As vias de comunicação e a dinâmica econômica de Mato Grosso no início do século XX (1914)

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Foto remasterizada do Vapor Venus; LIoyd Brasileiro — em Corumbá - Álbum Gráfio de MT 1914

No alvorecer do século XX, o então Estado de Mato Grosso apresentava-se como uma das mais vastas e desafiadoras unidades territoriais da República, impondo à administração pública e à iniciativa privada a necessidade permanente de vencer as distâncias por meio de complexas redes de comunicação terrestres e fluviais. Conforme registra o Álbum Gráfico de Mato Grosso, publicado em 1914, essas vias constituíam o verdadeiro alicerce da integração econômica, política e social do território mato-grossense.

Desde os tempos coloniais, a navegação fluvial desempenhou papel central na ocupação e no abastecimento da região. Durante largos anos, prevaleceu a circulação pelos grandes eixos hidrográficos do oeste e do sul do continente, destacando-se os rios Guaporé, Mamoré, Madeira e Amazonas, que ligavam Mato Grosso ao extremo norte do país. Pelo sul, a comunicação com a Capitania de São Paulo realizava-se através dos rios Cuiabá, São Lourenço, Paraguai, Taquari, Pardo e Tietê, estes últimos afluentes do majestoso rio Paraná, estabelecendo uma ligação estratégica com o Sudeste brasileiro.

Já nos primeiros tempos do século XIX, observa-se o esforço deliberado do poder público em estimular novas rotas fluviais. Com o apoio do Governo, passou a ser praticada a navegação pelos rios Arinos e Tapajós, por onde desciam as igarités rumo ao porto de Belém, no Pará, consolidando uma alternativa de escoamento para produtos regionais e ampliando o raio de circulação econômica do Estado.

Um marco decisivo ocorreu a partir de 1857, quando, em virtude de tratado especial firmado com a República do Paraguai, o rio Paraguai passou a constituir a principal via de comunicação e transporte de Mato Grosso com o exterior. Nesse contexto, destacaram-se os serviços da casa comercial “Adela”, de Vierci Hermanos, ligando Assunção a Corumbá, fato que impulsionou a criação da Companhia de Navegação a Vapor do Alto Paraguai. A partir desse momento, Corumbá consolidou-se como o grande entreposto fluvial do Estado, articulando o comércio interno e externo.

No início do século XX, essa estrutura encontrava-se ainda mais sofisticada. A empresa Lloyd Brasileiro mantinha uma linha regular de paquetes entre o Rio de Janeiro e Cuiabá, subdividida em três seções, com escalas em importantes portos do litoral brasileiro — Santos, Cananéia, Iguape, Paranaguá, Antonina, São Francisco, Florianópolis e Rio Grande — estendendo-se até Montevidéu, onde se realizava o transbordo de passageiros, correspondências e mercadorias para vapores de menor calado. Esses navios — como Mercedes, Vênus, Ladário, Murtinho, Cáceres e Miranda — prosseguiam até Corumbá, tocando sucessivamente em Assunção, Conceição e Porto Murtinho.

De Corumbá a Cuiabá, a viagem fluvial durava, em média, quatro a cinco dias. Para esse trecho, o Lloyd Brasileiro mantinha em operação os paquetes Coxipó, Nioac e Orvalho, sendo este último especialmente construído para navegar com segurança mesmo durante o rigor da vazante, evidenciando o grau de adaptação técnica às condições naturais da região.

Além dessas rotas principais, existiam outras linhas de vapores entre o Rio de Janeiro e Montevidéu, entre Montevidéu e Corumbá, e entre Corumbá, Cuiabá, Cáceres, Miranda e Aquidauana, algumas contratadas pela repartição postal e outras pertencentes a empresas privadas. O tráfego entre Corumbá, Assunção e Montevidéu era constante e intenso, operado por numerosas embarcações, sobretudo das companhias Vierci Hermanos, Mihanovich e da firma M. Cavassa Filho & Cia.

O movimento fluvial no interior do Estado era igualmente expressivo. Entre Corumbá, Cuiabá, Cáceres e outras localidades, navegavam vapores como Rio Cuiabá, Jamary, Aurora, Iguatemy, Etruria, São José, Ilex, Liguna, Guaporé, Ipiranga e Brasil, entre muitos outros, compondo uma verdadeira frota a serviço da economia regional.

Paralelamente às vias fluviais, as estradas terrestres entrecruzavam-se por todo o território mato-grossense, tendo como centro irradiador a capital, Cuiabá. Dela partiam ramificações para leste, alcançando a vila do Registro do Araguaia; para oeste, passando por Livramento, Poconé, Barra e Cáceres, até a antiga cidade de Mato Grosso, às margens do rio Guaporé; e para o norte, atravessando Guia, Brotas, Aldeia, Rosário e Diamantino, estendendo-se até as zonas dos vastos seringais do Arinos e do Paranatinga.

No sul do Estado, um grande número de estradas ligava localidades promissoras como Coxim, Aquidauana, Nioaque, Miranda, Campo Grande, Vacaria, Ponta Porã, Bela Vista, Três Lagoas e Porto Murtinho. Algumas dessas cidades já se beneficiavam da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, então em via de conclusão, partindo de Porto Esperança e tendo como ponto terminal Bauru, no Estado de São Paulo — obra considerada fundamental para a integração definitiva de Mato Grosso ao restante do país.

O Álbum Gráfico destaca ainda o notável progresso observado nesse setor, mencionando a recente aprovação, pelo Governo do Estado, dos estudos definitivos para a construção de uma estrada de rodagem entre Cuiabá e Cáceres, orçada em mais de 500 contos de réis, cujo início estava previsto para após o término da estação das águas. Soma-se a isso a decisiva atuação da União no desbravamento da região ocidental, com a construção da linha telegráfica rumo ao Acre, que prometia colocar Mato Grosso entre os Estados mais amplamente conectados do país por vias telegráficas.

No campo econômico, Cuiabá desempenhava papel central como polo comercial. A cidade importava em grande escala produtos manufaturados europeus, provenientes principalmente de Londres, Hamburgo e Paris, tais como tecidos, louças, utensílios domésticos, perfumarias, artigos de luxo e bebidas diversas. Do Rio da Prata e das principais praças nacionais — Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande — chegavam calçados, chapéus, drogas medicinais, tintas, óleos, ferro esmaltado, banha, papel, mobiliário, instrumentos agrícolas e industriais, conservas e cervejas.

A exportação mais significativa era composta pela borracha e pelo couro vacum, produtos que sustentavam grande parte da arrecadação estadual. Tanto a importação quanto a exportação realizavam-se majoritariamente pelo porto de Corumbá, reforçando sua posição estratégica no sistema econômico regional.

Por fim, o documento registra que as condições econômicas do Estado eram consideradas lisonjeiras, permitindo que os exercícios financeiros, já há algum tempo, fossem encerrados com saldos apreciáveis. Tal prosperidade, segundo o Álbum Gráfico de 1914, evidenciava-se não apenas pela expansão das vias de comunicação, mas também pela crescente integração de Mato Grosso aos circuitos nacionais e internacionais de comércio, sinalizando um período de otimismo e confiança no futuro do Estado.

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