O coronel que serviu a López e depois o chamou de “monstro sem igual”
Como o relato de um oficial britânico infiltrado no comando paraguaio revelou ao mundo os bastidores da ditadura que arrastou o Paraguai à guerra contra o Brasil, a Argentina e o Uruguai
Em junho de 1869, em Londres, um engenheiro e coronel do exército paraguaio sentou-se para escrever o livro que se tornaria uma das fontes mais citadas — e mais controversas — sobre a Guerra do Paraguay (1864-1870). Seu nome era Jorge Thompson (George Thompson, no original inglês), e por onze anos ele havia servido ao governo de Assunção, chegando a ser ajudante de campo do próprio marechal Francisco Solano López. A obra, La Guerra del Paraguay, ganharia décadas depois uma edição em espanhol especialmente cuidada — publicada em Buenos Aires em 1910, pela editora de Juan Palumbo, com ilustrações de F. Fortuny, oito mapas do teatro de operações, prólogo do professor Elías Martínez Buteler e um “juízo crítico” assinado pelo jurista argentino Osvaldo Magnasco — e é essa edição que chega hoje, digitalizada, às mãos de pesquisadores e leitores interessados na história platina.
Para o leitor brasileiro, habituado a uma historiografia da Guerra do Paraguai construída majoritariamente a partir de fontes brasileiras, argentinas e uruguaias, o valor do livro de Thompson está exatamente em seu ângulo incomum: ele escreve de dentro do regime que o Brasil e seus aliados combatiam. E é um relato de ruptura — o de um homem que serviu ao ditador paraguaio até quase o fim, e que só depois de conhecer de perto os porões do poder decidiu contar o que viu.
Um estrangeiro dentro do palácio
Thompson deixa claro, logo no prefácio, que sua motivação inicial para se envolver na guerra não foi política. Ele precisava “mudar de ares” e aproveitou o que imaginava ser apenas um passeio militar por uma vasta região. Só depois, com a publicação de um tratado secreto entre os aliados, ele diz ter “abraçado a guerra com maior entusiasmo”, convencido de que o Paraguai precisaria combater ou sucumbir.
Mas o dado mais impressionante do prefácio é outro: Thompson afirma que, apesar de residir havia onze anos no país e de participar ativamente da defesa paraguaia, só descobriu o verdadeiro caráter de López no final de 1868 — pouco antes de deixar o país. Até então, escreve, tinha ouvido apenas rumores vagos sobre as “iniquidades” do marechal. Quando finalmente reuniu provas do que classifica como um “monstro sem igual”, decidiu registrar tudo, na esperança confessa de que o relato pudesse influenciar os aliados a apressar o fim da guerra e salvar vidas de mulheres e crianças que, segundo ele, continuavam perecendo no Paraguai.
Essa confissão é importante para quem lê o livro mais de um século depois: Thompson não é um observador neutro, nem pretende ser. É um ex-colaborador que rompeu com o regime e escreve, em parte, para se explicar — e essa tensão entre proximidade e repúdio é o que dá ao texto sua força e, ao mesmo tempo, exige do leitor atual um mínimo de cautela historiográfica.
Quatro nações, um continente de desconfianças
O primeiro capítulo do livro é dedicado a um panorama comparativo entre as quatro nações beligerantes — Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil —, descritas por Thompson como povos que a geografia obriga a manter relações comerciais, “das quais cada um prescindiria de bom grado”, já que, em suas palavras, os habitantes desses países “se odeiam cordialmente”. É um retrato de época, escrito sob a lente racial e etnográfica típica do século XIX — Thompson classifica as populações por composição de “raças” (europeia, indígena, africana e suas misturas), um vocabulário e uma hierarquia que hoje soam datados e problemáticos, mas que ajudam o leitor contemporâneo a entender como um oficial britânico da era vitoriana enxergava — e julgava — as sociedades sul-americanas em que viveu.
Mais interessante para o leitor de hoje é a leitura que Thompson faz da formação paraguaia: um país que, ao contrário de seus vizinhos, viveu praticamente livre de guerras externas e de convulsões civis desde a conquista espanhola — com a única exceção de um confronto contra a expedição do general argentino Manuel Belgrano, no início do século XIX. Essa paz interna prolongada, segundo o autor, teria deixado o povo paraguaio “inteiramente ignorante da ciência militar” às vésperas do conflito — um contraste que ele explora ao longo de toda a obra entre a disciplina cega dos soldados paraguaios e sua completa falta de experiência de combate.
Da missão jesuítica à ditadura perpétua
Um dos trechos mais ricos do livro, do ponto de vista histórico, é a reconstituição que Thompson faz da transição paraguaia de teocracia jesuítica a regime de dictadura absoluta — o “bosquejo histórico” prometido no subtítulo da edição.
O autor narra como os jesuítas, instalados no território desde o fim do século XVI, ergueram as reduções — aldeias distantes o suficiente do governo colonial espanhol para operar com autonomia — e ali alfabetizaram os indígenas guarani, sistematizaram a língua guarani em gramáticas e dicionários, e organizaram a produção artesanal e religiosa das missões. Thompson reconhece o papel civilizatório desse sistema, mas também descreve como ele reduziu os indígenas a um estado de obediência quase militar, ensinando-os a agir sem jamais questionar a autoridade de seus superiores — uma docilidade que, segundo o autor, prepararia culturalmente o terreno para o despotismo que viria depois da expulsão dos jesuítas, decretada pela Coroa espanhola em 1767.
A independência chegou ao Paraguai por uma via inusitadamente pacífica: uma revolução em 1811, segundo Thompson, sem que “uma única gota de sangue” fosse derramada. Dela nasceu um governo consular, do qual fazia parte um obscuro advogado chamado José Gaspar de Francia.
O doutor Francia e a arquitetura do medo
O relato que Thompson faz do governo do Dr. Francia é um dos pontos altos do livro para quem se interessa pelos mecanismos do poder absoluto. Eleito cônsul em 1813 ao lado de um colega que, segundo relatos reproduzidos pelo autor, teria sido assassinado por ordem sua, Francia convocou um congresso que o nomeou ditador — primeiro por doze anos, depois vitalício.
Thompson descreve um sistema de espionagem tão minucioso que nem os parentes mais próximos de um cidadão estavam a salvo de denúncias; qualquer suspeita de deslealdade, mesmo íntima, podia levar à prisão, ao confisco de bens ou ao fuzilamento — sobretudo entre homens de prestígio. O próprio Francia, segundo o autor, vivia em “alarme contínuo” pelo temor de ser assassinado, e sua escolta espancava qualquer pessoa encontrada no trajeto de suas cavalgadas pelas ruas de Assunção.
O isolamento que Francia impôs ao país foi radical: fronteiras guarnecidas, proibição de entrada e saída de pessoas e bens, fuzilamento para quem tentasse fugir ou exportar dinheiro. De tempos em tempos, um único navio era autorizado a chegar a Assunção para que o próprio ditador comprasse mercadorias em troca da erva-mate do país — qualquer outro estrangeiro que caísse em suas mãos era detido à força.
O livro reproduz ainda um episódio particularmente revelador do uso do poder para perseguição pessoal: Francia teria promulgado uma lei proibindo casamentos entre brancos, negros, índios e mulatos — e, em seguida, declarado “mulatas” várias famílias importantes que odiava, na tentativa deliberada de extingui-las ao impedir seus casamentos dentro da elite branca. Quando morreu, aos 85 anos, Francia foi sepultado sob o altar-mor da igreja da Encarnação, em Assunção; mais tarde, segundo Thompson, seus restos foram desenterrados e atirados ao rio por familiares de vítimas de sua perseguição.
A dinastia López: leis, decretos e negócios de família
Com a morte de Francia, um novo congresso elegeu cônsules Carlos Antonio López e Roque Alonso — este último logo afastado pelo primeiro, que se fez eleger presidente por dez anos em 1844. É nesse ponto que Thompson insere no livro um conjunto de leis e decretos paraguaios da época, tratados como documentos-modelo da nova ordem jurídica: os Estatutos para a Administração da Justiça de 1842, que aboliam formalmente as penas de tormento e o confisco de bens; o decreto sobre a “liberdade de ventres”, que determinava a condição livre dos filhos nascidos de escravos a partir de 1843; e decretos que regulavam minuciosamente até o comportamento litúrgico dos bispos, proibindo repiques de sino e genuflexões públicas em sua honra — um retrato preciso de como o Estado absolutista paraguaio normatizava tudo, da propriedade privada aos gestos de reverência religiosa.
Mas Thompson não deixa por menos ao descrever a prática por trás das leis. Carlos Antonio López, que começara pobre e vivia de um salário modesto como advogado nos tempos de Francia, transformou o poder presidencial em máquina de enriquecimento familiar. Nomeou o filho mais velho, Francisco Solano — o futuro marechal — general em chefe do Exército e ministro da Guerra ainda jovem; deu ao segundo filho, Venâncio, o posto de coronel e comandante da guarnição de Assunção; ao caçula, Benigno, o posto de sargento-mor, depois recusado em favor de “vida errante”.
O esquema de acumulação descrito por Thompson é detalhado: a família comprava gado a preços artificialmente baixos, e ninguém no mercado ousava recusar a oferta; revendia depois pelo preço que quisesse, já que nenhum paraguaio podia vender gado enquanto sobrasse estoque pertencente ao presidente. As mulheres da família teriam criado uma espécie de casa de câmbio informal, comprando papel-moeda desgastado com desconto e trocando-o no tesouro público pelo valor integral. Ainda assim, Thompson pondera — e essa é uma nuance que vale registrar — que, apesar de todo o egoísmo do primeiro López, seu governo foi, em suas palavras, “bom” comparado ao que o Paraguai já havia conhecido: os crimes eram raros e rapidamente punidos, e o povo, segundo o autor, talvez fosse “o mais feliz do mundo”, vivendo da própria terra sem necessidade de trabalho assalariado.
Solano López e a marcha para a guerra
A segunda metade do livro relata a ascensão de Francisco Solano López à presidência, em 1862, e a cadeia de decisões que levaram o Paraguai à guerra contra a Argentina, o Uruguai e o Império do Brasil — a expedição a Mato Grosso no fim de 1862, o tratado secreto da Tríplice Aliança, a batalha do Riachuelo, o cerco de Humaitá e as sucessivas campanhas em Corrientes, no Chaco e no litoral do rio Paraguai, capítulo a capítulo, quase como um diário de operações.
É aqui que o subtítulo “apontamentos sobre a engenharia militar da guerra” ganha sentido concreto: Thompson, como oficial técnico, detalha a composição exata do Exército paraguaio no início do conflito — cerca de 80 mil homens, divididos entre cavalaria, infantaria e artilharia, com regimentos de cavalaria organizados em esquadrões de cem homens, lanças paraguaias de três jardas contra as de doze pés dos aliados, cerca de cem mil cavalos (metade deles incapazes de galopar mais de três milhas) e uma artilharia heterogênea, que ia de canhões de aço recém-fundidos a peças de ferro enferrujado comparáveis, na sua descrição, a simples postes decorativos. É um nível de detalhe técnico raro nas fontes da época, e um dos motivos pelos quais o livro segue sendo consultado por historiadores militares.
O retrato do ditador: luxo, paranoia e crueldade
Um dos capítulos mais lidos da obra é o retrato pessoal que Thompson traça de Solano López já em plena guerra — um homem vaidoso com sua escolta e seu luxo militar, de pernas curtas e andar peculiar, fumante inveterado e grande apreciador de bons vinhos de Bordeaux, que ninguém em sua mesa tinha permissão de beber, nem mesmo sua companheira, a irlandesa educada na França Elisa Lynch, nem o bispo do país. Falava francês fluentemente com Lynch, espanhol com autoridade, mas dirigia-se a oficiais e soldados — e ao próprio Thompson — sempre em guarani.
Thompson descreve um homem incapaz de afeto verdadeiro fora do círculo mais íntimo — “não é capaz de abrigar sentimentos amistosos por ninguém”, escreve, lembrando que López havia mandado fuzilar vários de seus antigos favoritos e companheiros de longa data. À medida que a guerra avançava, o marechal teria adotado o hábito de beber Porto durante o dia, um vício que, segundo o autor, coincidiu com o início do período mais sombrio de sua conduta — e mantinha sempre cavalo selado e carruagem pronta antes do amanhecer, temendo ser surpreendido pelo avanço inimigo.
A caçada aos “conspiradores”
O capítulo mais pesado do livro é dedicado ao que Thompson chama de “suposta conspiração” — a onda de prisões, torturas e execuções que López teria desencadeado contra supostos traidores dentro de seu próprio círculo, incluindo estrangeiros residentes no país. Nessa parte, Thompson recorre a um documento externo à sua própria memória: reproduz a correspondência de Charles Ames Washburn, ministro dos Estados Unidos no Paraguai, que relatou a Buenos Aires, em setembro de 1868, ter deixado o país em meio ao encarceramento de quase todos os estrangeiros ali residentes. O relato de Washburn narra como a própria legação americana se tornou refúgio de dezenas de pessoas — entre elas o ex-chefe de governo uruguaio Antonio de las Carreras — que temiam tanto os exércitos aliados quanto o próprio governo paraguaio.
Vale notar que o livro não é só acusação unilateral: Thompson também reproduz, na íntegra, a correspondência diplomática trocada entre López e o presidente argentino Bartolomeu Mitre sobre o tratamento de prisioneiros de guerra — incluindo uma dura carta em que o próprio marechal paraguaio acusa os aliados de escravizar prisioneiros paraguaios no Brasil e de forçar outros a lutar contra sua própria pátria. A inclusão desses documentos oficiais, lado a lado com o relato pessoal de Thompson, é o que dá ao livro seu caráter híbrido: memória de guerra, denúncia política e coletânea documental ao mesmo tempo.
Um relato para ser lido com as devidas ressalvas
É importante que o leitor brasileiro de hoje situe essa obra dentro do debate historiográfico sobre a Guerra do Paraguai — um dos temas mais disputados da história platina, no qual convivem, ainda hoje, correntes revisionistas que veem em Solano López um mártir nacional resistente ao imperialismo britânico e brasileiro, e correntes que o retratam, como faz Thompson, como um déspota que sacrificou boa parte da população paraguaia por vaidade e ambição pessoal. O próprio prólogo argentino de 1910, assinado por Martínez Buteler, já registrava essa polarização, ao lembrar como brasileiros, uruguaios e argentinos historiavam o conflito “com a influência de um afeto de parte interessada na luta”.
Thompson escreve do lado que rompeu com López — e isso não invalida seu testemunho, mas pede contextualização: é o relato de um oficial estrangeiro que serviu ao regime por mais de uma década, testemunhou de perto seus mecanismos de poder e só depois de escapar decidiu revelar o que sabia. Para o leitor brasileiro interessado em entender o adversário que o Brasil enfrentou entre 1864 e 1870 — não apenas nos campos de batalha, mas na engenharia política e social que sustentou o esforço de guerra paraguaio —, La Guerra del Paraguay de Jorge Thompson continua sendo uma fonte primária indispensável, ainda que exija, como qualquer testemunho de quem esteve dentro do poder e depois se voltou contra ele, a leitura crítica que a própria disciplina histórica recomenda.
Baixe o livro aqui: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/5169
Capa do livro:

