Exposição “Nossa História Dá um Livro” emociona Três Lagoas ao dar voz a mulheres que superaram a violência doméstica
Três Lagoas (MS), 22 de agosto de 2025 – A Biblioteca Municipal foi palco, nesta sexta-feira, de uma manhã marcada por emoção, relatos fortes e reflexões profundas sobre a violência doméstica. A Prefeitura de Três Lagoas, por meio da Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS), em parceria com o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, promoveu a abertura da exposição itinerante “Nossa História Dá um Livro”, que reúne relatos reais de mulheres sobreviventes de violência.
O evento integra as ações do Agosto Lilás, mês de conscientização pelo fim da violência contra a mulher, e trouxe ao público depoimentos impactantes que, além de denunciarem a dura realidade do feminicídio e das agressões, também revelam histórias de resistência, superação e renascimento.
Um alerta que veio da vida real
Logo no início da solenidade, o tom foi marcado pela lembrança de um caso recente de feminicídio: uma mulher assassinada a marretadas pelo próprio marido, dentro de casa. O episódio foi usado para contextualizar a gravidade do problema que ainda assola famílias em todo o país.
“Não são apenas estatísticas. São vidas. Histórias interrompidas que poderiam ser diferentes se houvesse acolhimento e apoio. É isso que buscamos mostrar hoje”, destacou uma das autoridades presentes.
Histórias que viraram flores
Na exposição, cada capítulo do livro reúne relatos de mulheres atendidas pelo CRAM (Centro de Referência de Atendimento à Mulher) e pelo CRETL (Centro de Referência Esportiva Educacional de Três Lagoas), em parceria com o Centro de Referência à Mulher Lucrã e apoio da Petrobras, via SINTERCOL.
As Flores Anônimas: vozes que deram vida a histórias de dor e superação
Um dos momentos mais marcantes da solenidade foi a interpretação das Flores Anônimas, mulheres que, voluntariamente, emprestaram suas vozes e presenças para representar relatos reais de sobreviventes da violência doméstica. Cada intérprete leu um trecho de histórias verdadeiras, preservando a identidade das protagonistas originais, mas dando-lhes corpo, emoção e humanidade.
A escolha de nomear essas personagens com nomes de flores não foi por acaso. Assim como as flores, que mesmo após a tempestade encontram um jeito de florescer, essas mulheres simbolizam a capacidade de resistência e renascimento diante das adversidades. Cada leitura emocionou o público, revelando como a violência deixa marcas profundas, mas também como é possível transformar a dor em recomeço.
- Rosa, interpretada pela primeira-dama Kelly Abonizio, trouxe a força de uma mulher indígena que sobreviveu a duas décadas de abusos, isolada em uma aldeia, mas que conseguiu reconstruir sua vida e sua autoestima após encontrar acolhimento no CRAM. Sua história mostrou que até as raízes mais feridas podem gerar flores de coragem.
- Orquídea, representada por Juliana Aparecida, narrou a trajetória de uma mulher que, após uma juventude marcada por relacionamentos abusivos e perdas, encontrou na fé e no apoio psicológico um caminho de cura. Sua história simboliza a delicadeza e a força escondida atrás de uma aparência frágil, como a própria flor que a representa.
- Íris, interpretada por Luiza Mas, mostrou que até mesmo após 24 anos de convivência com humilhações, controle e agressões, é possível renascer. Seu relato revelou a importância dos grupos de apoio, como o “Café com Prosa”, onde ela percebeu que suportar violência não é virtude, e sim um ciclo a ser rompido.
- Hortência, apresentada por Silvania Bersani, deu voz a uma vida marcada pelo abandono e pelo preconceito. Entre agressões e perdas dolorosas, inclusive a guarda dos filhos, encontrou acolhimento e hoje transforma suas feridas em luta pela justiça. Sua história tocou o público ao mostrar que, mesmo nas condições mais adversas, sempre há espaço para florescer.
- Primavera, interpretada por Graciele Meirez, representou a mulher que, após anos de abusos e tentativas frustradas de manter um relacionamento marcado pela violência, finalmente encontrou forças para recomeçar. Sua narrativa simbolizou a estação da renovação: um tempo de cura, esperança e liberdade.
- Fênix, voz emprestada por Rosemeire Cardoso, contou a história de uma mulher que sofreu violência sexual na infância e entrou em um casamento precoce, reproduzindo um ciclo de dor. Mas, assim como a ave mítica que renasce das próprias cinzas, ela transformou a dor em força e hoje se orgulha de sua nova vida.
Cada uma dessas leituras não foi apenas a reprodução de um texto, mas sim um ato de empatia e solidariedade, onde mulheres da comunidade se colocaram no lugar das sobreviventes para mostrar que suas vozes não estão sozinhas.
Ao final, todas as intérpretes foram reunidas no palco, lado a lado, simbolizando que, embora diferentes em suas trajetórias, todas as histórias compartilham um mesmo propósito: romper o silêncio, dar visibilidade à violência e inspirar outras mulheres a recomeçarem.
Foi nesse instante que a plateia, em pé, reconheceu a força dessas flores, verdadeiras representantes de tantas mulheres anônimas que ainda sofrem em silêncio, mas que encontram esperança ao ver que outras já conseguiram florescer.

Homenagens e reconhecimento
Um dos momentos mais marcantes foi a homenagem à sobrevivente Elaine Oliveira dos Santos, participante do vídeo exibido no evento, que relatou sua trajetória de acolhimento no CRAM. Recebida com aplausos de pé, Elaine simbolizou todas as mulheres que ousaram dar rosto e voz à luta contra a violência.
Palavras das autoridades
A coordenadora do CRAM em Três Lagoas, Alessandra Rodrigues, agradeceu emocionada às mulheres protagonistas:
“Cada linha desse livro foi escrita com dor, pausas e recomeços. Essas mulheres são a prova viva de que é possível romper o ciclo da violência.”
O juiz da Vara de Violência Doméstica, Dr. Roberto, destacou a necessidade de novos caminhos para enfrentar o problema:
“Não basta punir. Precisamos quebrar o ciclo da violência, e isso também passa pelo trabalho com os agressores. Projetos como os círculos reflexivos trazem esperança de que famílias possam voltar a viver em paz.”
Representando a Câmara Municipal, a vereadora Evalda Reis reforçou a importância da rede de proteção:
“Muitas mulheres vivem atrás de cortinas, sofrendo em silêncio. Hoje, elas encontraram coragem para mostrar seus rostos e suas histórias. Nossa missão é manter essa rede forte, sem elos quebrados.”
O prefeito Dr. Cassiano Maia encerrou os discursos, emocionado, destacando que a iniciativa precisa ir além da exposição:
“Não podemos deixar que essa realidade continue. Precisamos meter a colher, fortalecer nossa rede de apoio e acreditar na recuperação não só das mulheres, mas também dos homens, para que não reincidam. Que cada história aqui inspire novas flores a renascerem.”
Um livro de dor, coragem e esperança
A exposição “Nossa História Dá um Livro” ficará disponível ao público na Biblioteca Municipal e em itinerância pela cidade. O material também poderá ser acessado digitalmente por meio de QR Code divulgado pela Secretaria de Assistência Social.
Mais que uma coletânea de relatos, a obra é um manifesto: uma denúncia das marcas da violência doméstica, mas também uma prova de que recomeçar é possível.
Cada mulher que expôs sua história nesta manhã transformou dor em força, silêncio em voz e cicatrizes em páginas vivas de resistência.
