Como a relação entre Brasil e Argentina chegou ao pior momento em duas décadas
A convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro, no último sábado (25/07), em São Paulo, foi o estopim de uma crise diplomática que o Itamaraty já classifica como uma das mais graves da história bilateral entre os dois países.
O estopim: a convenção do PL no Pacaembu
No sábado, o presidente argentino Javier Milei desembarcou em São Paulo — antes passou pelo Palácio dos Bandeirantes, onde foi recebido pelo governador Tarcísio de Freitas — e seguiu para o estádio do Pacaembu, palco da convenção nacional do PL que oficializou a candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
No discurso a apoiadores da direita brasileira, Milei chamou Lula de “presidiário” e “ladrão”, acusou o petista de espalhar o “socialismo da pobreza” pela América Latina por meio do Foro de São Paulo e criticou a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que impediu sua visita a Jair Bolsonaro.
No domingo (26), em entrevista à rádio argentina Mitre, Milei foi além: afirmou, sem apresentar provas, que os governos do Brasil e do México, além do Partido Democrata dos EUA, estariam por trás de uma “campanha anti-Argentina” — motivada, segundo ele, por críticas ao país após a final da Copa do Mundo de 2026 — e disse que 25% dos recursos dessa campanha teriam saído do governo brasileiro.
A resposta do Itamaraty
O chanceler Mauro Vieira, com aval de Lula, determinou duas medidas duras:
- a convocação do embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, para prestar esclarecimentos;
- o retorno do embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, “para consultas” — um dos instrumentos diplomáticos mais fortes antes de uma eventual ruptura.
Diplomatas brasileiros tratam o episódio como inédito nos 203 anos de relação entre os dois países, por combinar ataques ao chefe de Estado, ao Judiciário e às instituições democráticas em território nacional. Um deles chegou a chamar o discurso de Milei de “o maior vexame da história diplomática” entre os dois países. Lula avalia agora se recebe pessoalmente o embaixador Bitelli para ouvir uma avaliação sobre os efeitos políticos do episódio.
Do lado argentino, o governo de Milei reconhece internamente que a relação política está “totalmente rachada”, mas tenta minimizar o impacto econômico.
Não é a primeira crise: o histórico da briga
A tensão entre os dois presidentes não nasceu no sábado — ela se arrasta desde a campanha eleitoral argentina de 2023:
- Campanha de 2023: Lula declarou apoio a Sergio Massa, adversário de Milei no segundo turno. Milei revidou chamando Lula de corrupto e comunista.
- Dezembro de 2023: após vencer a eleição, Milei decide não comparecer à posse de Lula (2022) e, em sentido inverso, Lula opta por não ir à posse de Milei em 10 de dezembro de 2023.
- Tentativas fracassadas de aproximação: Milei chegou a enviar duas cartas pessoais a Lula, que não obtiveram resposta satisfatória, segundo relatos da imprensa argentina.
- Cúpula do G7: segundo o entorno de Milei, o desgaste se aprofundou depois que Lula teria evitado cumprimentá-lo em um encontro à margem da cúpula — versão que o lado brasileiro nega.
- Cobrança pública de desculpas: em episódio anterior, Lula chegou a dizer publicamente que Milei “disse muitas tonterias” e que deveria pedir desculpas ao Brasil e a ele. A Casa Rosada respondeu, pelo porta-voz Manuel Adorni, que “o presidente não tem nada do que se arrepender”.
- CPAC em Balneário Camboriú: Milei já havia ido ao Brasil em ocasião anterior para participar da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), ao lado de Jair Bolsonaro, José Antonio Kast e outros líderes de direita — sem se encontrar com Lula, e evitando depois cruzar com ele na Cúpula do Mercosul em Assunção.
- Padrão de conflitos externos: a crise com o Brasil segue um roteiro parecido ao de outros episódios de Milei — as visitas de cunho opositor à Espanha resultaram na saída da embaixadora espanhola em Buenos Aires e em um forte racha com Pedro Sánchez; com a Bolívia, o embaixador Ramiro Tapia também foi chamado de volta a La Paz após declarações do governo argentino sobre um suposto “autogolpe”.
- Sábado, 25/07/2026: o discurso na convenção do PL leva a crise ao ápice, com a convocação recíproca de embaixadores.
O que está em jogo: o comércio entre Brasil e Argentina
Por trás da disputa política, os dois países mantêm a relação comercial mais importante de ambos na América do Sul:
- O intercâmbio bilateral supera os US$ 30 bilhões por ano — o mesmo patamar destacado pela reportagem do Clarín sobre o tema.
- No primeiro semestre de 2026, o comércio bilateral somou US$ 13,8 bilhões.
- As exportações argentinas para o Brasil chegaram a US$ 6,255 bilhões no semestre, 12,6% do total vendido pela Argentina ao mundo — à frente de China e Estados Unidos como principal comprador argentino.
- Do lado das importações, o Brasil responde por 22,3% de tudo o que a Argentina compra do exterior, ficando atrás apenas da China.
- O saldo é negativo para a Argentina: déficit de US$ 1,334 bilhão no semestre (em junho, o rombo mensal era de US$ 241 milhões).
- O Brasil concentra mais de 8% do estoque de Investimento Estrangeiro Direto na Argentina — o quarto maior investidor no país, atrás de Estados Unidos, Espanha e Países Baixos.
Os setores mais expostos
- Automotivo: os dois países mantêm há mais de 35 anos o Acordo de Complementação Econômica nº 14 (ACE-14), que permite comércio de veículos sem tarifas entre Brasil e Argentina — um dos pilares da integração produtiva regional. Os caminhões são especialmente sensíveis: o Brasil representa 60% das exportações argentinas desse produto, que somaram US$ 2,5 bilhões no primeiro semestre.
- Energia: o boom de Vaca Muerta ajudou a reduzir o déficit comercial argentino com o Brasil — de US$ 2,4 bilhões (jan-mai de 2025) para US$ 950 milhões no mesmo período de 2026 —, puxado pelas exportações de petróleo e gás.
- Indústria em geral: mais de um quinto das exportações industriais argentinas tem o Brasil como destino, incluindo autopeças, maquinário agrícola, químicos, plásticos e trigo. As vendas de alumínio argentino ao Brasil, por exemplo, cresceram 92% no último ano.
Apesar da gravidade política, analistas ouvidos pela imprensa argentina apontam que, até agora, não há medidas comerciais retaliatórias em vigor contra a Argentina — mas alertam que uma escalada sustentada pode comprometer a renovação de acordos estratégicos no Mercosul, o clima de investimentos e as cadeias produtivas integradas entre os dois países, com risco direto para empregos na indústria automotiva e agroindustrial argentina.
Repercussão no Brasil
Jornais brasileiros deram amplo destaque ao episódio. O Valor Econômico concentrou a cobertura nas implicações econômicas, lembrando que a disputa política ocorre entre os dois maiores parceiros comerciais do Cone Sul e que empresários de ambos os países cobram estabilidade institucional para preservar o intercâmbio bilateral. Folha de S.Paulo, O Globo, GloboNews e CNN Brasil destacaram que a visita de Milei reforçou sua aliança com o bolsonarismo e aprofundou o rompimento com Lula.
O que vem a seguir
Por ora, o conflito permanece no campo diplomático e político, sem medidas comerciais concretas. Mas a “convocação para consultas” de embaixadores — passo considerado mais grave do que uma simples convocação — mantém a relação em um ponto de instabilidade inédito, às vésperas de uma Cúpula do Mercosul em que os dois presidentes terão de decidir se voltam a se encontrar ou se aprofundam o distanciamento.
Reportagem baseada em apuração de Brasil 247, ISTOÉ, Brasil de Fato, Infobae, Perfil, MDZ Online e Diario Río Negro, além de dados de comércio exterior citados pelo Clarín.
