Sangue, Tinta e Chumbo: Quando Corumbá Atacou a Imprensa a Espada e Revólver

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1. – 25 de maio de 1879 – O Iniciador (o PRIMEIRO atentado registrado contra imprensa em todo Mato Grosso)

O jornal nasceu em 1877, fundado por Silvestre Antunes Pereira da Serra (comerciante português). Em menos de dois anos já cutucava os militares que mandavam na cidade pós-Guerra do Paraguai.

O que aconteceu exatamente (trecho de Mendonça 1919, p. 274-275, citado na tese p. 42-43):

“Militares armados com revólveres e espadas invadiram a sede do jornal que funcionava na casa dos proprietários, com o objetivo de intimidar Silvestre Antunes Pereira da Serra por causa das posições que o periódico tinha em relação a um conflito existente entre comerciantes portugueses e militares.”

Foi à noite. Entraram na residência do dono, quebraram tudo, ameaçaram. O presidente da Província (João José Pedrosa) considerou “ataque à segurança pública”, mandou ofício pro Governo Imperial e deslocou o chefe de polícia de Cuiabá pra Corumbá. Investigaram um mês inteiro… ninguém foi punido. Faltou prova (clássico da fronteira).

O jornal sobreviveu e circulou até 1886. Foi o marco zero da violência contra imprensa no estado.

2. – 25 de julho de 1897 – O Tiradentes (tentativa de matar o jornal antes do primeiro número)

Periódico “nativista – tudo pela pátria – tudo pela república”. Defendia os interesses locais contra os coronéis.

Trecho literal (publicado no próprio jornal depois, reproduzido na tese p. 48):

“Sob a sombra da noite de 25 de julho último, ignóbeis adversários da civilização e da verdade […] servindo-se talvez de uma chave falsa, penetram no edifício de sua tipografia e d’ali extraviam grande parte de seu material, espalhando em sua […] quase todos os seus tipos.”

Usaram chave falsa, roubaram/quebraram tipos de chumbo (o “empastelamento” clássico). Queriam impedir o lançamento.

Mesmo assim o jornal saiu no dia 7 de setembro de 1897 (primeira edição preservada na BN) e continuou circulando às quintas-feiras.

Aqui a capa da primeira edição que sobreviveu ao atentado:

3. – 1916 – O Diário de Corumbá (o mais brutal)

Fundado pra apoiar a candidatura de Artur Bernardes, virou alvo direto do coronelismo local.

Fato documentado (Mendonça 1919, p. 275):

“O Diário de Corumbá foi empastelado em 1916 e os autores do atentado não foram identificados e punidos.”

Quebraram a tipografia inteira. O jornal parou de circular por meses. Só voltou em 1917 depois que o Arsenal de Marinha de Ladário consertou a máquina (notícia registrada na própria Hemeroteca BN em 1917). Autores nunca foram pegos – típico da época.

Por que isso acontecia tanto em Corumbá?

Pós-Guerra do Paraguai a cidade ficou dominada por militares. Comerciantes portugueses (como o dono do Iniciador) queriam poder. A República trouxe mais briga entre oligarquias. Quem criticava no jornal levava chumbo ou empastelamento. Era o “far west” da imprensa matogrossense.

Esses três casos são citados até hoje em trabalhos acadêmicos como os primeiros exemplos de violência política contra a imprensa no sul do antigo Mato Grosso.

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