“Não tem credibilidade nenhuma”: coordenadora de Flávio Daniella Marques expõe arcabouço fiscal de Lula

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Daniella Marques disse que a regra fiscal do governo Lula "não tem credibilidade nenhuma"

Em entrevista ao SBT, Daniella Marques disse que a regra fiscal do governo Lula “não tem credibilidade nenhuma” e propôs um novo mecanismo atrelado à trajetória da dívida em relação ao PIB. Pressionada por números fechados, a coordenadora do plano econômico de Flávio Bolsonaro (PL) afirmou que o detalhamento das medidas só será apresentado “no primeiro dia” após a eleição.

Daniella Marques, coordenadora da área econômica da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, confirmou em entrevista ao SBT que a campanha pretende revisar o arcabouço fiscal do governo Lula e substituí-lo por uma regra que fixe limites para a trajetória da dívida pública em relação ao PIB. A entrevistadora abriu a conversa perguntando sobre um jantar recente de Flávio com empresários e banqueiros do mercado financeiro, do qual os convidados teriam saído com a impressão de que a campanha já decidiu abandonar o arcabouço e voltar ao modelo do teto de gastos.

“Esse arcabouço não tem credibilidade nenhuma”, afirmou Marques, atribuindo o problema ao que classificou como o maior nível de juros reais do mundo atualmente e à deterioração do perfil da dívida pública, com o Tesouro tendo dificuldade para colocar títulos prefixados de prazo mais longo atrelados ao IPCA e recorrendo cada vez mais a papéis pós-fixados de curto prazo.

Um novo mecanismo

Segundo Marques, a proposta da campanha não é apenas revogar o arcabouço em vigor, mas criar uma “instância de governança” com diálogo entre os três Poderes para negociar autocontenção de gastos antes de qualquer reforma mais dura, e substituir a regra atual por um mecanismo que fixe limites para a relação dívida/PIB — hoje, segundo ela, em 82% (ante 71%, indicador que atribui ao início do governo Lula). Marques disse que um grupo técnico liderado pelo economista Adolfo Sachsida, com cerca de dez doutores em economia e mais de cem pessoas em grupos de trabalho, está estudando os parâmetros, mas que a meta de dívida/PIB ainda não foi fixada — a decisão final caberia a Flávio Bolsonaro e ao coordenador político da campanha, Rogério Marinho, após a eleição.

A falta de números fechados foi o principal ponto de atrito da entrevista. Questionada pelo analista Eduardo Gaia sobre se o corte de privilégios seria suficiente, sozinho, para corrigir a trajetória da dívida e gerar superávit, Marques evitou apresentar uma conta fechada e argumentou que o mercado reage antes à credibilidade política do que a um detalhamento técnico: segundo ela, a simples alta de Flávio Bolsonaro nas pesquisas já teria melhorado o humor do mercado e a bolsa de valores. Ela afirmou que o “cardápio” de medidas — imóveis públicos, estatais, securitização de ativos, privilégios tributários — será detalhado e levado ao Congresso “no primeiro dia” após a eleição, em uma reunião do colégio de líderes.

Corte de gastos: ministérios, cargos e imóveis públicos

Marques defendeu um “enxugamento” de pelo menos dez ministérios e disse que a campanha vai enfrentar a discussão sobre supersalários e outros benefícios no serviço público. Ela citou como referência sua própria passagem pelo governo Jair Bolsonaro, dizendo que a gestão anterior havia reduzido cerca de 20 mil cargos comissionados, número que teria voltado a subir em mais de 22 mil sob o governo Lula. Também mencionou o custo de contratos terceirizados na Esplanada dos Ministérios — mais de R$ 100 bilhões, segundo ela — voos da FAB com poucos passageiros e uma estrutura federal com mais de 760 mil imóveis, dos quais mais de 10 mil estariam desocupados, gerando gasto de quase R$ 2 bilhões por ano em aluguéis e condomínios.

A coordenadora defendeu ainda estender o mesmo esforço de contenção ao Judiciário e ao Congresso, citando como exemplo o regime de férias mais longo do funcionalismo em determinadas carreiras. Questionada se acredita que o Congresso abriria mão, por iniciativa própria, de parte dos recursos hoje destinados a emendas parlamentares — da ordem de R$ 60 bilhões, segundo o valor citado pela entrevistadora — ou que o Judiciário aceitaria cortar benefícios, Marques respondeu que a proposta de autocontenção seria apresentada como condição de legitimidade para qualquer discussão futura sobre ajuste fiscal.

Salário mínimo e Previdência ficam para depois

No tema mais tenso da entrevista, Marques evitou confirmar se a campanha defende reajuste real do salário mínimo vinculado à Previdência, dizendo que o modelo atual “aprisiona” o país em um ciclo de renda e consumo que seria “inimigo da prosperidade” e que precisa dar lugar a um modelo baseado em produtividade. Pressionada pela entrevistadora, que ponderou que o impacto do salário mínimo sobre o déficit previdenciário não é irrelevante, Marques afirmou não haver, no momento, “moral” para propor uma nova reforma da Previdência sem antes reduzir privilégios nos três Poderes, citando o escândalo de descontos indevidos aplicados a aposentados do INSS como argumento de que o governo perdeu credibilidade para pedir novo sacrifício da população. Ela lembrou a reforma da Previdência aprovada em 2019, período em que atuava no Ministério da Economia, como exemplo de que o eleitor apoia ajustes quando reconhece necessidade real.

Reforma tributária: “ficou uma colcha de retalhos”

Sobre a reforma tributária aprovada no governo Lula, apontada por parte do empresariado como um dos principais avanços da atual gestão, Marques foi crítica. Disse que o texto criou exceções que elevaram a alíquota de referência para um patamar que classificou como o maior do mundo — citando estimativa de 28% do comitê gestor da reforma, acima do teto de 26,5% previsto na PEC original — e que o número de tributos aumentou de dois para cinco. Como exemplo do efeito sobre preços, citou uma declaração que atribuiu ao presidente de uma companhia aérea, segundo a qual a empresa pagaria hoje cerca de R$ 2 bilhões em impostos e passaria a pagar R$ 6 bilhões após a reforma, o que exigiria reajuste de pelo menos 25% nas passagens. A coordenadora disse que a campanha já mapeou mais de mil medidas infralegais para revogar e pretende negociar uma “reforma da reforma” com tributaristas e o setor produtivo, mantendo o objetivo de simplificação, mas com foco em reduzir a carga tributária.

Cronograma

Ao fim da entrevista, Marques reafirmou que o detalhamento de todas as medidas — meta de dívida/PIB, corte de ministérios, revisão do arcabouço, reforma tributária — será apresentado publicamente no primeiro dia após a eleição, caso Flávio Bolsonaro seja eleito, para negociação política com o Congresso, que a campanha aposta ter maioria de centro-direita a partir de 2027.


Quem é Daniella Marques: administradora formada pela PUC-Rio, com MBA em finanças pelo Ibmec, atuou por duas décadas no mercado financeiro antes de ser convidada pelo então ministro Paulo Guedes para a Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos do Ministério da Economia. Presidiu a Caixa Econômica Federal entre julho de 2022 e janeiro de 2023, no fim do governo Jair Bolsonaro. Desde junho de 2026, coordena a área econômica da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República.

Por Yuri Spazzapan

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