Fogo na Cidade Morena: os grandes incêndios que marcaram a história de Campo Grande

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"Incêndio no Atacadão da Avenida Duque de Caxias em setembro de 2020 — o maior da história de Campo Grande (Foto Henrique Arakaki)

Das chamas que destruíram patrimônios históricos ao incêndio que mobilizou todo o Corpo de Bombeiros por 48 horas — a história dos maiores incêndios de Campo Grande e o que eles deixaram para trás.


Campo Grande tem na terra vermelha seu apelido mais famoso — a Cidade Morena. Mas há momentos da sua história em que a cidade foi marcada não pelo barro, e sim pelo fogo. Incêndios que destruíram patrimônios, mobilizaram gerações de bombeiros, varraram comércios e deixaram cicatrizes visíveis na memória coletiva da capital sul-mato-grossense.

Este é um passeio por esses episódios — dos mais antigos aos mais recentes — e pelo que Campo Grande fez depois das cinzas.


A Morada dos Baís: quando o fogo destruiu o sobrado mais nobre da cidade

Poucos prédios carregam tanta história quanto a Morada dos Baís, o segundo sobrado construído em Campo Grande e o primeiro feito em alvenaria com argamassa de saibro, cal e areia. Sua construção começou em 1913, por ordem de Bernardo Franco Baís, e foi concluída em 1918, com cobertura de telhas de ardósia vindas da Itália — um luxo raríssimo para o interior do então Mato Grosso.

A casa foi a residência da família Baís até 1938. Nela, a artista Lídia Baís, referência da cultura campo-grandense, pintou em 1937 painéis nas paredes que hoje podem ser vistos no museu que leva seu nome. Com a saída da família, o imóvel foi alugado a Nominando Pimentel, que instalou ali a Pensão Pimentel.

Foi nesse período, ainda antes de 1979, que as chamas atacaram o sobrado histórico. Um grande incêndio destruiu todo o madeiramento da cobertura, as preciosas telhas de ardósia e os pisos de madeira que atravessaram décadas intactos. O fogo não derrubou as paredes, mas arrancou a alma do edifício.

A restauração veio depois, e com ela um novo destino. Tombada como Patrimônio Histórico Municipal em 1986, a Morada dos Baís renasceu como espaço cultural, hoje sob responsabilidade do Sesc, funcionando como museu, restaurante e palco de shows musicais. O fogo tentou apagar uma história. Campo Grande recusou.


O Planeta Real: 2013, o incêndio no coração do Centro

Em maio de 2013, um incêndio de grandes proporções atingiu a loja Planeta Real, localizada no Centro de Campo Grande. O fogo mobilizou dezenas de bombeiros, que trabalharam para controlar as chamas e impedir que elas se espalhassem pelos prédios vizinhos num dos trechos mais movimentados da capital.

A suspeita levantada à época foi de que o incêndio teria começado no sistema de refrigeração da loja. Mas o fogo se mostrou mais persistente do que o esperado: cinco dias após o aparente controle das chamas, um novo foco foi descoberto — com labaredas atingindo dois metros de altura — obrigando novo acionamento do Corpo de Bombeiros.

O episódio reacendeu o debate sobre a segurança contra incêndios nos estabelecimentos comerciais do centro histórico da cidade, onde muitos imóveis têm décadas de uso e instalações elétricas antigas.


O incêndio da loja de piscinas: 2014, 70 homens e 100 mil litros de água

Um ano depois do Planeta Real, em 2014, Campo Grande enfrentou outro incêndio de grandes proporções. Desta vez, o fogo atingiu uma loja de piscinas localizada na saída para Três Lagoas, na zona leste da cidade.

Para combater as chamas, o Corpo de Bombeiros precisou mobilizar 70 homens — entre 50 militares e 20 alunos-soldados — e utilizar aproximadamente 100 mil litros de água. Um volume que dá a dimensão do tamanho do incêndio e do desafio enfrentado pelos bombeiros.

O incidente se tornaria mais um episódio numa sequência de três anos consecutivos em que a corporação enfrentou grandes incêndios em Campo Grande, testando os limites do efetivo e do equipamento disponível na capital.


13 de setembro de 2020: o maior incêndio da história de Campo Grande

Se há uma data gravada na memória dos campo-grandenses quando o assunto é fogo, essa data é 13 de setembro de 2020. Naquela tarde, por volta das 17h, as chamas tomaram conta da loja do Atacadão localizada na Avenida Duque de Caxias e não pararam por 48 horas.

O incêndio foi de proporções nunca vistas antes na cidade. A fumaça densa e preta era visível a 10 quilômetros de distância. Praticamente todo o efetivo do Corpo de Bombeiros de Campo Grande foi acionado. Militares aposentados se apresentaram voluntariamente para ajudar. Moradores próximos precisaram deixar suas casas.

Quem estava do lado de fora relatou um calor impressionante e ouviu explosões vindas do interior do supermercado. As cenas de destruição foram transmitidas ao vivo e viralizaram nas redes sociais. Segundo estimativas à época, o incêndio destruiu um estoque que renderia cerca de R$ 18 milhões em lucro ao atacadista no final daquele ano.

O laudo da perícia apontou uma conclusão perturbadora: o incêndio poderia ter sido proposital. Não foram encontrados indícios de curto-circuito nem de combustão espontânea. O fogo teria começado em uma gôndola onde havia produtos inflamáveis, como álcool e materiais de limpeza. O inquérito policial foi aberto, mas as conclusões finais nunca foram amplamente divulgadas.

Um especialista em formação de brigadas de incêndio, que acompanhou o caso, apontou que a tragédia poderia ter sido evitada se os brigadistas da loja tivessem agido corretamente nos primeiros instantes. “Pelas imagens, só havia uma linha de fogo na gôndola. A chance de apagar o fogo ali era grande se tivesse sido acionado tudo corretamente”, avaliou o especialista, que pediu para não ser identificado.

A reconstrução foi surpreendentemente rápida. Seis meses depois, em março de 2021, o Atacadão reabriu suas portas. E em agosto do mesmo ano, o espaço que esteve reduzido a entulhos se tornou ponto de vacinação contra a Covid-19 — carregando, assim, uma nova história sobre esperança e reconstrução.


O fogo que nunca para: incêndios no Pantanal e nas reservas urbanas

Os incêndios em Campo Grande não se limitam às construções. A cidade convive com um problema crônico de incêndios em vegetação, especialmente durante o período de estiagem. Em anos como 2024, o Corpo de Bombeiros registrou mais de 15 atendimentos por dia em Campo Grande apenas para conter focos em terrenos baldios, fazendas e reservas urbanas.

Um dos episódios mais emblemáticos envolveu o Parque Estadual Matas do Segredo, no Jardim Presidente, onde um incêndio consumiu cerca de 30 hectares da reserva. Moradores da região chegaram a usar mangueiras e baldes de água para tentar proteger suas casas das chamas que avançavam.

Já em 2023, um incêndio de grandes proporções destruiu barracos de quase 40 famílias na favela do Mandela, na zona norte de Campo Grande, deixando centenas de pessoas sem lar de uma hora para outra.


O patrimônio histórico em risco: um alerta permanente

Os incêndios que atingiram Campo Grande ao longo dos anos deixam um alerta que segue atual: os prédios históricos da cidade são vulneráveis. O Iphan já identificou imóveis tombados com risco real de incêndio, entre eles a Estação Ferroviária e seus galpões, onde vigas de madeira quase centenárias dão sinais de fragilidade.

A reabertura da Morada dos Baís, após a restauração mais recente, chegou a ser adiada justamente para que fosse aplicada uma camada de pintura antichamas — medida que passou a ser adotada também em outros bens históricos do estado, como a Igreja de São Benedito e o Castelinho de Ponta Porã.

“Esses imóveis estão em uso público. O Iphan tem recebido denúncias de quem frequenta esses espaços. Gente preocupada com o que pode acontecer. E, honestamente, com razão”, alertou o representante do Iphan em MS, João Santos, durante vistoria realizada em 2025.


O que o fogo ensina

A história dos incêndios de Campo Grande não é apenas uma história de destruição. É, também, uma história de resiliência. A Morada dos Baís foi reconstruída e se tornou um dos pontos culturais mais visitados da cidade. O Atacadão reabriu em seis meses. As famílias da favela do Mandela receberam solidariedade de toda a comunidade.

O fogo revela o que uma cidade é feita. E Campo Grande, vez após vez, mostrou do que é feita.



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