUAI: DESTRUIÇÃO E OCUPAÇÃO (1864-1865)
O Contexto do Conflito
A década de 1860 trouxe à América do Sul um dos conflitos mais sangrentos de sua história: a Guerra do Paraguai (1864-1870), também conhecida como Guerra da Tríplice Aliança, que opôs o Paraguai de Francisco Solano López contra a aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai.
Miranda, por sua localização estratégica nas proximidades da fronteira paraguaia, estava na linha de frente do conflito. A vila, que havia crescido lentamente ao longo das décadas anteriores, estava prestes a enfrentar seu maior desafio.
A Invasão Paraguaia
12 de janeiro de 1865: As forças paraguaias, em sua ofensiva inicial contra o Brasil, capturaram Miranda. A pequena guarnição brasileira, surpreendida pela velocidade e pela força do ataque inimigo, foi obrigada a se render ou fugir. A população civil de aproximadamente 700 habitantes viu-se sob ocupação estrangeira.
24 de fevereiro de 1865: Apenas 43 dias depois, os paraguaios abandonaram Miranda. As razões para este abandono rápido são objeto de debate histórico. Possivelmente, os invasores perceberam a dificuldade de manter linhas de abastecimento tão estendidas, ou receberam ordens de concentrar forças em outros pontos considerados mais estratégicos.
No entanto, este abandono não significou o fim dos sofrimentos de Miranda. A vila foi posteriormente retomada pelas forças paraguaias e, finalmente, em junho de 1866, foi completamente destruída pelos invasores em retirada.
Outras Fortificações na Região
Miranda não foi a única fortificação a sofrer durante a guerra. Na margem esquerda do rio, os espanhóis (antes da independência da Bolívia) haviam construído em 1801 um pequeno forte que foi atacado pelo comandante do presídio de Miranda quando chegaram notícias da surpresa do Forte de Coimbra em setembro do mesmo ano.
Este padrão de ataques e contra-ataques, de fortificações construídas e destruídas, caracterizou a história da fronteira por séculos.
VII. A RECONSTRUÇÃO E REORGANIZAÇÃO (1872-1878)
Uma Nova Era
O fim da Guerra do Paraguai em 1870 marcou o início de uma nova era para o Mato Grosso e, especialmente, para sua região sul. Os distritos que haviam sido ocupados ou devastados durante o conflito precisavam ser reconstruídos e repovoados.
1872: Este ano marcou o início do que o Dr. João Severiano da Fonseca chamou de “uma nova era para a província”. Os distritos de Corumbá, Albuquerque, Nioac, Coxim, Miranda e Dourados, retomados dos paraguaios ou por eles abandonados, reorganizaram-se rapidamente.
A Grande Imigração
Uma das consequências mais notáveis do pós-guerra foi um fenômeno migratório inesperado. Após a guerra, produziu-se “de repente uma forte imigração de paraguaios, misturados a aventureiros, que seguiram nossas tropas, compartilhando a subsistência do soldado.”
Maio a julho de 1876: O porto de Corumbá recebeu um reforço populacional de mais de 5.000 almas. Esta imigração massiva transformou a demografia da região, trazendo nova energia econômica e cultural, embora também novos desafios de integração e desenvolvimento.
Na mesma época, o Arsenal de Ladário (próximo a Corumbá) estava em plena atividade, empregando centenas de trabalhadores na construção e reparação de embarcações fluviais, fundamentais para a navegação do rio Paraguai.
A Reconstrução de Miranda
Miranda beneficiou-se deste movimento de reconstrução regional. A vila, que havia sido reduzida a escombros, foi gradualmente reconstruída. Novas casas surgiram sobre as fundações das antigas, as ruas foram retraçadas, e a vida retornou lentamente àquele posto avançado da civilização.
3 de abril de 1872: O presidente da província, coronel Francisco José Cardoso, demonstrou a confiança renovada no futuro de Miranda ao fundar a Colônia Militar de Conceição, colocando-a sob a direção do capitão Jorge Maria de Oliveira Guimarães. Esta nova colônia representava um compromisso com o desenvolvimento sustentável da região.
VIII. MIRANDA NO CONTEXTO DA EXPEDIÇÃO DE 1875-1878
A Comissão de Limites Brasil-Bolívia
Quando o Dr. João Severiano da Fonseca passou por Miranda entre 1875 e 1878, como médico militar da Comissão de Demarcação de Limites entre Brasil e Bolívia, a vila estava em pleno processo de recuperação e crescimento.
A expedição, que partiu do Rio de Janeiro em 1º de maio de 1875 e retornou em 15 de janeiro de 1878, teve como objetivo estabelecer marcos definitivos de fronteira entre os dois países, evitando futuros conflitos territoriais.
Miranda servia como ponto de apoio fundamental para estas operações. Sua posição geográfica, a 120 quilômetros da foz do rio Miranda no Paraguai, fazia dela uma base natural para expedições ao interior e para o reabastecimento das equipes que trabalhavam na demarcação.
A Importância Estratégica Renovada
O trabalho da Comissão de Limites reafirmou a importância estratégica de Miranda. A vila não era apenas um posto militar, mas um nó vital na rede de comunicações fluviais que ligava o interior do Mato Grosso ao rio Paraguai e, através dele, ao Atlântico.
O rio Miranda, com suas duas bocas principais (Aquidauâna e Mareco ou Miranda propriamente dito), cujas desembocaduras distavam aproximadamente 150 quilômetros uma da outra, oferecia múltiplas rotas de acesso ao interior. Navegável em grande parte de seu curso, especialmente durante as cheias, o rio facilitava o transporte de mercadorias e pessoas em uma época em que não havia estradas terrestres confiáveis.
IX. A GEOGRAFIA E OS MÚLTIPLOS NOMES
Uma Identidade Múltipla
A história de Miranda é também a história de seus muitos nomes, reflexo das sucessivas ondas de colonização e das diferentes perspectivas culturais sobre o mesmo espaço geográfico.
Mboteteyn: Nome indígena original, usado pelos povos nativos que habitavam a região antes da chegada dos europeus. Este nome, embora tenha começado a cair em desuso no final do século XIX, preserva a memória da presença indígena milenar.
Guararapô: Outro nome indígena usado por algumas tribos locais.
Araniani e Guachié: Nomes dados pelos espanhóis ao rio durante seus primeiros contatos com a região.
Mondego: Nome dado em 1776 por João Leme do Prado, em homenagem ao governador Luiz de Albuquerque, nascido às margens do rio Mondego em Portugal. Este nome aparece em vários mapas antigos, mas nunca ganhou popularidade entre os habitantes locais.
Mareco: Outro nome alternativo para o braço principal do rio.
Miranda: O nome que finalmente prevaleceu, dado em 1797 em homenagem ao capitão-general Caetano Pinto de Miranda Monténégro.
Esta multiplicidade de nomes reflete as complexas camadas de história que se sobrepõem neste território: a presença indígena original, a colonização espanhola, a conquista portuguesa, e finalmente a consolidação brasileira.
A Topografia e Localização
Miranda está situada por 20°14′ de latitude sul e 58°31’27” de longitude oeste do meridiano de Paris, a uma altitude aproximada de 150 metros acima do nível do mar. A vila foi construída em uma área relativamente plana, típica das terras baixas do Pantanal, sujeita a inundações periódicas durante a estação chuvosa.
O rio Miranda nasce na serra d’Anhambahy, próximo às nascentes do rio Dourados (afluente do rio Ivinheima), por 21°54′ Lat. S. e 57°59’27” Long. O. É formado pela reunião de dois grandes cursos d’água: o Aquidauâna e o Miranda propriamente dito.
X. MIRANDA E SEU PAPEL NA HISTÓRIA REGIONAL
Centro de Resistência
Ao longo de sua história, Miranda funcionou como um centro de resistência e defesa da soberania brasileira (e antes, portuguesa) na fronteira oeste. Desde sua fundação como presídio militar em 1778-1797 até sua destruição e reconstrução após a Guerra do Paraguai, a vila demonstrou notável resiliência.
Ponto de Integração
Miranda também serviu como ponto de integração entre diferentes culturas e povos. Indígenas de diversas etnias (Guaycurus, entre outros), colonos portugueses e brasileiros, militares, comerciantes, missionários e, após a guerra, imigrantes paraguaios, todos contribuíram para formar a identidade única da comunidade mirandense.
Base Logística
A função logística de Miranda nunca pode ser subestimada. Como base de apoio para expedições ao interior, ponto de abastecimento para as guarnições fronteiriças, e entroncamento nas rotas fluviais, Miranda desempenhou papel crucial na ocupação e desenvolvimento do oeste brasileiro.
Conclusão: Três Séculos de História
Da fundação de Santiago de Xerez pelos espanhóis em 1580 até a reconstrução pós-Guerra do Paraguai na década de 1870, quase três séculos de história se desenrolaram às margens do rio Miranda. Estes três séculos testemunharam:
- A conquista e destruição (1580-1648): O ciclo da colonização espanhola e sua violenta interrupção pelos bandeirantes e Guaycurus.
- O abandono e redescoberta (1648-1776): Mais de um século durante o qual o local permaneceu praticamente abandonado, até as expedições exploratórias portuguesas do século XVIII.
- A consolidação portuguesa/brasileira (1776-1864): O estabelecimento de presídios militares, a transformação em freguesia e vila, e o lento crescimento de uma comunidade permanente.
- A destruição pela guerra (1864-1870): A ocupação paraguaia e a devastação completa da vila.
- A reconstrução e modernização (1872 em diante): O renascimento de Miranda no contexto da reorganização pós-guerra e da imigração massiva.
Cada uma destas fases deixou sua marca na paisagem física e humana de Miranda. As ruínas de Santiago de Xerez, os vestígios das fortificações coloniais, as cicatrizes da guerra, e os novos edifícios da reconstrução formavam, na época da visita do Dr. Fonseca, um palimpsesto histórico — camadas sobrepostas de memória e experiência.
Miranda representa, em escala microcósmica, a própria história do Brasil: um território disputado por diferentes povos e nações, marcado por conflitos e violência, mas também por extraordinária capacidade de reconstrução e renovação. A pequena vila na fronteira, que sobreviveu a destruições repetidas, incorpora o espírito de persistência que caracteriza a formação nacional brasileira.
Quando o Dr. João Severiano da Fonseca navegou pelo rio Miranda na década de 1870, ele testemunhou não apenas um rio e uma vila, mas séculos de história humana condensados em alguns quilômetros de margem fluvial. Seu relato, preservado em “Voyage Autour du Brésil”, permanece como um dos mais importantes documentos sobre este capítulo da história do Mato Grosso — uma história de fronteira, de guerra, de destruição, mas acima de tudo, de sobrevivência e esperança.
Localização Geográfica Final (1878):
- Latitude: 20°14′ Sul
- Longitude: 58°31’27” Oeste do meridiano de Paris
- Altitude: Aproximadamente 150 metros acima do nível do mar
- Distância da foz do rio: 120 quilômetros
- População (pré-guerra, 1864): Aproximadamente 700 habitantes
- Status administrativo: Vila (desde 1857), sede do 4º distrito militar e do comandamento da fronteira do Paraguai (desde 1827)
Fontes
Este texto histórico foi elaborado com base exclusivamente nas informações contidas no documento “Voyage Autour du Brésil” (Viagem ao Redor do Brasil), obra de João Severiano da Fonseca, publicada no Rio de Janeiro em 1880-1881, em sua edição francesa condensada por Pires de Almeida.
