Redes sociais ultrapassaram a televisão e os próprios sites das organizações de mídia como as fontes de informação mais utilizadas
Por Yuri Spazzapan
O consumo de notícias no mundo passa por uma profunda transformação estrutural, com o público reagindo à volatilidade política e econômica com desengajamento e ansiedade. É o que aponta a 15ª edição do Digital News Report (2026), elaborada pelo Reuters Institute for the Study of Journalism da Universidade de Oxford. A pesquisa revela tendências globais desafiadoras para o jornalismo, com reflexos bastante marcantes nos mercados do Brasil e de Portugal.
O Cenário Global: “Plataformização” e Falta de Confiança Segundo o levantamento, o ecossistema de informação encontra-se cada vez mais fragmentado, tornando a relação entre o jornalismo e o público menos direta. O consumo de notícias tornou-se menos intencional, em grande parte devido à intensa “plataformização”: as redes sociais e plataformas de vídeo ultrapassaram a televisão e os próprios sites das organizações de mídia como as fontes de informação mais utilizadas semanalmente.
Nesse novo cenário, os vídeos online ganham protagonismo, assim como cresce a influência de criadores de conteúdo no ambiente informativo. Além disso, o relatório evidencia os primeiros passos significativos em direção à integração da Inteligência Artificial (IA) nas jornadas de consumo de notícias do público.
O dado que mais acende o alerta no relatório de 2026, no entanto, é o de credibilidade. A pesquisa aponta que a confiança nas notícias caiu de maneira significativa em 29 dos 48 mercados pesquisados. No cenário geral, o índice de confiança despencou para o patamar mais baixo já registrado desde que o instituto começou a rastrear essa métrica.
Brasil: Mídia Tradicional Perde Espaço e TV Busca Inovação Os dados referentes ao mercado brasileiro confirmam um ambiente difícil para os veículos tradicionais, que continuam perdendo terreno como fonte de notícias. O cenário é agravado pela redução na base de consumidores pagantes e por uma nova queda na confiança nas notícias, que ocorreu logo após três anos de relativa estabilidade. Em contrapartida, o hábito de buscar informação em redes sociais permanece alto e o uso de chatbots de Inteligência Artificial vem crescendo em popularidade no país.
Apesar dessas barreiras, o relatório nota que o número de canais de notícias online no Brasil cresceu em 2025. A televisão, um meio historicamente de grande força no país, está reagindo à crise ampliando suas redes de distribuição e lançando canais multiplataforma. Como exemplo, o documento cita o SBT News, que estreou em dezembro de 2025 como um canal de notícias 24 horas formatado no modelo FAST (Televisão via Streaming Gratuita Suportada por Anúncios), integrando TV a cabo e plataformas de vídeo.
Portugal: Concentração de Mercado e Mudanças Estruturais Em Portugal, a paisagem midiática também passa por grande agitação estrutural. Isso é evidenciado pela reestruturação de um importante grupo privado de mídia, pelas recentes propostas para reformar a rede pública (RTP) e pelos obstáculos crescentes enfrentados pela classe jornalística.
O mercado português é caracterizado por um alto nível de concentração. Ele é dominado por quatro grandes grupos comerciais — Impresa, Medialivre (antiga Cofina), Media Capital e Global Media — ao lado da estatal RTP. Essa estrutura fechada cria um ambiente muito difícil para o ingresso de novas empresas no setor. Para se adaptar e continuar a operar no competitivo mercado digital, as empresas comerciais portuguesas passaram a considerar o aumento da concentração corporativa e o apelo a investidores estrangeiros como medidas fundamentais.
Curiosamente, contornando a tendência global de queda na credibilidade, os dados preliminares apontam que a confiança geral nas notícias em Portugal atingiu o seu nível mais alto.
Conclusão O Digital News Report 2026 deixa claro que a mídia vive uma fragilidade institucional profunda, moldada por amplas forças políticas, tecnológicas e sociais. Enquanto os veículos globais lutam para acomodar a revolução da Inteligência Artificial e a hegemonia dos influenciadores digitais, mercados como o brasileiro e o português atestam a necessidade urgente de investir em novos formatos de distribuição, fusões e parcerias para sobreviver na atual economia da atenção.
