Mercadão Municipal de Campo Grande: a história do coração da Cidade Morena desde 1958
Foto: Banco de imagem MPMS
Inaugurado em 30 de agosto de 1958, o Mercado Municipal Antônio Valente é muito mais do que um ponto de compras — é o retrato vivo da história, da imigração e da cultura de Campo Grande.
Tem um lugar em Campo Grande que não envelhece. Que resiste ao tempo, às reformas e às mudanças da cidade ao redor. Um lugar onde o cheiro de erva-mate se mistura ao de peixe fresco, onde descendentes de japoneses vendem temperos ao lado de artesãos Terena, onde o tereré é servido no balcão e a conversa é parte do preço. Esse lugar é o Mercadão Municipal Antônio Valente — o coração da Cidade Morena.
Inaugurado em 30 de agosto de 1958, o Mercadão completa em 2026 nada menos que 68 anos de história. Mas sua origem é ainda mais antiga: antes mesmo de existir como prédio, ele já existia como povo.
Das feiras à beira dos trilhos ao prédio definitivo
A história do Mercadão começa antes de 1958. Desde os anos 1930, uma grande feira livre ocupava uma área extensa no coração de Campo Grande, margeando os trilhos da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, entre a Avenida Afonso Pena e a Rua 7 de Setembro. Ali, comerciantes — muitos deles imigrantes japoneses recém-chegados ao interior do então Mato Grosso — montavam suas bancas de hortifrutigranjeiros, peixes, especiarias e temperos.
A ferrovia, que ligava Bauru (SP) a Corumbá (MS) passando por Três Lagoas e Campo Grande, não era apenas uma via de transporte. Era a artéria que bombeava gente, mercadoria e cultura para o centro-oeste brasileiro. E foi ao redor dos seus trilhos que o embrião do Mercadão nasceu.
Com o crescimento da cidade e a necessidade de organizar o comércio popular, a Câmara Municipal aprovou, em 1953, a lei que autorizava a construção de um mercado municipal definitivo. A obra começou em 1957 e o prédio foi inaugurado no dia 30 de agosto de 1958.
O nome por trás do mercado: Antônio Valente
Poucos campo-grandenses sabem a história por trás do nome oficial do Mercadão. O prédio leva o nome de Antônio Valente, um imigrante português que veio ao Brasil para trabalhar na construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Radicado em Campo Grande, Valente se tornou comerciante e proprietário de terras na região central da cidade.
Foi ele quem doou o terreno onde o mercado seria construído. Em homenagem a esse gesto, o espaço recebeu seu nome. Uma história de generosidade que poucos se lembram, mas que está gravada na fachada de um dos pontos mais visitados da capital sul-mato-grossense.
O papel dos imigrantes japoneses
Se o terreno foi uma doação portuguesa, a alma do Mercadão é japonesa. A grande maioria dos comerciantes que ocuparam as bancas desde a inauguração eram descendentes de imigrantes japoneses, chegados ao sul do então Mato Grosso a partir das décadas de 1930 e 1940.
Esses imigrantes trouxeram consigo o conhecimento agrícola, a disciplina no trabalho e o apreço pela qualidade dos produtos. Foram eles que consolidaram o Mercadão como referência em frutas, verduras, legumes e pescados frescos. Hoje, décadas depois, muitas das bancas ainda são administradas por filhos e netos dessas famílias — guardiões de uma tradição que atravessa gerações.
A Feira do Índio: 1993 e a chegada dos Terena
Em 1993, uma nova camada cultural foi adicionada ao Mercadão: a criação da Feira do Índio, instalada na área externa do mercado. Ali, indígenas da etnia Terena passaram a comercializar produtos primários e peças de artesanato, levando para o centro da capital a riqueza cultural dos povos originários de Mato Grosso do Sul.
A convivência entre feirantes japoneses, imigrantes portugueses e indígenas Terena num mesmo espaço urbano resume de forma única a identidade miscigenada de Campo Grande — uma cidade que o Sebrae define como tendo colônias de espanhóis, italianos, japoneses, sírio-libaneses, armênios, paraguaios e bolivianos convivendo lado a lado.
Reformas e revitalizações ao longo dos anos
O Mercadão não ficou parado no tempo. Em 1965, apenas sete anos após a inauguração, uma primeira reforma expandiu o projeto original para atender à demanda crescente. Mais tarde, em 2006, uma revitalização mais profunda modernizou o espaço: o estacionamento foi ampliado, novas luminárias foram instaladas internamente e externamente, o telhado foi reformado e o prédio ganhou nova pintura — mantendo sua estrutura histórica, mas renovando sua capacidade de atender ao público.
Em 2012, novas melhorias foram realizadas. E em 2023, em comemoração aos 65 anos do Mercadão, o espaço deu mais um passo rumo ao futuro: em parceria com a Agems e a Energisa, o Mercadão Municipal passou a contar com um sistema de energia fotovoltaica, tornando-se um exemplo de como tradição e sustentabilidade podem caminhar juntas.
O tombamento: patrimônio histórico e cultural
Em 6 de outubro de 2011, o Mercadão Municipal recebeu um reconhecimento que selou sua importância para a história de Campo Grande: o tombamento provisório como patrimônio histórico e cultural do município. O Ministério Público de Mato Grosso do Sul acompanha o processo, que reconhece que o espaço possui “relevância na cultura e na atividade econômica do município”, segundo laudo elaborado por peritos municipais.
O Mercadão hoje
Atualmente, o Mercado Municipal Antônio Valente ocupa uma área de 2.051,70 m², onde funcionam 147 bancas e 77 boxes. O espaço emprega cerca de 600 pessoas no mercado formal e informal, segundo dados administrativos do próprio mercado.
No endereço da Rua Sete de Setembro, 65 — no coração do Centro de Campo Grande —, é possível encontrar hortifrutigranjeiros, peixes frescos dos rios regionais, carnes, ervas para tereré e chimarrão, artesanato, doces de fazenda, cestas básicas, temperos naturais e ervas medicinais.
Mais do que uma lista de produtos, o Mercadão é uma experiência. É o lugar onde gerações de campo-grandenses compraram os ingredientes do almoço de domingo, onde turistas descobrem o sabor do pintado assado, onde o tereré é compartilhado entre desconhecidos e onde o tempo parece andar mais devagar.
“A história de Campo Grande passa por aqui”, resume Cleuber Linares, presidente da Associação dos Comerciantes do Mercadão (Associmec), cuja família está presente no mercado desde a geração do avô.
Ele tem razão. Quem visita o Mercadão não visita apenas um mercado. Visita a memória viva de uma cidade.
FICHA TÉCNICA:
Nome oficial: Mercado Municipal Antônio Valente
Inauguração: 30 de agosto de 1958
Localização: Rua Sete de Setembro, 65 — Centro, Campo Grande – MS
Área: 2.051,70 m²
Bancas e boxes: 147 bancas e 77 boxes
Funcionamento: Segunda a sábado, das 6h30 às 18h30 | Domingos, das 6h30 às 12h
Tombamento provisório: 6 de outubro de 2011
Conheça a história do Mercadão Municipal de Campo Grande, inaugurado em 1958 sobre uma feira livre às margens da ferrovia Noroeste. Um patrimônio histórico e cultural de Mato Grosso do Sul.
