A Memória Gravada nas Ruas: Três Lagoas e sua Fase Ferroviária
Estação de Três Lagoas
A cidade de Três Lagoas nasceu oficialmente em 15 de junho de 1915, pela Lei Estadual nº 706, desmembrada da Comarca de Sant’Anna do Paranaíba. O fator determinante de sua fundação foi a chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil — inaugurada localmente em 1912 — que atraiu trabalhadores, imigrantes e comerciantes para se fixar nas proximidades da estação ferroviária.
O traçado urbano foi planejado pelo Engenheiro Oscar Guimarães, que se inspirou nos boulevards franceses: avenidas largas, com canteiros centrais e arborização. Os primeiros bairros que surgiram nesse momento foram o Centro, Santa Luzia, Nossa Senhora Aparecida, Lapa, Santa Rita, Vila Nova e Colinos — todos com data de criação reconhecida em 1915.
Nessa primeira fase, a toponímia urbana — isto é, os nomes dados às ruas, avenidas e praças — refletia o mundo ao redor da ferrovia: homenagens a estados brasileiros, a cidades de origem dos imigrantes, a figuras políticas regionais e nacionais, e a datas históricas de importância coletiva. Muitos desses nomes originais foram trocados ao longo do século XX por homenagens a pessoas locais, como médicos, comerciantes e políticos que haviam participado diretamente da construção da cidade.
2. Os Bairros Fundados na Fase Ferroviária
Centro surgiu em 1915 ao redor da própria Estação Ferroviária, que foi construída na área central da então vila. Foi justamente em torno da estação que brotaram os primeiros estabelecimentos comerciais e as primeiras residências permanentes. O bairro Centro concentra até hoje as principais avenidas e ruas da cidade, além dos prédios históricos mais importantes.
Santa Luzia também data de 1915 e foi povoado pelos trabalhadores que vieram para a cidade com a construção da ferrovia, instalando-se perto do Córrego do Pinto, região conhecida como “Formigueiro” até 1967, quando recebeu o nome atual com a construção da Igreja de Santa Luzia. As primeiras casas eram de madeira, cobertas de zinco. Ainda existem no bairro as antigas instalações das oficinas mecânicas ferroviárias, hoje desativadas, mas preservadas como memória.
Nossa Senhora Aparecida é um dos bairros mais antigos e foi diretamente habitado pelos ferroviários e suas famílias. Ainda guarda casas de madeira originais, um pequeno bosque e maquinários esquecidos da antiga estação. É popularmente chamado de “Feijão Queimado”, segundo a lenda porque as senhoras se distraíam com as conversas e deixavam queimar o feijão no fogão.
Lapa, Santa Rita, Vila Nova e Colinos completam o grupo dos bairros fundadores. Colinos, em particular, viria a se tornar mais tarde um dos bairros mais valorizados da cidade, conhecido pelas casas grandes de médicos, engenheiros e comerciantes enriquecidos a partir dos anos 1960.
3. As Grandes Avenidas do Centro e Seus Nomes Originais
O bairro Centro é estruturado por cinco avenidas principais que atravessam vários bairros e funcionam como eixos de orientação geográfica para toda a cidade. Todas tiveram nomes diferentes na fase ferroviária — nomes que faziam referência a estados, regiões e à própria ferrovia — e foram renomeadas ao longo das décadas.
A Avenida Antônio Trajano dos Santos é a principal via da cidade e já carregou dois outros nomes: primeiro foi chamada de Avenida Central, nome absolutamente descritivo de sua posição, e depois de Avenida João Pessoa, homenagem ao político paraibano. Seu nome atual é uma homenagem ao fundador da cidade e doador das terras que possibilitaram a construção da Igreja Matriz e o povoamento da vila. A mudança foi formalizada pela Lei nº 28 de 1949. É nessa avenida que fica o relógio central da cidade, construído nos moldes do relógio de Campo Grande, com a curiosidade de representar o número quatro como “IIII” em vez do correto “IV”.
A Avenida Filinto Müller se chamava Avenida Cuiabá na fase ferroviária — referência direta à capital de Mato Grosso, estado ao qual a região pertencia antes da divisão de 1979. O novo nome, estabelecido pela Lei nº 659 de 1984, homenageia o político Felinto Müller, senador por três mandatos pelo estado de Mato Grosso, fundador do PSD e da Arena. Sua trajetória é controversa: participou da Revolução de 1930, mas ficou mais conhecido como chefe de polícia do governo ditatorial de Vargas entre 1933 e 1942, período em que foi acusado de torturas, prisões arbitrárias e ligações com o nazismo. A avenida é conhecida popularmente como Avenida do Jatobá, apelido que surgiu por causa de uma árvore centenária que existia no local e foi derrubada por risco estrutural.
A Avenida Advogado Rosário Congro se chamava Avenida Noroeste — em referência explícita à Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que corria paralela a ela e foi a razão de existir de toda a cidade. É a avenida onde fica a antiga Estação Ferroviária, hoje usada como estacionamento e escola de circo. A feira livre ocorre ali toda segunda, quarta e sábado. O nome atual, estabelecido pela Lei nº 257 de 1965, homenageia Rosário Congro, advogado, escritor, jornalista e duas vezes prefeito de Três Lagoas, membro da Academia Mato-grossense de Letras.
A Avenida Dr. Eloy Chaves de Miranda se chamava Avenida São Paulo — referência ao estado de onde vinha a ferrovia e de onde vieram muitos dos primeiros trabalhadores da cidade. O nome atual, também estabelecido pela Lei nº 257 de 1965, homenageia Eloy Chaves de Miranda, advogado, empresário e banqueiro que ficou conhecido por criar, em 1923, a Lei nº 4682, que instituiu a primeira caixa de aposentadorias e pensões para ferroviários no Brasil — uma espécie de precursora da Previdência Social. A avenida é considerada a mais bela do centro, pela exuberância dos ipês que a adornam.
A Avenida Capitão Olinto Mancini se chamava Avenida Minas Gerais — homenagem ao estado que mais contribuiu com migrantes para o povoamento de Três Lagoas no início do século XX. O nome atual foi estabelecido pela Lei nº 92 de 1952 em homenagem a Olinto Mancini, agrimensor, vereador e presidente da Câmara Municipal, que substituiu o intendente em 1925 e ajudou a fundar o Hospital Nossa Senhora Auxiliadora e o clube TLC (Três Lagoas Clube). É nessa avenida que fica o Cristo Redentor da cidade, ponto de referência geográfica reconhecido por toda a população.
4. Ruas Históricas do Centro: Nomes Que Existiam e Nomes de Hoje
Rua Paranaíba é um dos poucos casos em que o nome original sobreviveu até hoje. Homenageia a cidade de Paranaíba, da qual Três Lagoas foi distrito antes de se tornar município independente. O nome tem origem indígena e significa “rio ruim, impraticável”. É onde fica o relógio central e os prédios históricos mais antigos do centro, incluindo o que foi sede do Consulado Português na cidade, hoje em estado de abandono parcial. Essas fachadas revelam a arquitetura do início do século XX.
Rua Dr. Bruno Garcia se chamava Rua Mato Grosso — referência ao antigo estado que abrangia todo o atual Mato Grosso do Sul antes da divisão de 1979. O nome foi trocado pela Resolução nº 28 de 1949, um ano após a morte de Bruno Garcia, médico nascido em Santana de Paranaíba em 1915 que percorria as residências a lombo de burro para atender os mais necessitados, além de ter sido vereador e colaborador de jornais. É uma das principais ruas de acesso ao shopping.
Rua Dr. Orestes Prata Tibery se chamava Rua Barão do Rio Branco — homenagem ao célebre diplomata José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, patrono do Itamaraty e uma das maiores figuras da política externa brasileira. O nome foi substituído bem mais tarde, pela Lei nº 1371 de 1997, para homenagear o médico mineiro Orestes Prata Tibery, que chegou a Três Lagoas em 1935, ficou famoso por atender os pobres sem cobrar nada e por distribuir remédios de graça. A rua percorre os bairros Centro, Colinos, Alvorada e Quinta da Lagoa.
Rua Dr. Munir Thomé se chamava Rua 2 de Junho — nome que não faz referência a nenhuma data em particular, mas era comum esse tipo de denominação numéricodatada no início do século. O nome atual homenageia Munir Thomé, filho de imigrantes libaneses, médico ginecologista que residia e atendia no próprio centro da cidade e era chamado de “médico dos pobres”. Faleceu aos 50 anos, em 1976.
Rua Zuleide Perez Tabox se chamava Rua Joaquim Murtinho — homenagem a Joaquim Murtinho, político mato-grossense de destaque que foi ministro da Fazenda e das Relações Exteriores no início da República. O nome foi trocado pela Lei nº 871 de 1989 para homenagear Zuleide Perez Tabox, esposa do ex-prefeito Miguel Tabox, que faleceu apenas 28 dias após a posse do marido, em janeiro de 1989, vítima de infecção generalizada. A rua passa em frente à Igreja Matriz e é exclusiva do bairro Centro.
Rua Alfredo Justino de Souza se chamava Rua Porto Esperança — referência à cidade de Porto Esperança, porto fluvial histórico no sul do então Mato Grosso. O nome foi trocado pela Resolução nº 59 de 1951 para homenagear Alfredo Justino de Souza, comerciante, juiz de paz e considerado um dos desbravadores do sertão de Mato Grosso. A rua fica atrás da Igreja Matriz, passa pela Casa Paroquial e pelo Colégio Dom Bosco, e ainda conserva casas com arquitetura do século passado.
Rua João Silva se chamava Rua Tupinambá — nome indígena, referência à etnia Tupinambá, presença comum na memória territorial brasileira da época. O nome foi trocado pela Resolução nº 60 de 1951 para homenagear João Silva, proprietário da fábrica de gelo da cidade, idealizador da feira do gado e fundador da loja maçônica “Vale do Paraná”.
Rua João Carrato não tem nome anterior registrado nas fontes pesquisadas, mas foi homenageada pela Resolução nº 70 de 1951 ao proprietário do Hotel dos Viajantes, estabelecimento que era ponto de chegada de comerciantes e tropeiros.
Rua Crispim Coimbra se chamava Rua São João — nome religioso típico da fase de fundação, quando o calendário de santos servia de referência para nomear logradouros. O nome atual, pela Lei nº 15 de 1974, homenageia Crispim Coimbra, marceneiro, carpinteiro, açougueiro e leiteiro que trabalhou no centro da cidade.
Rua Generoso Alves de Siqueira homenageia o primeiro intendente de Três Lagoas, que depois foi vereador. Não há registro de nome anterior nas fontes consultadas pela pesquisadora.
Rua Elmano Soares homenageia jornalista e editor da Gazeta do Comércio, sem nome anterior registrado.
Travessa Alzira Ottoni da Silva se chamava Rua Cuiabá — referência à capital mato-grossense, que aparecia também no nome original da atual Avenida Filinto Müller. O nome foi trocado pela Lei nº 815 de 1988 para homenagear Alzira Ottoni da Silva, dedicada ao auxílio de pessoas necessitadas.
5. Ruas com Datas Históricas — Memória Preservada Até Hoje
Dois logradouros do bairro Nossa Senhora Aparecida e Santa Rita preservam até hoje nomes de datas históricas que remetem diretamente às origens da cidade e à memória nacional.
A Rua 13 de Junho homenageia o dia de Santo Antônio, padroeiro de Três Lagoas e santo que deu nome à primeira igreja construída na cidade, a Capela Santo Antônio. A data marca a identidade religiosa e cultural do município desde sua fundação.
A Rua 15 de Junho homenageia o aniversário de fundação da cidade, oficializado em 15 de junho de 1915. Em 2015, quando a dissertação foi concluída, Três Lagoas completou exatamente 100 anos. As duas ruas correm paralelas e atravessam os bairros Nossa Senhora Aparecida, Santa Rita e Brasília.
No bairro Santa Luzia, a Rua 21 de Abril homenageia a data do enforcamento de Tiradentes, o mártir da Inconfidência Mineira, memória cívica nacional presente nos bairros mais antigos da cidade desde o início do século XX.
6. O Que os Nomes Revelam Sobre a Fase Ferroviária
A análise dos nomes originais — aqueles que existiam na fase ferroviária e foram depois substituídos — mostra um padrão muito claro: a cidade recém-fundada nomeou suas ruas olhando para fora, para o mundo mais amplo do qual fazia parte. Os nomes de estados (Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso), de cidades (Cuiabá, Porto Esperança, Paranaíba), da própria ferrovia (Noroeste) e de figuras políticas nacionais (João Pessoa, Barão do Rio Branco, Joaquim Murtinho) revelam uma comunidade que ainda se via como ponto de chegada, ligada ao restante do Brasil pelos trilhos.
Com o passar das décadas, especialmente entre 1949 e 1997, esses nomes foram sendo substituídos por homenagens a pessoas que haviam efetivamente construído Três Lagoas: médicos que atendiam de graça, comerciantes que fundaram o primeiro hotel ou a primeira fábrica de gelo, advogados que ocuparam cargos públicos, ferroviários que chefiaram cooperativas. A toponímia passou a olhar para dentro, reconhecendo os próprios protagonistas locais.
Segundo Karla Bittencourt, essa transformação não é apenas linguística: ela reflete uma mudança profunda na identidade coletiva da cidade. Uma comunidade que antes precisava ancorar sua existência em referências externas foi, ao longo do século XX, construindo sua própria memória, seus próprios heróis e seus próprios marcos de pertencimento — e gravou tudo isso nos nomes das ruas que seus moradores percorrem todos os dias.
Documento elaborado com base na dissertação de mestrado: BITTENCOURT, Karla Porto. Toponímia Urbana da Cidade de Três Lagoas – MS: Interfaces entre Léxico, Cultura e História. Dissertação (Mestrado em Letras) – UFMS, Três Lagoas, 2015.
