Corpo de Bombeiros de Três Lagoas atende 1.413 ocorrências em 2026: queda geral esconde alta nos acidentes de trânsito

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Comparativo entre os relatórios oficiais do sistema SIGO mostra recuo de 9,7% no total de chamados do 5º GBM entre janeiro e agosto de 2025 e o mesmo período de 2026 — mas os sinistros de trânsito cresceram 22,7% e passaram a ser, isoladamente, a maior causa de acionamento da corporação

Três Lagoas (MS) — O 5º Grupamento de Bombeiro Militar (5º GBM) de Três Lagoas atendeu 1.413 ocorrências entre 1º de janeiro e 6 de agosto de 2026, contra 1.565 registradas no mesmo intervalo de 2025 — uma redução de 152 chamados, equivalente a 9,7%. Os números constam nos Relatórios Quantitativos de Fatos CBM, emitidos pelo Projeto SIGO (Sistema Integrado de Gestão Operacional) e obtidos diretamente pela reportagem junto à unidade de Três Lagoas.

À primeira vista, o dado sugere uma cidade com menos emergências. Mas a leitura categoria a categoria revela um cenário mais complexo: enquanto ocorrências administrativas, de treinamento e de controle de pragas urbanas caíram com força, os sinistros de trânsito dispararam e as remoções de pacientes ao pronto-socorro bateram recorde — dois indicadores que, juntos, apontam para uma pressão crescente sobre o socorro de urgência na cidade.

O panorama geral

IndicadorJan–Ago 2025Jan–Ago 2026Variação
Total de ocorrências atendidas1.5651.413-9,7%
Sinistros de trânsito (todas as modalidades)220270+22,7%
Emergências clínicas, psiquiátricas e obstétricas243207-14,8%
Incêndios (edificação, vegetação, veículos e diversos)157166+5,7%
Remoções ao pronto-socorro127173+36,2%
Extermínio de inseto159121-23,9%

Fonte: Relatórios Quantitativo de Fatos CBM, 5º GBM Três Lagoas/MS, períodos 01/01/2025–06/08/2025 e 01/01/2026–06/08/2026.

Trânsito: o dado que contraria a tendência de queda

Enquanto o total geral de ocorrências recuou, os sinistros de trânsito seguiram na direção oposta. Somando todas as modalidades registradas pelo sistema — colisão, atropelamento, capotamento, choque, queda de moto, queda de bicicleta, tombamento, abalroamento e saída de pista —, o número de acionamentos por acidentes de trânsito passou de 220 para 270, um aumento de 22,7%.

Tipo de sinistro20252026Variação
Colisão110157+42,7%
Queda de moto2434+41,7%
Choque1819+5,6%
Atropelamento1314+7,7%
Capotamento59+80,0%
Queda de bicicleta1118+63,6%
Tombamento54-20,0%
Abalroamento24+100,0%
Saída de pista14+300,0%
Colisão transversal317-77,4%

A categoria “colisão”, isoladamente, já responde por mais de um em cada dez chamados totais do 5º GBM em 2026 (157 de 1.413). Somada às quedas de motocicleta e bicicleta — os dois modais mais vulneráveis no trânsito —, o trio ultrapassa 200 ocorrências no ano, reforçando um padrão observado em diversas cidades médias do país: o crescimento da frota de motos e o uso maior de bicicletas como meio de transporte têm elevado a demanda por resgate e atendimento pré-hospitalar em vias urbanas.

Vale registrar que a queda acentuada em “colisão transversal” (-77%) provavelmente reflete uma reclassificação interna de ocorrências para a categoria genérica “colisão”, e não necessariamente uma redução real desse tipo específico de acidente — um ponto que só a corporação pode confirmar.

Saúde: menos emergências clínicas, mas mais remoções ao PS

O somatório das categorias ligadas a emergências clínicas, psiquiátricas e obstétricas caiu de 243 para 207 ocorrências (-14,8%). Dentro desse grupo, chamam atenção dois números que se mantiveram praticamente estáveis e elevados nos dois anos:

  • Emergência psiquiátrica — necessidade de contenção: 93 ocorrências em 2025 e 92 em 2026, o maior volume entre todas as emergências clínicas/psiquiátricas do relatório;
  • Mal súbito: subiu de 50 para 55 casos;
  • AVC (Acidente Vascular Cerebral): recuou de 2 para 1 registro — número baixo demais para indicar tendência.

Ao mesmo tempo, as remoções ao pronto-socorro — o transporte de pacientes já estabilizados ou em atendimento até uma unidade de saúde — saltaram de 127 para 173 ocorrências, alta de 36,2%, tornando-se a segunda natureza de ocorrência mais frequente do ano, atrás apenas dos sinistros de trânsito por colisão. O crescimento pode refletir tanto uma maior demanda da rede de saúde municipal pelo apoio logístico dos bombeiros quanto uma mudança na forma de registrar os atendimentos no sistema.

Incêndios seguem estáveis, com leve alta puxada pela vegetação

Os incêndios em geral (edificações, veículos, vegetação e “incêndios diversos”) somaram 157 ocorrências em 2025 e 166 em 2026, alta de 5,7%. O destaque é o incêndio em vegetação, que subiu de 50 para 65 casos — um aumento de 30% que acompanha o padrão sazonal de queimadas observado no Mato Grosso do Sul durante o período de seca, entre o fim do outono e o inverno.

Tipo de incêndio20252026Variação
Incêndio em vegetação5065+30,0%
Combate a incêndio (genérico)4649+6,5%
Incêndio em edificação3334+3,0%
Incêndio em meios de transporte (todos os tipos)2613-50,0%
Incêndios diversos (lixo, madeira, transformador)25+150,0%

Fauna urbana: menos dedetização, mesma demanda por captura de animais

O extermínio de inseto — categoria que inclui o controle de pragas como abelhas, marimbondos e formigas em imóveis — foi a ocorrência mais numerosa da corporação em ambos os anos, mas recuou de 159 para 121 casos (-23,9%). Já a captura de animal permaneceu estável, com exatamente 32 ocorrências em cada período, sinal de que a demanda por resgate de animais domésticos ou silvestres em situação de risco não se alterou.

Treinamento e atividades administrativas puxam a queda geral

Parte relevante da redução no total de ocorrências vem de categorias que não são emergências propriamente ditas:

  • Instrução/treinamento despencou de 71 para 12 registros (-83%), o que indica menos atividades de capacitação da própria tropa contabilizadas no período, e não uma mudança no atendimento à população;
  • A categoria “Notificação”, que somou 65 ocorrências em 2025, não aparece no relatório de 2026 — o que sugere uma possível descontinuação ou reclassificação dessa natureza de fato no sistema SIGO, e não necessariamente sua extinção como atividade;
  • Vistoria técnica operacional (com e sem urgência) somou 53 casos em 2025 e 61 em 2026, leve alta.

Essas oscilações administrativas ajudam a explicar por que a queda no total geral (-9,7%) não se reflete de forma uniforme quando se olha para as emergências que afetam diretamente a população — que, em conjunto, cresceram em áreas como trânsito, incêndio e remoção hospitalar.

Saúde mental e ocorrências de risco à vida

Os relatórios também detalham, ano a ano, um pequeno número de ocorrências ligadas a crises suicidas, dado sensível que a corporação registra separadamente das emergências psiquiátricas gerais:

Categoria20252026
Suicídio consumado — por enforcamento23
Tentativa de suicídio — por enforcamento11
Tentativa de suicídio — com uso de arma branca32
Tentativa de suicídio — por atropelamento13
Tentativa de suicídio — atirando-se de local elevado21
Tentativa de suicídio — uso de fármacos/substâncias tóxicas22
Resgate de suicida11

No total, o número de ocorrências relacionadas a suicídio (consumado, tentativas e resgates) passou de 12 para 13 casos no período — uma variação pequena diante do volume total de mais de 1.400 ocorrências, mas que reforça o papel do Corpo de Bombeiros como um dos serviços acionados em situações de crise aguda de saúde mental, ao lado do SAMU e da rede de atenção psicossocial do município.

O que os números não explicam sozinhos

O relatório do SIGO consolida as ocorrências por natureza do fato, sem detalhar bairro, faixa etária das vítimas, gravidade ou desfecho de cada atendimento. Por isso, algumas variações — como o desaparecimento da categoria “Notificação” ou a queda abrupta em “Instrução/Treinamento” — podem refletir mudanças na forma como a corporação classifica seus registros internamente, e não necessariamente uma mudança real na demanda da população. Já os aumentos em sinistros de trânsito, remoções ao PS e incêndio em vegetação aparecem de forma consistente o suficiente para indicar uma tendência real, mas uma leitura completa exigiria cruzar esses dados com informações do DETRAN, do SAMU e da Defesa Civil estadual.

De todo modo, o retrato que emerge da comparação é claro: Três Lagoas teve, proporcionalmente, menos chamados aos bombeiros em 2026 — mas os que mais cresceram foram exatamente os mais graves: acidentes de trânsito, incêndios em vegetação e remoções hospitalares de urgência.


Reportagem elaborada com base nos Relatórios Quantitativos de Fatos CBM do 5º GBM – Três Lagoas, referentes aos períodos de 01/01/2025 a 06/08/2025 e de 01/01/2026 a 06/08/2026, emitidos pelo sistema SIGO em 06/08/2026 e fornecidos em formato PDF pela própria corporação.

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