Armas de fogo e jovens no centro da escalada da violência em Mato Grosso do Sul
Foto – arsenal de armas de grosso calibre apreendido em MS
Três Lagoas, MS – Mato Grosso do Sul registrou em 2023 um cenário de violência letal que contraria a tendência de queda observada em boa parte do Brasil. Segundo dados do Atlas da Violência 2025, elaborado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o estado apresentou aumento de homicídios em relação ao ano anterior, com destaque para crimes contra jovens e grupos vulneráveis.
Alta de homicídios em 2023: quarto maior aumento no país
Em 2023, Mato Grosso do Sul teve 20,7 homicídios por 100 mil habitantes, uma alta de 5,1% em comparação com 2022. Enquanto a média nacional de homicídios caiu 2,3% no mesmo período, o estado sul-mato-grossense se destacou negativamente: ficou com a quarta maior alta do Brasil.
Esse aumento coloca Mato Grosso do Sul em uma posição preocupante, especialmente quando a maioria das unidades federativas já registra redução de violência letal em meio a políticas de segurança baseadas em inteligência e prevenção.
Violência entre jovens cresce acima da média
Um dos recortes mais alarmantes do relatório refere-se aos homicídios entre jovens de 15 a 29 anos. No estado, a taxa dessa faixa etária cresceu 17,1% em 2023, a segunda maior alta do país, atrás apenas do Amapá. Isso significa que jovens continuam sendo um dos grupos mais vulneráveis à violência letal em MS.
Dados indicam que essa faixa representa uma fatia significativa das vítimas, em linha com o cenário nacional, onde 34% das mortes de jovens foram por homicídio em 2023.
Violência armada: MS vai na contramão do país
Embora o Brasil tenha registrado uma redução na taxa de homicídios por armas de fogo em 2023 — caindo para 15,2 por 100 mil habitantes — Mato Grosso do Sul apresentou um aumento de 7,3% nesses crimes, com a taxa passando de 10,3 para 10,9 por 100 mil habitantes. Isso indica que mais da metade dos homicídios no estado envolveram armas de fogo, um indicador preocupante que contrasta com as tendências nacionais.
Especialistas apontam que a facilidade de acesso a armas e a fragmentação de políticas de controle podem estar influenciando esse cenário, reforçando a necessidade de ações integradas de prevenção e fiscalização.
Desigualdade racial: negros têm risco maior de homicídio
Outro ponto sensível no relatório é a violência baseada em recortes raciais. Em Mato Grosso do Sul, a taxa de homicídios de pessoas negras foi de 23,4 por 100 mil habitantes, enquanto entre pessoas não negras foi 16,7 por 100 mil habitantes em 2023 — o que representa cerca de 40% mais risco de homicídio para negros no estado.
Esse dado evidencia que, mesmo em um quadro de estabilidade ou queda em outras regiões, a população negra em MS continua mais vulnerável à violência letal, refletindo desigualdades estruturais e necessidades de políticas públicas específicas.
Violência contra idosos cresce de forma expressiva
O relatório também destaca um agravamento em outro segmento frequentemente esquecido no debate sobre segurança pública: idosos. Mato Grosso do Sul registrou, em 2023, a maior taxa de violência interpessoal contra idosos no Brasil — com 312,9 casos por 100 mil habitantes. Além disso, houve um aumento de 60,5% nas notificações em comparação com 2022, o que sinaliza um problema social que vai além dos homicídios e aponta para um contexto mais amplo de violência doméstica e comunitária.
Contexto nacional e desafios para MS
No Brasil, o Atlas da Violência 2025 aponta que 45.747 homicídios foram registrados em 2023, representando a menor taxa de homicídios em 11 anos (21,2 por 100 mil habitantes). Essa queda nacional tem sido atribuída a vários fatores, como mudanças demográficas e novas abordagens de segurança pública.
Entretanto, os dados de Mato Grosso do Sul mostram que tal tendência não se consolidou no estado, que precisa enfrentar desafios persistentes, como violência armada, homicídios juvenis e desigualdades sociais profundas.
O que dizem especialistas e autoridades
Autoridades de segurança pública reconhecem que o estado tem enfrentado dificuldades em implementar políticas integradas e continuadas de prevenção, fortalecendo não apenas a atuação policial, mas também programas sociais que atuem nas causas estruturais da violência.
Especialistas defendem que políticas públicas eficazes devem abranger educação, inclusão social, políticas de emprego e juventude, além de estratégias de controle de armas e melhorias nos sistemas de coleta de dados sobre violência.
Os dados do Atlas da Violência 2025 colocam Mato Grosso do Sul como um caso emblemático de desafios ainda não superados no combate à violência letal. Embora o estado tenha registrado uma queda de longo prazo na última década, a alta recente nos homicídios, especialmente entre jovens e em contextos com armas de fogo, e a persistente desigualdade racial e violência contra idosos sinalizam a necessidade de uma abordagem mais ampla e coordenada que vá além do policiamento tradicional.
Embora o relatório tenha sido divulgado em 2025, os dados analisados referem-se majoritariamente a 2023, último ano com informações consolidadas no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. Segundo o Ipea, os registros mais recentes passam por revisões técnicas e só são incorporados às edições seguintes do Atlas após a validação completa, o que explica a defasagem temporal entre o ano de divulgação e o período analisado.
Fontes:
- Atlas da Violência 2025 — Ipea / Fórum Brasileiro de Segurança Pública (via divulgação oficial)
- Dados estaduais sobre homicídios gerais, por arma de fogo e recortes por faixa etária
- Análises de homicídios de jovens e recortes comparativos nacionais
- Desigualdade racial e violência contra idosos em MS
