Sem data para duplicação, Três Lagoas fica à mercê da sorte enquanto pedágio já tem preço definido

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Foto googlemaps

A concessão da chamada Rota da Celulose, apresentada como um dos maiores projetos de infraestrutura rodoviária de Mato Grosso do Sul, deixa um ponto sensível — e preocupante — para Três Lagoas: não há data definida para a duplicação dos trechos que atendem o município, apesar de a cidade estar entre as que mais concentram tráfego pesado no estado. Em contrapartida, o que já está assegurado no contrato é a cobrança de pedágio aos usuários.

Na prática, o modelo adotado transfere ao três-lagoense um ônus imediato, enquanto os benefícios estruturais mais aguardados permanecem condicionados a fatores futuros e incertos, como os chamados gatilhos volumétricos de tráfego. Ou seja, mesmo sendo um dos maiores polos industriais e logísticos do Centro-Oeste, Três Lagoas pagará primeiro para talvez receber depois.

Duplicação virou promessa, não obrigação

Os documentos oficiais da concessão indicam que a duplicação da BR-262 no trecho que atende Três Lagoas não é uma obra obrigatória com cronograma definido. Diferentemente de outros segmentos da rota, onde a duplicação já consta como intervenção contratual, a região de Três Lagoas foi enquadrada em um modelo condicionado: só haverá duplicação se o fluxo de veículos atingir determinados patamares técnicos, ainda não detalhados de forma clara à população.

Na prática, isso significa que não existe garantia, nem prazo, nem compromisso contratual firme para a duplicação — apenas a expectativa de que, algum dia, os números justifiquem a obra.

Pedágio garantido, contrapartida indefinida

Enquanto a duplicação ficou no campo das condicionantes, o pedágio é uma certeza. O usuário que trafega diariamente para trabalho, transporte de mercadorias, atendimento médico ou deslocamento regional pagará tarifa desde o início da concessão, mesmo circulando por uma rodovia que continuará, em grande parte, com pista simples.

Risco à segurança e ao desenvolvimento

A BR-262, no trecho de Três Lagoas, é historicamente marcada por alto índice de acidentes, muitos deles envolvendo veículos de carga pesada. A ausência de um compromisso claro com a duplicação mantém um cenário de risco permanente, sobretudo em um momento em que a produção industrial e o fluxo logístico tendem a crescer.

Sem duplicação, as melhorias prometidas — como acostamentos e terceiras faixas — ajudam, mas não resolvem o problema estrutural de uma rodovia que já opera no limite em diversos pontos.

Três Lagoas paga o preço do próprio sucesso

Paradoxalmente, Três Lagoas parece ser penalizada pelo próprio papel estratégico que exerce. A cidade produz, exporta, movimenta bilhões e sustenta boa parte do fluxo que justifica a concessão. Ainda assim, não recebeu prioridade nas obras mais robustas, ficando dependente de critérios técnicos que podem levar anos — ou décadas — para serem alcançados.

Enquanto isso, o custo recai diretamente sobre quem vive, trabalha e circula na região.

Desenvolvimento não pode ser aposta

Concessões públicas exigem equilíbrio. Não é razoável que uma cidade estratégica como Três Lagoas entre no modelo pagando pedágio sem saber quando — ou se — terá a principal obra de segurança e fluidez que a população espera.

Infraestrutura não pode ser tratada como aposta estatística. Duplicação não é luxo, é necessidade. E, no caso de Três Lagoas, deixar essa decisão para o “talvez” do futuro significa colocar vidas, economia e mobilidade à mercê da sorte.

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