Estudo detalha educação, saúde e proteção social de crianças e adolescentes em Três Lagoas
Um amplo levantamento realizado pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) de Três Lagoas traça um retrato detalhado da realidade vivida por crianças e adolescentes no município em 2025. O Diagnóstico Situacional da Criança e do Adolescente, construído de forma coletiva com a participação do poder público e da sociedade civil, apresenta dados consistentes sobre educação, saúde, assistência social, esporte, lazer e proteção contra violações de direitos, além de apontar desafios urgentes e caminhos para o fortalecimento das políticas públicas locais.
Mais do que um relatório técnico, o documento se consolida como instrumento estratégico para o planejamento das ações do município e para a correta destinação dos recursos do Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (FUMCAD), reafirmando o princípio constitucional da prioridade absoluta à infância e à juventude.
Construção coletiva e compromisso institucional
Elaborado pelo CMDCA para o período 2024–2026, o diagnóstico contou com a colaboração de diversas secretarias municipais — Educação, Saúde, Assistência Social, Juventude, Esporte e Lazer, Finanças — além do Conselho Tutelar, APAE e entidades da sociedade civil organizada. O processo envolveu o envio de questionários à rede de atendimento, análise técnica das informações e debates em reuniões do colegiado.
Segundo a presidente do CMDCA, Elizethe Aparecida da Silva, o documento inaugura uma etapa fundamental de reflexão e planejamento. “Este diagnóstico representa um olhar aprofundado sobre a realidade local e reforça que a proteção integral só se concretiza quando há corresponsabilidade entre família, sociedade e Estado”, destaca.
Três Lagoas: crescimento e contexto social
Com população estimada em 132.152 habitantes, conforme o Censo 2022 do IBGE, Três Lagoas é atualmente o terceiro município mais populoso de Mato Grosso do Sul. Localizada na Costa Leste do Estado, a cidade apresenta crescimento populacional contínuo e forte concentração urbana, com cerca de 95% da população residindo na área urbana.
Reconhecida como “Cidade das Águas”, por estar assentada sobre o Aquífero Guarani, Três Lagoas possui economia fortemente impulsionada pela indústria, especialmente pelo setor de papel e celulose, responsável por aproximadamente 50% das exportações industriais do Estado. O município apresenta IDH considerado alto (0,744) e PIB per capita superior a R$ 104 mil, indicadores que contrastam com desigualdades sociais que ainda impactam diretamente a infância e a adolescência.
Educação: inclusão avança, mas desafios persistem
Na rede municipal de ensino, 674 estudantes com deficiência estão matriculados, atendidos por 94 profissionais de apoio à inclusão escolar e 95 estagiários auxiliares. Apesar dos avanços, o diagnóstico aponta situações preocupantes, como quatro casos de abandono escolar e 665 alunos em distorção idade-ano, concentrados principalmente nos anos iniciais do ensino fundamental.
A APAE de Três Lagoas exerce papel fundamental no atendimento especializado, assistindo atualmente 286 pessoas com deficiência, entre crianças, adolescentes, jovens e adultos. Entre fevereiro e agosto de 2025, a instituição realizou mais de 1.800 atendimentos nas áreas de fisioterapia, psicologia, assistência social, saúde e odontologia, sem registro de casos de violência envolvendo seus usuários.
Saúde: ampla rede e alta demanda
O município conta com uma rede estruturada de atenção à saúde infantojuvenil, composta por 17 unidades de atenção primária, clínicas especializadas, CAPS, UPA 24h e SAMU. Entre janeiro e agosto de 2025, foram registradas mais de 26 mil consultas médicas para crianças e adolescentes apenas nas unidades básicas de saúde.
O levantamento também evidencia alta demanda por serviços de saúde mental, com 930 atendimentos registrados, além de indicadores preocupantes, como 61 casos de desnutrição infantil, 272 casos de obesidade e 96 registros de gravidez na adolescência. A taxa de mortalidade infantil em 2025 foi estimada em 10 óbitos por mil nascidos vivos.
Violação de direitos: números que alertam
Os dados do Conselho Tutelar revelam a dimensão dos desafios na proteção integral. Até setembro de 2025, havia 1.153 procedimentos em andamento e 1.240 comunicações de violação de direitos aguardando análise.
Entre os registros mais graves estão 43 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes, além de episódios de violência física, psicológica e negligência familiar. O eixo da convivência familiar e comunitária concentra números expressivos, com mais de 150 ocorrências relacionadas à negligência e inadequação do convívio familiar, reforçando a necessidade de fortalecimento das políticas de apoio às famílias.
Esporte, lazer e assistência social como prevenção
Como estratégia de prevenção e inclusão, Três Lagoas mantém 15 projetos esportivos ativos, atendendo cerca de 1.130 jovens atletas em modalidades que vão do futebol ao judô, incluindo ações voltadas a pessoas com deficiência e jovens com autismo.
Na assistência social, os serviços do PAIF e do SCFV alcançaram, somente entre janeiro e julho de 2025, mais de 17 mil atendimentos a famílias. O CREAS, responsável pelos casos de violação de direitos, realizou mais de 4 mil atendimentos no ano, com 185 crianças e adolescentes inseridos em acompanhamento especializado.
Planejamento e futuro
O Diagnóstico Situacional evidencia que, apesar dos avanços estruturais e da ampla rede de serviços, persistem desafios significativos relacionados à violência, à evasão escolar, à saúde mental e às vulnerabilidades familiares. Ao mesmo tempo, aponta potencialidades importantes, como a atuação integrada das políticas públicas, a presença de entidades comprometidas e a oferta de espaços de esporte, lazer e convivência.
O CMDCA destaca que o documento será base para o aprimoramento das políticas públicas e para a definição de prioridades na aplicação de recursos, reforçando que investir na infância e na adolescência é investir no futuro de Três Lagoas. Como afirma o próprio diagnóstico, garantir direitos não é apenas um dever legal, mas um compromisso coletivo com a construção de uma cidade mais justa, inclusiva e humana.
Download do estudo aqui:
