O Syndicato Farquhar em Três Lagoas: Ferro, Gado e Terra na Fronteira Esquecida
1920 - Segunda Estação Ferroviária de Três Lagoas, Construida em 1922 e Demolida em 1961
Um povoado nascido do apito da locomotiva
No início do século XX, o Álbum Graphico do Estado de Matto-Grosso (Corumbá/Hamburgo: Ayala & Simon, 1914) registrou, com o entusiasmo próprio da propaganda de progresso da época, o nascimento de um povoado improvisado às margens da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (EFNOB): Três Lagoas. Batizado em homenagem a três lagoas nas proximidades, o lugar era, àquela altura, a primeira estação da ferrovia já em território mato-grossense — Km 33 a partir de Itapura —, situado a poucas léguas do rio Paraná, em solo arenoso e ainda praticamente desconhecido antes da chegada dos trilhos.
O retrato que a publicação traça é o de uma cidade nascida pronta, em tabuleiro de xadrez, com ruas largas, teatro, hotéis, padarias, drogarias, agência dos Correios, estação telegráfica e duas escolas — cerca de mil almas cosmopolitas vivendo, em 1913-1914, uma vida descrita como agitada e adiantada. Antes de ser cidade, porém, Três Lagoas era, sobretudo, um entreposto comercial e uma feira de gado — o ponto de encontro entre o comércio importado de São Paulo e do Rio de Janeiro e o rebanho que descia rumo aos mercados mineiro e paulista. E é justamente nesse cenário pecuário que aparece uma referência de leitura difícil, mas historicamente decisiva: as fazendas do “Syndicato internacional Farquhar”, que introduziam ali raças de gado de elite e campos artificiais.
Esse artigo reconstrói, a partir da historiografia acadêmica disponível, o que esse “Syndicato Farquhar” realmente era, sua presença concreta em Três Lagoas e no antigo sul de Mato Grosso, e o destino que essas terras tomaram ao longo do século XX.
Quem era Percival Farquhar
Percival Farquhar (1864-1953) foi um dos empresários estrangeiros mais influentes na expansão da infraestrutura brasileira na Primeira República. À frente da holding Brazil Railway Company, controlou concessões ferroviárias, madeireiras, portuárias e de colonização em várias regiões do país — da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, no Sul, à Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, na Amazônia, passando pelo frigorífico pioneiro de Osasco (SP) e pela mineração de ferro em Itabira (MG), através da Itabira Iron Ore Company. Fontes biográficas de referência, como o verbete do CPDOC/FGV, registram que ele também administrava extensas fazendas de gado em Mato Grosso e Minas Gerais — um detalhe que, isoladamente, pouco dizia sobre a escala real dessas operações.
A historiografia batizou esse conjunto de empresas interligadas de “Syndicato Farquhar” (grafia da época) ou “Brazil Railway Company” — um mecanismo recorrente de concessões ferroviárias trocadas por doações de terras devolutas de até 15 quilômetros de cada lado da linha, destinadas oficialmente à exploração madeireira e à colonização europeia, mas que na prática deram origem a latifúndios de escala continental.
A engrenagem em Mato Grosso: a Brazil Land, Cattle and Packing Co.
No sul de Mato Grosso, o braço pecuário desse grupo foi a Brazil Land, Cattle and Packing Company, fundada em 1911 com sede em São Paulo e capital declarado de um milhão de dólares — um investimento que a historiografia recente sobre pecuária tropical (Robert W. Wilcox, Cattle in the Backlands, University of Texas Press, 2017) destaca como um dos mais significativos aportes de capital estrangeiro na região.
O historiador Carlos Alexandre Barros Trubiliano, em estudo publicado na Revista Crítica Histórica (2014), cruzou dados do próprio Álbum Gráfico de 1914 com registros do Diário Oficial da União para reconstituir a distribuição territorial exata dessas companhias no sul do antigo Mato Grosso. Os números impressionam:
| Empresa | Municípios | Área (hectares) |
|---|---|---|
| Brazil Land, Cattle and Packing Co. (Percival Farquhar) | Cáceres, Corumbá, Campo Grande e Três Lagoas | 2.553.205 |
| The Brazilian Meat Company | Três Lagoas e Aquidauana | 316.010 |
| The Água Limpa Syndicate | Três Lagoas | 180.000 |
| Sociedade Anônima Fomento Argentino Sud-Americano | Corumbá | 726.077 |
| Territorial Franco-Brasileira | Miranda e Corumbá | 414.803 |
| The Miranda Estância Company | Miranda | 219.506 |
| Sud-Américaine Belge S.A. | Corumbá | 117.060 |
| Sociedade Anônima Rio Branco | Corumbá | 549.156 |
Fonte: Trubiliano (2014), com base no Álbum Gráfico de Mato Grosso (1914) e no Diário Oficial da União (1909-1910).
A Brazil Land dividia, portanto, o entorno de Três Lagoas com pelo menos mais duas companhias estrangeiras de porte — a Brazilian Meat Company e o Água Limpa Syndicate. Ao todo, entre 1910 e 1930, empresas estrangeiras ligadas à pecuária adquiriram cerca de 5,46 milhões de hectares no sul de Mato Grosso, segundo levantamento de Cezar Benevides e Nanci Leonzo (Miranda Estância: ingleses, peões e caçadores no Pantanal mato-grossense, FGV, 1999).
Essa concentração de capital internacional explica, em boa medida, o “gado de elite” mencionado pelo Álbum Gráfico: a Brazil Land introduziu inicialmente raças importadas da Europa — Hereford e Shorthorn —, substituídas depois pelo zebu Nelore, vindo da Índia, mais resistente ao clima e às doenças tropicais, conforme registra o histórico oficial do município de Brasilândia (MS), cujo território fazia originalmente parte de Três Lagoas.
O charque à beira dos trilhos
A presença econômica de Três Lagoas nesse período não se limitava à criação de gado em si: era também um polo de beneficiamento. Levantamento de produtores de charque em Mato Grosso por volta de 1920, reproduzido por Trubiliano, identifica cinco charqueadas instaladas à margem da ferrovia Noroeste especificamente em Três Lagoas — Saladero Serrinha, Xarqueada Matto Grosso, Xarqueada Santa Luzia, Xarqueada Villa Velha e Xarqueada Tombo. Pelo Recenseamento do Brasil de 1920, o município já contava com 321 estabelecimentos rurais regularizados — mais do que a própria capital do estado, Cuiabá, que tinha 205.
O conflito com os posseiros
A expansão desses latifúndios não se deu sem atrito. No início da década de 1920, a Brazil Land and Cattle Packing Company adquiriu 200 mil hectares na região de Vacaria, zona rural de Campo Grande, dando início a um processo de demarcação que colidiu com posseiros já estabelecidos na terra havia gerações. Diante da recusa desses ocupantes em deixar a propriedade, a companhia recorreu à embaixada britânica, que pressionou o governo federal brasileiro — o qual interveio, desapropriando os posseiros e assegurando a posse à empresa.
Esse episódio, documentado pela historiadora Lucia Salsa Corrêa em sua tese de doutorado A Fronteira na História Regional: o Sul de Mato Grosso (1870-1920) (USP, 1997, publicada depois como livro pela EdUCDB), não foi isolado: o mesmo grupo controlado por Farquhar já se envolvera, entre 1912 e 1916, em conflitos de terra na fronteira entre Paraná e Santa Catarina — episódio que entrou para a historiografia brasileira como Guerra do Contestado. A companhia colonizadora H. Hacker & Cia., que geria núcleos de colonização em Terenos (MS) a partir de 1920, também devia sua influência política a Farquhar e vinha da mesma órbita de atuação na região do Contestado — evidenciando que o “Syndicato” operava como uma rede articulada de empresas, não como uma unidade isolada.
O legado territorial: de Três Lagoas a Brasilândia
O desfecho mais visível dessa história fundiária só viria décadas depois. Após a Segunda Guerra Mundial, entre 1947 e 1948, o governo Eurico Gaspar Dutra promoveu a desapropriação de terras pertencentes a estrangeiros no Brasil — entre eles os proprietários da Brazil Land —, através da Superintendência das Empresas Incorporadas ao Patrimônio Nacional (SEIPAN), redistribuindo essas glebas em um programa de colonização dirigido pelo governo de Mato Grosso.
As terras que a Brazil Land ocupava entre os rios Sucuriú e Pardo, na margem direita do Paraná, pertenciam originalmente ao município de Três Lagoas. Foram justamente os 11.082 km² desmembrados de Três Lagoas que, em 14 de novembro de 1963, deram origem ao município de Brasilândia — cujo próprio nome é uma homenagem direta à antiga companhia (a junção de “Brasil” com “Land”). É um fecho simbólico revelador: uma cidade inteira do atual Mato Grosso do Sul carrega, em seu nome, a memória do latifúndio internacional que um dia dominou aquela fração da fronteira.
Fontes e bibliografia
Fonte primária Álbum Gráfico do Estado de Matto-Grosso (EEUU do Brazil). Corumbá; Hamburgo: Ayala & Simon Editores, 1914.
Bibliografia acadêmica
- TRUBILIANO, Carlos Alexandre Barros. “No Rastro da Boiada: Pecuária e Ocupação do Sul de Mato Grosso (1870-1920)”. Revista Crítica Histórica, Ano V, n. 9, jul. 2014.
- TRUBILIANO, Carlos Alexandre Barros. “Algumas considerações sobre a Ferrovia Noroeste do Brasil: migração e ocupação em Campo Grande MT/MS (1905-1940)”. MÉTIS: história & cultura, v. 13, n. 27, jan./jun. 2015, p. 233-251.
- WILCOX, Robert W. Cattle in the Backlands: Mato Grosso and the Evolution of Ranching in the Brazilian Tropics. Austin: University of Texas Press, 2017.
- WILCOX, Robert W. Cattle Ranching on the Brazilian Frontier: Tradition and Innovation in Mato Grosso, 1870-1940. Tese de Doutorado em História, New York University, 1992.
- WILCOX, Robert W. “Ranching and Market Access in the Backlands: Mato Grosso, Brazil, ca. 1900-1940s”. Historia Crítica, Bogotá, n. 51, set./dez. 2013.
- CORRÊA, Lucia Salsa. A Fronteira na História Regional: o Sul de Mato Grosso (1870-1920). Tese de Doutorado em História, USP, 1997. Publicada como História e Fronteira: o Sul de Mato Grosso 1870-1920. Campo Grande: EdUCDB, 1999/2005.
- SILVA, Luciana. A Atuação da Companhia “Brazil Land, Cattle and Packing Co.” no Leste Sul Matogrossense. Dissertação de Mestrado (orient. Palmira Petratti Teixeira). UNESP/Assis, 1999. (Não digitalizada.)
- BENEVIDES, Cezar Augusto Carneiro; LEONZO, Nanci. Miranda Estância: ingleses, peões e caçadores no Pantanal mato-grossense. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1999.
- Prefeitura Municipal de Brasilândia (MS). “História”. Autoria: Carlos Alberto dos Santos Dutra (mestre em História, UFMS). Disponível em: brasilandia.ms.gov.br.
Nota sobre lacunas em aberto
Duas fontes citadas pela historiografia acadêmica não puderam ser consultadas diretamente nesta pesquisa por não estarem digitalizadas: a tese de Lucia Salsa Corrêa (USP, 1997) e a dissertação de Luciana Silva (UNESP/Assis, 1999), esta última inteiramente dedicada à atuação da Brazil Land no leste do sul de Mato Grosso. Ambas exigiriam consulta a acervo físico ou empréstimo interbibliotecário e provavelmente conteriam o detalhamento mais preciso sobre eventuais fazendas nomeadas dentro do atual perímetro de Três Lagoas — o único elo que esta pesquisa não conseguiu fechar com documentação de primeira mão.
