Casar em Três Lagoas nos anos 1920: a rua Coxim e os livros do registro civil

rua-coxin-tl

Rua Coxim em Três Lagoas

Os termos de casamento lavrados entre 1924 e 1930 mostram como a cidade se organizava pelo papel, de casa em casa

Em março de 1924, o juiz de paz Deocleciano Viana Prado saiu do seu ofício para cumprir uma tarefa que, em Três Lagoas, ainda não tinha lugar fixo: lavrar um casamento civil dentro de uma casa particular. A cerimônia aconteceu na residência de Maximiano Lavoyer, na rua Coxim, número 35, e ficou registrada no Livro de Casamentos com o número 7. Ao lado da assinatura do juiz, a do escrivão Manoel Garcia de Souza, e a das testemunhas, que assinaram ou fizeram marca conforme sabiam ou não escrever.

Os termos de casamento que sobreviveram, entre 1924 e 1930, mostram uma cidade que se organizava em torno do cartório e de quem o conduzia. São registros de uma rotina administrativa que se repetia: habilitação, edital, testemunhas e, por fim, a celebração. O que segue parte desses documentos para entender quem registrava, como se casava e o que a rua Coxim tinha a ver com tudo isso.

Quem registrava

Os termos citam diferentes autoridades. Em 1924, o casamento de Raulindo Antonio Pereira e Carmina Lavoyer, lavrado em 28 de fevereiro (Termo nº 4, folha 134), foi presidido pelo segundo juiz de paz em exercício, cidadão Aristides Osório, com o escrivão Manoel Garcia de Souza. Em março do mesmo ano, quem presidiu o casamento de Joaquim Rosa Camargo e Izoli Lavoyer (Termo nº 7, folha 140) foi o terceiro juiz de paz em exercício, Deocleciano Viana Prado.

Em 1927, o casamento de Eugenio Ceron e Dona Anezia Lavoyer (Termo nº 52, folha 74) foi celebrado na casa de Dona Marcília de Jesus, também na rua Coxim, com o juiz de paz Appario da Silva Camargo. A cerimônia foi testemunhada por Benedito Joventino, funcionário da ferrovia, entre outros homens da cidade.

Já em 1930, a autoridade muda de patamar. Os casamentos de Inácio Costa Garcia e Judith Ramos da Cruz (Termo nº 32) e de Alcito Lavoyer e Ambrozina de Queiroz (Termo nº 31) foram presididos pelo juiz de direito da comarca, Dr. José Otílio da Gama, com o oficial do Registro Civil Manoel Pedro de Campos. O primeiro foi celebrado no Rio Hotel, na Praça da Estação, e o segundo na casa de Joaquim Rosa Camargo, na rua Paranaíba.

Essa diferença de autoridades mostra que, em poucos anos, o registro civil passou de uma figura local, o juiz de paz, para a esfera da comarca, com o juiz de direito presidindo atos de casamento.

Como se casava

Os termos seguem sempre a mesma estrutura. Antes da cerimônia, os noivos tinham de apresentar documentos exigidos pelo Código Civil, como a certidão de nascimento e os papéis de habilitação. A lei também previa a publicação de editais de proclamas, anúncio público de que o casamento seria realizado, para que quem conhecesse algum impedimento pudesse se manifestar.

No termo nº 4, o escrivão registra que o edital foi publicado na Gazeta do Commercio nos dias 17 e 24 de fevereiro de 1924. Nos termos de 1930, a publicação aparece no jornal A Notícia, com o prazo contado a partir de 23 de junho. Os dois casos mostram que a imprensa local já servia como canal oficial para dar publicidade aos atos.

Outro detalhe chama a atenção: a celebração acontecia com as portas abertas. Os termos informam que o ato ocorreu “com as suas portas abertas”, o que indicava publicidade e presença de vizinhos, ainda que a cerimônia se desse dentro de uma casa.

Por fim, as testemunhas. Em quase todos os termos aparecem entre duas e quatro pessoas, quase sempre homens. Algumas assinam o nome; outras, segundo a fórmula dos registros, “não sabiam escrever” e assinavam a rogo ou deixavam marca. Esse detalhe mostra uma sociedade em que a alfabetização não era universal, mas em que o registro escrito já era o padrão para validar um ato.

Uma família na rua Coxim

Os termos formam uma sequência de casamentos ligados a uma mesma família: os Lavoyer. Maximiano Lavoyer aparece como dono da casa onde ocorreram os casamentos de 1924. Em 1927, sua filha Anezia Lavoyer casou com Eugenio Ceron, na casa de Dona Marcília de Jesus, também na rua Coxim. Em 1926, o registro do casamento de Jordão Lavoyer e Palmira de Freitas Queiroz (Termo nº 53) traz a informação de que ele era carpinteiro, natural de Taquaritinga (SP). Já em 1930, Alcito Lavoyer, carpinteiro, filho de Maximiano Lavoyer, casou com Ambrozina de Queiroz. Na mesma época, o registro de Izoli Lavoyer, em 1924, já mostra o nome da família nas celebrações da cidade.

As anotações à margem completam essa história. Um termo registra o falecimento de um dos contraentes em 1962, em Andradina (SP), por comunicação recebida daquela localidade. Outra anotação, de 1993, informa uma averbação feita em Araçatuba (SP). Esses registros mostram que os livros continuaram sendo consultados décadas depois, e que a vida desses homens e mulheres se espalhou por outras cidades do interior paulista.

Os óbitos de dezembro de 1936 também fazem parte dessa história familiar, mas foram lavrados em Campo Grande. Dona Anezia Ceron, de 25 anos, casada e doméstica, faleceu em 7 de dezembro de 1936, com broncopneumonia como causa principal. Ela era filha de Maximiano Lavoyer e Marcelina Lavoyer. Na mesma época, em 5 de dezembro, faleceu a menina Regina Helena da Silva Ribeiro, de cinco meses, filha de Manoel da Silva Ribeiro e Maria Conceição Ribeiro. Não é possível afirmar, pelos documentos, o motivo de a família ter registrado esses óbitos em outra cidade. Esse é um ponto que a pesquisa ainda pode esclarecer.

O que a rua Coxim guardava

A rua Coxim aparece nos registros como endereço de casas onde os casamentos eram celebrados e onde os noivos ou as famílias moravam. Em 1924, Maximiano Lavoyer recebeu o juiz de paz em sua residência. Em 1927, Dona Marcília de Jesus abriu sua casa para a celebração de Eugenio Ceron e Anezia Lavoyer. Em 1926, Jordão Lavoyer e Palmira de Freitas Queiroz casaram “em casa número 35” da mesma rua, segundo o termo.

Essa rotina mostra uma cidade em que a vida civil passava pelas casas particulares. O cartório ainda não tinha sede fixa para cada ato, e os juízes e escreventes se deslocavam até os interessados. A rua Coxim funcionava, assim, como um espaço onde o Estado chegava à vida das famílias.

Os livros de registro civil são uma das fontes mais confiáveis que a história local tem. Ao contrário de jornais, memórias e relatos orais, cada termo foi lavrado no momento do ato, com data, local, nomes e assinaturas, e depois conferido por um oficial e pelas partes. Nos termos da rua Coxim, por exemplo, aparecem a idade e a naturalidade dos noivos, a profissão, os nomes dos pais, o endereço da cerimônia e as testemunhas. Com isso, é possível reconstruir redes familiares, rastrear migrações e perceber como a cidade se ligava a outras regiões. O Termo nº 53 mostra um carpinteiro natural de Taquaritinga, em São Paulo, casado em Três Lagoas, e as anotações à margem registram sua morte em Andradina, também em São Paulo, décadas depois. Um único livro, portanto, guarda a trajetória de uma pessoa por dois estados. As anotações marginais têm um valor próprio: mostram que o registro era atualizado ao longo do tempo, com falecimentos, averbações e comunicações entre cartórios. Esse sistema de consulta e correção é o que dá credibilidade ao documento, e é por isso que ele ainda serve como prova décadas depois. Além disso, os registros revelam quem tinha autoridade para registrar a vida das pessoas em cada época, do juiz de paz ao juiz de direito, e mostram que a cidade só ganhou uma estrutura administrativa estável a partir de muitos atos pequenos, repetidos dia após dia. Preservar e ler esses livros é, portanto, uma forma de contar a história de Três Lagoas a partir de quem a viveu, e não apenas de quem a governou.

Fechamento

Os termos de casamento de 1924 a 1930 não contam a história de Três Lagoas em grandes acontecimentos. Eles mostram algo mais cotidiano: como a cidade reconhecia seus vínculos, quem tinha autoridade para registrá-los e onde essas uniões aconteciam. A passagem da autoridade local, o juiz de paz, para a comarca, com o juiz de direito, é um dos sinais de que o registro civil se consolidava.

Esses livros também guardam o que se perdeu: nomes, profissões, origens e endereços de pessoas que não aparecem nos livros de história. Lê-los é uma forma de devolver essas pessoas à memória da cidade.

Texto extraído de diversas páginas digitalizadas enviada por um leitor do Bolsão em Destaque

Anúncio