Livro “A Feira do Gado” Da poeira das boiadas ao obelisco eterno: a alma de Três Lagoas revelada

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Por Yuri Spazzapan, Três Lagoas, 15 de Dezembro de 2025

No coração do cerrado sul-mato-grossense, onde o mugido das boiadas se misturava ao silvo da locomotiva da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, nasceu a Feira do Gado de Três Lagoas, um marco que transcende o comércio pecuário e se entrelaça com a própria identidade da região. O livro A Feira do Gado, organizado pelo pesquisador, fotógrafo e designer Yuri Spazzapan, é mais do que um registro histórico: é uma carta de amor à resiliência de uma cidade que, entre glórias e crises, forjou seu destino com coragem e visão. Publicado em 2025, a obra resgata, com rigor documental e paixão narrativa, a saga de pioneiros, tropeiros e visionários que transformaram Três Lagoas em um polo econômico no início do século XX.

O Contexto: Raízes no Cerrado

O livro mergulha nas origens da colonização do sul de Mato Grosso, remontando aos anos de 1730, quando as primeiras manadas, trazidas por bandeirantes paulistas, cruzaram o sertão em busca de ouro e pastagens. O gado, mais do que riqueza, foi o motor da ocupação territorial, transformando campos firmes e várzeas pantaneiras em fazendas que sustentavam uma economia nascente. Famílias como Ferreira de Mello, Garcia Leal e Trajano dos Santos, detalhadamente exploradas na obra, plantaram as sementes de Três Lagoas, consolidando grandes propriedades e redes de poder por meio de alianças matrimoniais. Protázio Garcia Leal, com suas expedições às margens das lagoas em 1884, e Antônio Trajano, com a doação de terras para o núcleo urbano, emergem como figuras centrais nesse processo.

Spazzapan utiliza fontes primárias, como o Álbum Graphico de Matto Grosso (1914) e o blog História do Bolsão de Rudi Guimarães, para reconstruir a dinâmica da pecuária primitiva, que moldou a região. O gado, descrito como “protagonista silencioso”, não apenas alimentava a economia, mas ditava o ritmo da vida social, com fazendas como Pouso Alto funcionando como polos políticos, religiosos e econômicos.

A Feira do Gado: O Sonho de um “Far-West Brasileiro”

O cerne da obra é a criação da Feira do Gado de Três Lagoas, entre 1919 e 1920, um projeto ambicioso que buscava modernizar a pecuária e integrar a região aos mercados nacionais. A iniciativa, sancionada pela Lei nº 810 de 1919 e impulsionada pelo governador Francisco de Aquino Corrêa, foi concretizada por meio de uma concessão ao empresário João Antônio da Silva Mello Mattos. O livro detalha o contrato de 15 de abril de 1920, que previa a construção de uma infraestrutura avançada, incluindo currais, balanças, estradas, pontes metálicas e até um serviço de ferry-boat no rio Paraná, essencial antes da inauguração da Ponte Francisco de Sá, em 1926.

A narrativa ganha vida com recortes do jornal Polyanthea (10/06/1920), que celebra a inauguração do obelisco da Feira, em 12 de junho de 1920, como um marco de progresso. A chegada da iluminação elétrica e do Hospital de Caridade, também liderados por Mello Mattos, reforça a visão de Três Lagoas como um “Far-West Brasileiro”. O Gazeta do Commercio, outro pilar documental da obra, revela as disputas regionais, como a rivalidade com Campo Grande, que questionava a escolha de Três Lagoas como sede da Feira. Artigos irônicos, como o de 17 de outubro de 1920, defendem a vocação pecuária da cidade e sua conexão com capitais paulistas e cariocas.

O Auge e a Queda

Entre 1921 e 1923, a Feira do Gado viveu seu apogeu, com a Companhia Feira de Gado de Três Lagoas, uma sociedade anônima com capital de três mil contos de réis, atraindo investidores e construindo pontes importadas da Inglaterra. O livro destaca a modernização do comércio, com a instalação de uma agência do Banco do Brasil e sistemas de crédito pecuário, que transformaram a Feira em um polo financeiro.

As edições da Gazeta do Commercio de janeiro de 1924, minuciosamente analisadas por Spazzapan, expõem a autópsia contábil do colapso, com créditos inflados e operações sem lastro documental. A crise, agravada pela queda nos preços da carne e pelos altos custos de transporte, marcou o fim de uma era. Contudo, o livro sublinha que a falência foi também um ponto de inflexão, forçando Três Lagoas a amadurecer institucionalmente, como evidenciado pelo Edital da Intendência Municipal de 8 de janeiro de 1924, que regulamentava a Câmara Municipal.

O Legado: O Obelisco e a Resiliência

O obelisco, tombado como patrimônio histórico em 1982, permanece como símbolo da resiliência três-lagoense. Spazzapan argumenta que, mais do que um monumento ao sucesso efêmero, ele representa a capacidade da cidade de se reinventar. A Feira do Gado, embora silenciada em 1924, deixou um legado de infraestrutura, como o serviço de balsas no rio Paraná, e uma consciência coletiva de que o progresso exige planejamento e união.

A obra é enriquecida por fontes como o acervo da família Zaguir, o Três Lagoas Jornal e a Polyanthea, que dão voz aos pioneiros e revelam a efervescência de uma cidade em formação. A figura de João Antônio da Silva Mello Mattos, descrito como um “visionário luminoso”, é celebrada por suas contribuições à modernização de Três Lagoas, da iluminação elétrica à fundação do Hospital de Caridade.

Uma Obra de Memória e Justiça

A Feira do Gado não é apenas uma crônica do passado; é um convite à reflexão sobre o presente e o futuro. Yuri Spazzapan, com sensibilidade e rigor, resgata a alma de Três Lagoas, mostrando que sua história não se resume a números ou transações, mas ao espírito de um povo que, entre poeira e trilhos, aprendeu a se reerguer. Como ele escreve, “a História, quando contada com fidelidade, é justiça feita aos que vieram antes de nós”.

Informações Adicionais:

  • Autor: Yuri Spazzapan (Pesquisador, Fotógrafo e Art. Designer) Contato 67 99267-0262
  • Lançamento: Dezembro de 2025
  • Fontes Principais:Gazeta do Commercio, Polyanthea, Álbum Graphico de Matto Grosso (1914), Acervo Zaguir.
  • Temas: Colonização, Pecuária, Modernização, Crise Econômica, Identidade Regional.
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