Vale dos Dinossauros: a cidade de MS que guarda pegadas de 140 milhões de anos às margens de um rio
Reconstrução artística de um dinossauro terópode em ambiente semelhante ao que existia na região de Nioaque há cerca de 140 milhões de anos.
A 184 km de Campo Grande, Nioaque esconde um dos maiores sítios paleontológicos da América Latina — com pegadas de dinossauros carnívoros e herbívoros fossilizadas na beira do Rio Nioaque. A história começou nos anos 1980, virou símbolo de uma cidade e hoje atrai cientistas do mundo inteiro.
Nioaque tem todas as cinco vogais no nome — já por isso é chamada de “Cidade das Vogais”. Tem 170 anos de história. Tem cicatrizes da Guerra do Paraguai. Tem canhões e monumentos aos heróis da Retirada da Laguna. E tem, a apenas 3 quilômetros do centro, algo que nenhuma outra cidade da região pode afirmar ter: as pegadas de dinossauros mais importantes de Mato Grosso do Sul, deixadas há aproximadamente 140 milhões de anos nas margens do Rio Nioaque.
A pequena cidade de 14 mil habitantes, a 184 km de Campo Grande pela BR-060, é hoje conhecida como o Vale dos Dinossauros — título oficial sancionado pelo governador Eduardo Riedel por meio da Lei Estadual 6.222. Mas a história dessa descoberta começou muito antes da lei, muito antes dos monumentos e muito antes da fama. Começou com uma pegada solitária, encontrada por acaso numa margem de rio nos anos 1980.
A primeira pegada às margens do Rio Nioaque
No começo dos anos 1990, um arqueólogo sul-mato-grossense encontrou nas margens do Rio Nioaque uma pegada fossilizada diferente de tudo que ele havia visto antes. Grande demais para qualquer animal que existisse hoje. Impressa na rocha sedimentar com uma precisão que sugeria peso, velocidade e vida.
Era uma pegada de dinossauro.
A descoberta foi registrada, mas ficou por anos sem o aprofundamento científico que merecia. Não havia recursos, não havia expedição, não havia a atenção das grandes universidades. A pegada ficou ali, à beira do rio, guardando seu segredo de 140 milhões de anos.
Foi apenas em 2015 que a história mudou de patamar.

2015: a UFRJ confirma e Nioaque vira Vale dos Dinossauros
Em 2015, uma equipe de paleontólogos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foi a Nioaque, estudou o sítio paleontológico às margens do rio e anunciou a comprovação científica oficial: as pegadas eram reais, eram de dinossauros, e tinham entre 140 e 150 milhões de anos.
Não era uma pegada. Eram várias. Pesquisadores identificaram rastros de pelo menos dois tipos diferentes de dinossauros: terópodes — carnívoros bípedes, do mesmo grupo do famoso Tiranossauro Rex — e ornitópodes — herbívoros que andavam em quatro patas. O tamanho das pegadas apontava para animais que variavam de 1 a 6 metros de comprimento.
A confirmação científica transformou Nioaque. A prefeitura inaugurou em abril daquele mesmo ano um monumento na entrada da cidade: uma escultura de 3 metros de altura e 2,5 toneladas, representando dinossauro carnívoro do Período Cretáceo — cuidando de filhotes saindo dos ovos, sob uma árvore de ipê-rosa. A obra é do artista plástico João Xavier e hoje, tornou-se um dos principais cartões-postais da cidade.
Os Terópodes: os possíveis autores das pegadas
Os pesquisadores identificaram que as pegadas de Nioaque foram deixadas possivelmente por um terópodes — grupo de dinossauros carnívoros bípedes, do mesmo clado do famoso Tiranossauro Rex. No entanto, a ciência ainda não conseguiu determinar com precisão qual espécie específica pisou naquele barro mole há 140 milhões de anos. As características das pegadas não foram suficientes para uma identificação definitiva da espécie.
O abelissauro é um dos candidatos levantados por pesquisadores regionais — entre eles o biólogo e doutor em geografia da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Afrânio Soriano. Trata-se de um carnívoro de médio a grande porte, com patas traseiras poderosas e membros dianteiros muito reduzidos — menores até que os do Tiranossauro Rex, ágil e veloz para os padrões da época, habitante das regiões que hoje correspondem à América do Sul, África e Índia durante o Período Cretáceo. Mas é importante ressaltar: trata-se de uma hipótese, não de uma conclusão científica confirmada.
Foi essa hipótese, porém, que inspirou os monumentos da cidade. A prefeitura inaugurou em abril de 2015 uma escultura de 3 metros de altura e 2,5 toneladas representando uma fêmea de abelissauro — escolhido como símbolo de Nioaque — cuidando de filhotes saindo dos ovos sob uma árvore de ipê-rosa. A obra é do artista plástico João Xavier. Mais recentemente, uma praça ganhou um conjunto escultórico ainda mais grandioso: uma casca de ovo gigante de 13 metros de comprimento, criada pelo paleoartista João Xavier Pilenghy após oito meses de trabalho, da qual emergem três dinossauros — abelissauro, velociraptor e triceratops. O conjunto fica na Rua XV de Novembro, no Centro de Nioaque.
2017 e 2021: novas descobertas e confirmação científica internacional
A história não parou em 2015. Em 2017, uma nova equipe — desta vez formada por pesquisadores do Museu Nacional da UFRJ e do Museu de Ciências da Terra, do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) — voltou a Nioaque e encontrou muito mais.
Além de novas pegadas, os pesquisadores descobriram algo ainda mais raro: uma paleotoca — fóssil de uma toca subterrânea cavada por um pequeno vertebrado, possivelmente um mamífero primitivo, que viveu na mesma época dos dinossauros. A descoberta indicava que o sítio paleontológico de Nioaque não era apenas um registro de passagem de grandes répteis, mas um ecossistema preservado em pedra.
Em 2021, os resultados dessa pesquisa foram publicados no periódico científico internacional Journal of South American Earth Sciences — uma das publicações mais respeitadas da área no mundo. Algumas das pegadas e a paleotoca, que corriam risco de desaparecer por erosão, foram removidas com cuidado e depositadas no Museu de Ciências da Terra, no Rio de Janeiro. O restante permanece in loco, incluindo uma trilha com seis pegadas consecutivas de dinossauros, visível para quem visita o sítio.
Até cientistas europeus visitaram o local e confirmaram a importância da descoberta. Nioaque estava, definitivamente, no mapa da paleontologia mundial.
O segundo maior vale de dinossauros da América Latina
O título impressiona. Nioaque é considerada por estudiosos o segundo maior vale de dinossauros da América Latina — ficando atrás apenas de Sousa, na Paraíba, que tem o maior conjunto de pegadas de dinossauros do continente sul-americano.
Para colocar isso em perspectiva: o Brasil tem poucos sítios paleontológicos de relevância internacional. Ter dois no mesmo país — e um deles em Mato Grosso do Sul, no coração do Brasil, a poucos quilômetros de uma cidade de 14 mil habitantes — é extraordinário.
O sítio paleontológico de Nioaque fica a 2,7 quilômetros a jusante da ponte sobre o Rio Nioaque, em uma propriedade particular — a Fazenda Minuano. O acesso ao local exige autorização prévia do proprietário.
O Deserto Botucatu: quando o MS era um deserto
A pesquisa em Nioaque revelou ainda outra surpresa geológica: as formações rochosas da região indicam que, há centenas de milhões de anos, o território onde hoje fica Mato Grosso do Sul era parte do chamado Deserto Botucatu — um grande deserto que já existiu na Terra, que cobria boa parte do que hoje é o Brasil durante o período Jurássico e início do Cretáceo.
As dunas de areia desse deserto, petrificadas pelo tempo, formam hoje as rochas de arenito onde as pegadas dos dinossauros foram encontradas. É como se a cidade de Nioaque fosse construída sobre um deserto fossilizado — uma dessas coincidências geológicas que só a escala do tempo geológico é capaz de produzir.
O Geopark Bodoquena-Pantanal e o futuro do turismo científico
Nioaque faz parte do Geopark Bodoquena-Pantanal — um dos únicos geoparques reconhecidos da América Latina — que abrange uma área de 39 mil km² e inclui municípios como Bonito, Corumbá, Miranda, Aquidauana e Jardim. A inclusão de Nioaque no geoparque reconhece o valor científico do sítio paleontológico e abre portas para o desenvolvimento do turismo científico na região.
Um Núcleo do Geopark específico para Nioaque está em fase de instalação, com foco nas pegadas de dinossauros. O projeto prevê estrutura de visitação, painéis educativos e integração com roteiros turísticos da região de Bonito — que fica a menos de 100 km de distância.
A professora e pesquisadora Maria Izabel Manes, do Museu Nacional da UFRJ, resume o potencial do que existe em Nioaque: a descoberta não apenas ajuda a contar a história do planeta, mas abre possibilidades para o turismo científico, pode desenvolver a economia local e contribui para a popularização da ciência.
Como visitar o Vale dos Dinossauros
As esculturas de dinossauros — tanto o monumento da entrada da cidade quanto o conjunto da Praça XV de Novembro — são de acesso livre e gratuito, e valem muito a visita.
Para ver as pegadas reais no sítio paleontológico às margens do Rio Nioaque, é necessário:
- Entrar em contato com a Prefeitura de Nioaque para informações sobre visitação
- Solicitar autorização de acesso à Fazenda Minuano, propriedade particular onde o sítio está localizado
- Ir preferencialmente entre julho e setembro, período de seca do rio, quando as pegadas ficam mais expostas e acessíveis
Distância de Campo Grande: 184 km pela BR-060
Distância de Três Lagoas: 390 km pela BR-262 e MS-164
Dica de roteiro: combine Nioaque com Jardim (53 km) e Bonito (122 km) num roteiro de 3 dias pela Serra da Bodoquena.
LINHA DO TEMPO DAS DESCOBERTAS:
Anos 1980 — Primeiros registros de pegadas nas margens do Rio Nioaque
Início dos anos 1990 — Arqueólogo sul-mato-grossense encontra a primeira pegada e registra a descoberta
2010 — Pesquisadores publicam artigo científico listando o sítio paleontológico de Nioaque entre os afloramentos fósseis do estado
2015 — Equipe da UFRJ confirma cientificamente as pegadas; inauguração do monumento do abelissauro na entrada da cidade; Nioaque lança o título “Vale dos Dinossauros”
2017 — Nova expedição científica descobre mais pegadas e uma paleotoca de mamífero primitivo
2021 — Resultados publicados no Journal of South American Earth Sciences; peças em risco de erosão transferidas para o Museu de Ciências da Terra no Rio de Janeiro
2023 — Lei Estadual 6.222 oficializa o título “Vale dos Dinossauros”; inauguração do conjunto escultórico com casca de ovo gigante de 13 metros na Praça XV de Novembro
