Diesel: a escassez global chega ao Brasil por um caminho inesperado, a dependência dos EUA

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Com estoques em mínimas históricas, guerras no Irã e na Ucrânia e a Rússia fora do mercado, o Brasil trocou o fornecedor russo pelo americano justamente quando Washington debate limitar exportações. O risco imediato é mais de preço e de conta pública do que de posto sem combustível, mas outubro e novembro vão testar o sistema.

O diesel é o combustível que move a safra, o frete e a indústria, e é hoje o derivado mais exposto a faltas no mundo. Uma análise da S&P Global Energy avalia que os mercados ainda evitaram uma crise de disponibilidade, mas que estoques baixos, preços muito altos e pouca capacidade ociosa aumentam o risco de intervenções para proteger o abastecimento doméstico. É nesse cenário que os Estados Unidos cogitam segurar o próprio diesel, e é aí que o Brasil aparece. RIGZONE

Um mercado sem folga

Os números globais mostram um sistema com pouca margem de erro. Os estoques americanos de diesel caíram para 107,9 milhões de barris em 11 de setembro, o menor nível para a época do ano desde o início da série, em 1982. A agência de energia dos EUA (EIA) projeta que ficarão abaixo do piso de cinco anos durante boa parte de 2027. Na Europa, os estoques no hub de Amsterdam-Roterdã-Antuérpia estavam 16% abaixo da média de cinco anos em julho, e o prêmio do diesel sobre o petróleo está perto de US$ 84 por barril, contra cerca de US$ 28 no fim de fevereiro. Global diesel shortage likely to last into 2027 as storage tanks drain | The Business Standard +3

A oferta encolheu por várias frentes. A guerra no Irã cortou as exportações de diesel do Oriente Médio, drones ucranianos atingem refinarias russas e Rússia e China impuseram restrições às vendas externas. A Rússia respondia por cerca de 10% do diesel transportado por mar no mundo antes do veto, e a Bloomberg informa que Moscou deve prorrogar a proibição além de setembro. Mesmo assim, estimativas compiladas pela Bloomberg indicam que a guerra no Oriente Médio tirou mais diesel do mercado do que o conflito Rússia-Ucrânia. Trump has a ‘sledgehammer’ way to slash diesel prices. But it could boomerang back on the US | CNN Business +3

O petróleo acompanha. O Brent fechou a US$ 104,87 em 18 de setembro, contra cerca de US$ 93 no início do mês. A EIA prevê média de cerca de US$ 90 no segundo semestre, caindo para US$ 77 no segundo trimestre de 2027, o que significa que o mercado hoje negocia acima da projeção oficial. O prognóstico da Reuters, com base em indicadores de armazenagem, é que a escassez dificilmente aliviará antes do próximo ano. Para a S&P, o Oriente Médio não deve voltar aos níveis de produção e refino pré-guerra antes do fim de 2027. Diesel S-10 sobe 2,3% e chega a R$ 7,13 por litro nos postos, diz ANP +3

O CEO da TotalEnergies, Patrick Pouyanné, resumiu o risco no Rio Oil & Gas: entre as duas crises há mais de 6 bilhões de barris de produtos refinados inacessíveis, e a chegada do inverno no hemisfério norte pode transformar o aperto em risco real de suprimento. braziljournal

Washington entre a inflação e o livre comércio

O diesel americano passou de US$ 6,50 o galão, recorde, um risco político para Trump antes das eleições de meio de mandato. Senadores republicanos de estados agrícolas, liderados por Chuck Grassley, pedem um embargo às exportações. Na terça (22/9), Trump disse que já defendeu a ideia a seus assessores, e o secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou que o governo examina se uma proibição total ou parcial funcionaria. White House denies report US is considering a diesel export ban By Reuters +3

Na quarta (23/9), porém, a Casa Branca negou a reportagem da Politico sobre um veto de 90 dias, e o secretário de Energia, Chris Wright, disse que ninguém considera uma proibição total. O argumento da indústria e do próprio governo é que sem exportar, as refinarias ficam sem onde estocar diesel e precisam reduzir o refino, o que pressiona gasolina e querosene de aviação. A Câmara de Comércio dos EUA e grupos petroleiros também pedem que Trump rejeite o veto. Wright fala em medidas “voluntárias” com as refinarias, com anúncios nos próximos dias. A porta, portanto, não está fechada. White House denies report US is considering a diesel export ban By Reuters +4

O Brasil trocou de dependência

Aqui está o ponto central para o leitor brasileiro. O país importa uma fatia relevante do diesel que consome, entre pouco mais de 20%, segundo a Petrobras, e cerca de 30%, segundo reportagem da Folha. Até o ano passado, boa parte vinha da Rússia: 47% das importações de 2025. Com o veto russo, os embarques ao Brasil caíram de 909 mil toneladas em abril para 56 mil em agosto, enquanto os americanos subiram de 90 mil para 721 mil. Ameaça de Trump às exportações de diesel alarma mercado no Brasil | Jornal de Brasília +2

O resultado é uma concentração incomum. Os EUA responderam por 68% das importações em julho e agosto, e as encomendas para outubro são da ordem de 80% americanas. Segundo a Abicom, que reúne os importadores, a dependência americana cresceu porque a outra fonte secou. E o momento é o pior possível: outubro é o mês de maior consumo, com recorde histórico de 6,43 milhões de m³ em 2025, puxado pela safra e pelo plantio. Brasil entra no mês de pico do diesel com 80% da importação sob ameaça de Trump | eixos +2

Petrobras, subsídios e a conta de alguém

A Petrobras é a principal barreira contra a falta. Em agosto, ela respondeu por 86% do diesel entregue às distribuidoras, a maior fatia da série da ANP, e os importadores privados caíram de 13% para 5%. A diretora Angélica Laureano afirmou que uma suspensão americana não representa risco ao fornecimento da estatal, que já comprou 650 mil m³ para outubro e não prevê importar em novembro, salvo paradas adicionais de refinaria. O MME também avalia que não falta produto para outubro. Brasil entra no mês de pico do diesel com 80% da importação sob ameaça de Trump | eixos +3

O gargalo está no preço. A defasagem entre o diesel da Petrobras e o custo de importar bateu R$ 3,89 por litro, nível recorde, o que leva importadores a adiar compras. A estatal mantém preços estáveis em um ano de eleição presidencial, apoiada em subvenções. Só o programa de Fazenda e ANP já consumiu R$ 47 bilhões em subsídios aos combustíveis, segundo Lula, e os benefícios adicionais anunciados em setembro custam cerca de R$ 7 bilhões por mês aos cofres da União. Defasagem de Preços da Petrobras Volta a Elevar Riscos na Oferta de Diesel no País +3

Há ainda uma zona de dúvida sobre 26 de setembro. A Abicom alerta que, sem renovação da parcela de R$ 1,12, o apetite dos importadores cai e o produto pode faltar em novembro. Pelos dados oficiais, porém, as duas subvenções somam R$ 2,12 por litro até 26/9, e depois permanece apenas a de R$ 1, válida por 30 dias e renovável. A questão real, portanto, é o tamanho do corte, que o Ministério da Fazenda pode ajustar a cada ciclo. EixosPoder360

O que muda na economia

Preço na bomba e no campo. O diesel S-10 subiu 2,3% na semana e chegou a R$ 7,13 o litro, maior valor desde o fim de maio. A Farsul estima que uma alta de R$ 5,97 para R$ 7,23 no S-10 acrescenta mais de R$ 612 milhões aos custos das lavouras gaúchas, chegando a R$ 1,47 bilhão se o litro for a R$ 9. A entidade também notificou a ANP sobre relatos de atrasos na entrega a produtores no início do plantio, e a Petrobras atende 73% dos pedidos das distribuidoras nos polos gaúchos. Diesel S-10 sobe 2,3% e chega a R$ 7,13 por litro nos postos, diz ANP +3

Inflação. O IPCA de agosto teve deflação de 0,32%, e a inflação em 12 meses caiu para 4,22%, ainda acima da meta de 3%. Mas o resultado foi puxado principalmente pela energia elétrica, com efeito temporário do Bônus de Itaipu. O IPCA-15 de agosto ainda registrava queda de 0,71% no diesel. Essa janela pode estar se fechando. Como economistas já explicavam no choque de 2022, o frete pesa em praticamente todos os itens da economia, sobretudo nos mais básicos, como alimentos. O Ipea já notara que o conflito EUA-Irã, o clima e uma atividade mais firme reverteram as expectativas, com a inflação em 12 meses indo de 3,8% em fevereiro a 4,7% em maio. IPCA acumulado: agosto/2026 – Riconnect +4

Juros. Com a Selic em 14%, o mercado esperava cortes graduais até o fim do ano. Um novo choque de custos de transporte tende a dificultar esse caminho. Essa é uma leitura, não uma projeção oficial. Riconnect

Conta pública. Se o diesel externo continuar caro, há três saídas: a Petrobras reajusta, o governo paga mais subvenção ou o petróleo cai. Cada uma tem custo: inflação, fiscal ou dependência de fatores externos.

Biodiesel. A alta do diesel fóssil reacendeu o pleito do setor para acelerar a mistura de 16% (B16), prevista para março. The AgriBiz

Três cenários (leitura editorial, não previsão)

  1. Sem veto americano. O Brasil atravessa outubro com abastecimento normal, preço alto e subsídio caro. É o cenário base hoje.
  2. Restrição parcial nos EUA ou veto russo prolongado. O diesel importado fica ainda mais caro e escasso, os importadores privados reduzem compras e a Petrobras vira quase o único elo. O risco é de falhas regionais, especialmente onde o produto importado pesa mais, e de pressão por reajuste.
  3. Inverno duro no hemisfério norte somado a novos ataques a refinarias. A concorrência europeia por diesel aperta o mercado em novembro, e o problema deixa de ser só de preço.

O que observar nos próximos dias

  • 26/9: o que a Fazenda fará com as subvenções.
  • 30/9: decisão russa sobre prorrogar o veto.
  • Próximos dias: anúncios “voluntários” dos EUA com as refinarias.
  • Semanalmente: preços da ANP e estoques da EIA.
  • 3/11: eleições americanas, que condicionam a política de exportação de Trump.

Ressalva: as fontes divergem sobre a fatia importada (20% a 30%) e sobre o impacto do fim da subvenção de R$ 1,12. Vale confirmar com ANP, MME e Fazenda

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