“A culpa não é do motorista”: vídeo revela o drama diário de quem enfrenta o trânsito das carretas de eucalipto em MS

Ultrapassar em faixa contínua é considerado uma infração gravíssima pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB).

Ultrapassar em faixa contínua é considerado uma infração gravíssima pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB).

Um vídeo viral gravado por um caminhoneiro da região de Três Lagoas voltou a colocar em evidência um problema enfrentado diariamente por milhares de motoristas que utilizam a BR-262: a lentidão provocada pelo intenso fluxo de caminhões que transportam toras de eucalipto para as indústrias de celulose instaladas no leste de Mato Grosso do Sul.

Nas imagens, o motorista registra uma extensa fila de veículos atrás de caminhões carregados de madeira e faz um desabafo. Segundo ele, a culpa pela formação das filas não é dos caminhoneiros, mas da logística operacional adotada pelas empresas e das limitações impostas pelas normas de segurança durante o transporte.

“O motorista não tem culpa. Se ele ultrapassar outro caminhão para manter o fluxo, pode ser punido. Quem está dirigindo apenas cumpre as regras”, afirma durante a gravação.

O caminhoneiro explica que muitos veículos precisam respeitar velocidades específicas, manter distâncias mínimas entre os caminhões e seguir protocolos internos que, em determinados momentos, impedem até mesmo ultrapassagens entre veículos da própria operação. Como consequência, basta um caminhão reduzir a velocidade para que todos os demais atrás dele também diminuam o ritmo, formando quilômetros de filas.

Durante o vídeo, ele ainda faz um apelo para que os motoristas de veículos menores evitem responsabilizar os caminhoneiros pela lentidão, lembrando que muitos profissionais apenas seguem procedimentos determinados pelas empresas contratantes.

Crescimento da celulose aumentou o movimento nas rodovias

A expansão da indústria da celulose transformou Três Lagoas, Água Clara e Ribas do Rio Pardo em um dos principais corredores logísticos do país. Todos os dias, centenas de composições de carga transportam toras de eucalipto entre as florestas plantadas e as fábricas da região, utilizando principalmente a BR-262.

O aumento desse fluxo fez crescer também as reclamações sobre congestionamentos, dificuldades de ultrapassagem e o risco de acidentes em trechos de pista simples.

A situação já vem sendo acompanhada pela imprensa estadual. Em reportagem publicada pelo Jornal Midiamax, em fevereiro deste ano, o veículo destacou que o crescimento da cadeia da celulose tende a elevar ainda mais o fluxo de veículos pesados na BR-262, rodovia historicamente marcada por acidentes graves envolvendo caminhões. A mesma reportagem informa que o contrato da chamada Rota da Celulose prevê a duplicação de aproximadamente 101 quilômetros da BR-262, porém somente entre Campo Grande e Ribas do Rio Pardo.

Isso significa que o trecho entre Ribas do Rio Pardo, Água Clara e Três Lagoas, um dos mais utilizados pelo transporte florestal, continuará sendo, em sua maior parte, pista simples, recebendo intervenções como terceiras faixas, acostamentos e melhorias operacionais previstas ao longo da concessão.

Rodovia sofre com desgaste e aumento do tráfego pesado

Mais recentemente, outra reportagem do Jornal Midiamax, publicada em julho e reproduzida por diversos veículos de comunicação do Estado, mostrou que parte da BR-262 apresenta desgaste acelerado em razão do intenso tráfego de veículos pesados, especialmente carretas que transportam madeira e minério. A reportagem destaca que prefeitos da região defendem investimentos urgentes em infraestrutura para melhorar a fluidez do trânsito e reduzir o número de acidentes.

O cenário descrito pelo caminhoneiro no vídeo coincide com a realidade apontada pelas reportagens: uma rodovia que passou a suportar um volume de tráfego muito superior ao previsto décadas atrás, impulsionado pelo crescimento econômico do Vale da Celulose.

Impaciência aumenta o risco de acidentes

Outro ponto destacado pelo caminhoneiro é a reação de alguns motoristas diante das filas. Segundo ele, a demora acaba levando muitos condutores a realizarem ultrapassagens em locais proibidos, aumentando significativamente o risco de colisões frontais.

A preocupação também aparece nas estatísticas e no histórico de acidentes registrados na BR-262, especialmente em trechos de pista simples onde convivem automóveis, ônibus e composições de carga com dezenas de toneladas. O próprio Jornal Midiamax ressalta que a rodovia é conhecida pelo elevado número de acidentes graves, realidade que motivou a inclusão de parte do trecho nas obras previstas pela concessão da Rota da Celulose.

Debate continua

O vídeo não apenas registra um momento de trânsito lento, mas reacende uma discussão que se tornou frequente entre caminhoneiros, moradores e usuários da BR-262: até que ponto o crescimento acelerado da indústria da celulose foi acompanhado pelos investimentos necessários em infraestrutura rodoviária?

Enquanto as obras previstas pela concessão avançam gradualmente, motoristas que percorrem diariamente o trecho entre Três Lagoas, Água Clara e Ribas do Rio Pardo continuam convivendo com longas filas, trânsito pesado e a necessidade constante de paciência e prudência para evitar acidentes.

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