Raio-X da Segurança em MS: Queda nos Roubos, mas Escalada na Violência Letal e nos Feminicídios
A CONTRAMÃO DA TENDÊNCIA NACIONAL
Enquanto o Brasil alcançou em 2025 um marco histórico ao antecipar em dois anos a meta nacional de redução de homicídios e registrar a menor taxa de Mortes Violentas Intencionais (MVI) da série histórica (19,1 por 100 mil habitantes), Mato Grosso do Sul (MS) seguiu na contramão nacional.
O estado figurou no seletivo grupo de apenas sete Unidades da Federação que registraram aumento na taxa de violência letal entre 2024 e 2025. Esse crescimento foi impulsionado pela elevação dos homicídios dolosos e da letalidade policial. Além disso, MS mantém um cenário crítico na violência de gênero — liderando proporcionalmente os índices de feminicídio —, números alarmantes de estupro de vulnerável e desafios logísticos decorrentes do narcotráfico em sua extensa faixa de fronteira.
1. MORTES VIOLENTAS INTENCIONAIS (MVI)
Em 2025, Mato Grosso do Sul registrou 591 Mortes Violentas Intencionais (MVI), contra 559 em 2024. A taxa estadual subiu de 19,3 para 20,2 por 100 mil habitantes, representando uma alta de +4,9%.
- Homicídios Dolosos: O número de vítimas subiu de 454 para 486 (+6,2%), elevando a taxa de 15,6 para 16,6 por 100 mil habitantes. As ocorrências policiais registradas somaram 439 casos em 2025.
- Latrocínio (Roubo seguido de Morte): Apresentou forte retração de -41,4%, caindo de 22 vítimas em 2024 (taxa 0,8) para 13 vítimas em 2025 (taxa 0,4).
- Lesão Corporal Seguida de Morte: Registrou leve crescimento de +5,4%, passando de 16 vítimas em 2024 para 17 em 2025 (taxa de 0,6 por 100 mil).
- Evolução Histórica (2012–2025): A taxa atual (20,2) está abaixo dos picos de 2012 (24,1) e 2014 (24,7), mas supera os índices de 2019 (17,4) e 2021 (18,0).
2. LETALIDADE E VITIMIZAÇÃO POLICIAL
- Letalidade Policial (MDIP): As mortes decorrentes de intervenção policial em serviço e fora de serviço subiram de 67 em 2024 para 75 em 2025. A taxa passou de 2,3 para 2,6 por 100 mil habitantes (+11,1%).
- Com isso, a ação letal das polícias passou a corresponder a 12,7% de todas as mortes violentas intencionais ocorridas em MS em 2025 (era 12,0% em 2024).
- Por corporação em serviço: A Polícia Militar registrou 49 mortes por intervenção (contra 58 em 2024), enquanto a Polícia Civil registrou 24 mortes por intervenção (contra 7 em 2024).
- Vitimização de Policiais: Mato Grosso do Sul não registrou nenhum policial civil ou militar vitimado em confronto em serviço ou fora de serviço em 2025.
- Saúde Mental: Foram registrados 2 suicídios de policiais da ativa em 2025 (1 PM e 1 PC), contra 4 em 2024, reduzindo a taxa de 0,54 para 0,27 por mil policiais (-50,0%).
3. VIOLÊNCIA DE GÊNERO: A CHAVE CRÍTICA DO FEMINICÍDIO
Mato Grosso do Sul apresenta uma das realidades mais preocupantes do país na violência contra a mulher, onde mais da metade das mortes violentas femininas são enquadradas como feminicídio.
- Feminicídios Consumados: Subiram de 35 em 2024 para 39 em 2025 (+10,5%), atingindo a taxa de 2,6 por 100 mil mulheres.
- Os feminicídios representaram impressionantes 55,7% de todos os homicídios de mulheres em MS em 2025.
- Homicídios de Mulheres (Total): Passaram de 63 para 70 vítimas (+10,2%), taxa de 4,7 por 100 mil mulheres.
- Tentativas de Homicídio e Feminicídio: As tentativas de homicídio contra mulheres subiram de 158 para 169 (+6,1%), enquanto as tentativas de feminicídio variaram de 90 para 88 (-3,0%).
- Violência Doméstica Física e Verbal:
- Lesão Corporal Dolosa: Teve um salto expressivo de +19,4%, passando de 2.385 vítimas (taxa 162,8) para 2.871 vítimas (taxa 194,5 por 100 mil mulheres).
- Ameaça: Registrou 16.838 vítimas em 2025 (taxa de 1.140,6 por 100 mil mulheres, alta de +1,8%).
- Descumprimento de Medidas Protetivas (MPU): Disparou +21,5%, passando de 2.294 registros para 2.809 em 2025 (taxa de 96,0 por 100 mil habitantes, uma das maiores do país).
- Stalking e Violência Psicológica: Foram 369 casos de perseguição/stalking (-7,8%) e 289 de violência psicológica (-44,5%).
4. CRIMES SEXUAIS E PROTEÇÃO À INFÂNCIA
- Estupro de Vulnerável: Registrou 1.924 casos em 2025 (taxa de 65,8 por 100 mil hab). MS possui a 5ª maior taxa do país e atinge 142,6 por 100 mil na faixa etária específica de crianças/adolescentes.
- Estupro (Geral): Foram 400 registros em 2025 (taxa de 13,7 por 100 mil hab, alta de +2,3%).
- Assédio e Importunação Sexual: MS contabilizou 68 casos de assédio sexual e 820 ocorrências de importunação sexual em 2025.
5. CRIMES PATRIMONIAIS: RETRAÇÃO GENERALIZADA
Em contraste com os indicadores interpessoais, MS obteve reduções expressivas em crimes patrimoniais:
- Roubo de Veículos: Caiu de 330 para 283 ocorrências (-17,1% na taxa por 100 mil veículos).
- Furto de Veículos: Caiu de 2.820 para 2.307 ocorrências (-20,9% na taxa).
- Roubo e Furto de Celulares:
- Roubo de Celular: 1.339 ocorrências (-23,3% na taxa).
- Furto de Celular: 4.325 ocorrências (-12,4% na taxa).
- Total de Aparelhos Subtraídos: 6.101 celulares em 2025 (-14,6% na taxa).
- Roubos a Estabelecimentos, Residências e Transeuntes:
- Estabelecimento Comercial: 134 casos (-21,3%).
- Residência: 194 casos (-9,6%).
- Transeunte (rua): 1.946 casos (-17,5%).
- Roubo Total (Art. 157 CP): Caiu de 3.131 para 2.641 ocorrências (-16,3%).
- Receptação: Despencou -30,3%, caindo de 1.777 para 1.249 ocorrências.
- Estelionatos e Fraudes Digitais:
- Estelionato Geral: 12.061 ocorrências (-14,5%).
- Estelionato Eletrônico: 5.299 ocorrências (-4,5%).
6. FRONTEIRA, DROGAS E ARMAMENTO
Pela sua posição fronteiriça com Paraguai e Bolívia, MS atua como nó logístico do crime organizado no Centro-Oeste:
- Tráfico de Drogas: Registrou 4.331 ocorrências em 2025 (+5,2%), com taxa de 148,1 por 100 mil hab (3ª maior taxa do Brasil).
- Posse e Uso de Drogas: 1.338 registros (-12,5%).
- Apreensão de Drogas: Subiu de 4.703 em 2024 para 5.669 em 2025 (+19,6%), taxa de 193,8 por 100 mil hab.
- Armas de Fogo: MS possui 40.899 registros ativos no SINARM/PF (+240,2% na década). Em 2025, as forças policiais apreenderam 1.751 armas de fogo no estado (-3,4%).
7. GASTOS E ORÇAMENTO DA SEGURANÇA PÚBLICA
- Investimento Estadual: As despesas realizadas na Função Segurança Pública pelo Governo de MS subiram de R$ 1,95 bilhão em 2024 para R$ 2,20 bilhões em 2025, representando um aumento real de +12,5%.
- Peso no Orçamento: A Segurança Pública absorveu 8,1% de todas as despesas estaduais executadas em 2025 (contra 7,5% em 2024).
8. SISTEMA PRISIONAL
- População Carcerária: MS encerrou 2025 com 26.310 pessoas privadas de liberdade (26.174 no sistema penitenciário e 136 sob custódia policial).
- Taxa de Aprisionamento: Atinge 899,6 presos por 100 mil habitantes — uma das mais elevadas do país.
- Superlotação: O sistema conta com 11.611 vagas para 26.174 presos, gerando uma taxa de ocupação de 1,8 preso por vaga (déficit superior a 14,5 mil vagas).
- Perfil Prisional: 77,9% são condenados (20.498 pessoas) e 22,1% são provisórios (5.812 pessoas).
- Óbitos no Sistema: Foram 51 óbitos em 2025 (30 naturais, 8 mortes criminais violentas e 8 suicídios).
SÍNTESE
Mato Grosso do Sul demonstra eficiência no combate aos crimes patrimoniais e aumento expressivo nos investimentos financeiros em segurança. No entanto, enfrenta severos gargalos na contenção das homicídios dolosos, na violência contra a mulher (com alta de feminicídios e descumprimento de medidas protetivas) e na gestão do encarceramento massivo.
Os dados apresentados neste relatório foram extraídos do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2026), elaborado e publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A metodologia empregada pela instituição baseia-se na coleta, tabulação e harmonização de estatísticas oficiais fornecidas diretamente pelas Secretarias de Estado de Segurança Pública e/ou Defesa Social, pelas Polícias Civis, Militares e Científicas, além de órgãos estaduais e federais de administração penitenciária, Fazenda Pública e Planejamento. O estudo adota o padrão de cálculo de taxas por $100$ mil habitantes com base nos dados populacionais atualizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), permitindo a padronização das análises comparativas e a identificação de tendências temporais na criminalidade letal, nos crimes contra o patrimônio, na violência de gênero, nos gastos públicos e na dinâmica prisional
Notas de Leitura e Cuidados Metodológicos
- Subnotificação de Crimes de Gênero e Sexuais: O aumento nas taxas de lesão corporal no contexto doméstico ($+19,4\%$) e no descumprimento de medidas protetivas ($+21,5\%$) não reflete necessariamente apenas o aumento da violência real, mas também a maior encorajamento das vítimas em denunciar e a melhoria dos canais de notificação das forças de segurança. Da mesma forma, reduções pontuais em registros de estupro podem indicar subnotificação e exigem cautela analítica.
- Capacidade de Notificação de Delitos Eletrônicos: A queda observada nos registros de estelionato geral e eletrônico em Mato Grosso do Sul contrasta com a tendência nacional de alta nos crimes virtuais. Essa variação pode sofrer influência de divergências nos sistemas estaduais de registro de boletins de ocorrência online em comparação aos demais estados.
- Ajustes de Registros de MVI: O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) consolida os números de Mortes Violentas Intencionais (MVI) utilizando cruzamentos entre as secretarias de segurança estaduais, os dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/Ministério da Saúde) e os registros de cartório. Por isso, dados consolidados de anos anteriores podem apresentar pequenas revisões em edições futuras do Anuári
