Hércules Florence e o retrato do Salto de Urubupungá no século XIX

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Salto de Urubupungá

Três Lagoas e região, entre os rios Tietê e Paraná, guardam memórias preciosas que remontam às primeiras expedições científicas que atravessaram o interior do Brasil. Um dos registros mais ricos sobre o Salto de Urubupungá, na divisa entre Itapura e Ilha Grande, foi feito pelo viajante e desenhista francês Hércules Florence, que participou da famosa expedição Langsdorff entre 1825 e 1829.

Florence descreve com minúcia o espetáculo natural que presenciou no Salto de Itapura, comparando-o à grandiosidade de Avanhandava. O Tietê, espraiado sobre leito de pedras, despencava em um jato semicircular, formando um imenso paredão de águas brancas e espumantes. Ele observava que, diferentemente da fúria de tempestades ou terremotos, a queda d’água inspirava admiração, e não terror — um fascínio silencioso diante da força tranquila da natureza.

A expedição permaneceu três dias no local, tempo necessário para transportar canoas e cargas por terra, já que a travessia pelo salto era impossível. Pouco depois, o grupo alcançou a foz do Tietê no rio Paraná, adentrando então a região onde habitavam os índios caiapós. Florence relata a expectativa de encontrar a aldeia e os costumes nativos, mas também descreve as dificuldades inesperadas da jornada.

O salto de Urubupungá

Guiados pelo som que lembrava o estrondo de uma artilharia distante, os viajantes chegaram ao Salto de Urubupungá, famoso entre os exploradores da época. Ali, o rio Paraná se estreitava e ganhava velocidade, rompendo em uma queda monumental de largura impressionante — quase um quarto de légua — entre pedras e ilhas que fragmentavam o fluxo das águas. Para os exploradores, tratava-se de uma das paisagens mais imponentes já vistas no coração do Brasil.

O encontro com os Caiapós e o “inseto pitoresco”

Na visita à aldeia dos caiapós, Florence registrou uma cena que hoje nos dá um retrato vívido das condições de vida na região. As habitações eram simples palhoças de cipó e folhas de palmeira, fechadas com laços rudimentares. Mas o que mais marcou os viajantes foi o ataque inesperado de uma praga incômoda:

“Vimos uma multidão de pulgas subirem-nos pelas calças… Enchemo-nos também de bichos, espécie de pulga de menor tamanho que se introduz na carne, aí forma um saco onde deposita ovos em quantidade e, se não é extraída, toma o volume de um grão de milho.”

Este inseto, conhecido popularmente como bicho-de-pé, atacava principalmente os pés, abrindo buracos dolorosos na pele e, em casos de descuido, impedindo até mesmo a locomoção das pessoas. Florence relata que escravizados recém-chegados da África sofriam de maneira devastadora com a infestação, chegando a ter os pés tão comprometidos que não conseguiam mais caminhar.

Um retrato vivo da Três Lagoas antes de existir

Embora ainda distante da fundação oficial de Três Lagoas (que só ocorreria em 1915), as descrições de Florence oferecem uma das primeiras imagens escritas da região. Ele retrata não apenas a imponência natural dos rios Tietê e Paraná, mas também a vida cotidiana dos povos originários, a rusticidade das aldeias e os desafios de saúde enfrentados no sertão.

As páginas de Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas são, assim, muito mais que um diário de viagem. São um documento histórico e científico que mostra como os viajantes europeus do século XIX viam os cenários que hoje pertencem ao território de Três Lagoas e arredores — terras de rios majestosos, quedas d’água colossais, culturas indígenas e insetos que, de forma pitoresca e dolorosa, entraram para a memória da expedição.

Hoje, o Salto de Urubupungá não existe mais em sua forma original, pois foi coberto pelas águas do reservatório de Jupiá, mas sua memória continua viva graças a relatos como o de Hércules Florence, que eternizaram em palavras e imagens uma das paisagens mais grandiosas da história natural do Brasil.

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