Três Lagoas celebra avanços na preservação do Parque do Pombo durante 2º Encontro de Pesquisa e Conservação
Nesta quinta-feira (14), a Prefeitura de Três Lagoas, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Agronegócio (SEMEA), em parceria com o Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS), realizou o 2º Encontro de Pesquisa e Conservação do Parque Natural Municipal do Pombo. O evento, sediado na Câmara Municipal, reuniu autoridades, pesquisadores, acadêmicos e ambientalistas para apresentar resultados científicos e discutir estratégias de preservação do maior remanescente de Cerrado da costa leste de Mato Grosso do Sul.
A abertura contou com a fala da secretária municipal do meio ambiente, Mariana Amaral, que ressaltou a importância do Parque como patrimônio natural e sugeriu que o próximo encontro seja realizado dentro da unidade de conservação, para aproximar a população da realidade e das belezas do local. “É um paraíso que muitos ainda não conhecem. Precisamos preservar, cuidar e transformar Três Lagoas em exemplo nacional de conservação”, destacou.
O Parque do Pombo: um gigante verde do Cerrado
Com mais de 8 mil hectares de área protegida, o Parque Natural Municipal do Pombo abriga centenas de espécies de fauna e flora, algumas ameaçadas de extinção. Criado em 2006 e ampliado em 2013, é considerado a maior área contínua de Cerrado preservado no leste do Estado. De acordo com o biólogo e chefe do parque, Flávio Henrique, o local reúne diferentes formações vegetais — de campos limpos a cerradões — e é delimitado por cursos d’água, como o córrego Tapera, que abriga a famosa Cachoeira do Tapera.

Linha do tempo da preservação
Durante a apresentação relembrou o histórico de conservação da área, desde sua aquisição com recursos de compensação ambiental, passando pela elaboração do plano de manejo, até a construção do Complexo Receptivo — estrutura que recebe pesquisadores e oferece suporte para atividades científicas e de educação ambiental.
Nos últimos anos, pesquisas em parceria com universidades e instituições nacionais e internacionais têm revelado descobertas importantes. Entre os registros recentes, destaca-se a confirmação da presença do tatu-canastra — um dos maiores tatus do mundo e espécie ameaçada — capturado pela primeira vez em janeiro deste ano e novamente em março. O monitoramento por armadilhas fotográficas também registrou onças-pardas, antas e outras espécies emblemáticas do Cerrado.
Participação e parcerias
O encontro contou com a presença de representantes do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (IMASUL), Polícia Militar Ambiental, UFMS, empresas ligadas à sustentabilidade e forças de segurança que atuam na proteção da região. Foram realizadas quatro palestras ao longo do dia, além de debates sobre conservação, manejo sustentável e o papel da ciência na formulação de políticas públicas.
Compromisso com o futuro
A SEMEA e o ICAS reforçaram a importância da continuidade das pesquisas e do engajamento comunitário para garantir que o Parque do Pombo siga como referência em preservação do bioma Cerrado. “Esse encontro é mais do que um momento de apresentação de resultados. É um compromisso coletivo com a história e o futuro da nossa biodiversidade”, afirmou Amaral.
Monitoramento com tecnologia de ponta
Para estimar a população do tatu-canastra, foram instalados 80 câmeras de monitoramento distribuídas por todo o parque. Essas armadilhas fotográficas registram automaticamente fotos e vídeos ao detectar movimento, permitindo identificar cada animal individualmente por meio do padrão único de suas escamas — algo comparável às digitais humanas.

O levantamento revelou 23 indivíduos identificados (12 fêmeas e 11 machos) vivendo dentro dos limites do parque — quase três vezes mais do que a média estimada para áreas semelhantes no Cerrado. “Isso mostra o quanto este habitat é crucial para a espécie”, destacou Valquíria Araújo.
Além da contagem, as câmeras registraram sinais de saúde e reprodução. Todos os indivíduos observados estavam bem nutridos, com boa reserva de gordura, e foram documentados filhotes em pleno desenvolvimento, prova de que a população é não apenas estável, mas ativa na reprodução.
Engenheiros do ecossistema
O tatu-canastra é considerado um “engenheiro de ecossistema”, pois suas tocas profundas e extensas beneficiam dezenas de outras espécies, servindo como abrigo contra predadores e altas temperaturas. O estudo documentou 30 espécies de mamíferos, 70 de aves e cinco de répteis utilizando as tocas, incluindo registros inéditos no Mato Grosso do Sul, como o lagarto “teiú mascarado” e o “teiú de quatro linhas”.
As tocas também funcionam como refúgio climático, mantendo temperatura interna em torno de 24°C, o que beneficia desde pequenos lagartos até grandes predadores como a jaguatirica e o tamanduá-bandeira.

Conservação urgente
A pesquisa, parte de um esforço maior de conservação do tatu-canastra — espécie ameaçada de extinção —, reforça que a manutenção e proteção integral do Parque do Pombo é vital não só para esta espécie, mas para todo o conjunto de fauna e flora do Cerrado.
“Estamos falando de um dos parques mais ricos em biodiversidade do bioma e de uma espécie-chave para o equilíbrio ambiental. Proteger o tatu-canastra é proteger todo um ecossistema”, concluiu a equipe.
Palestra destaca Programa de Conservação do Tatu-canastra e Saúde Única no entorno do Parque Natural Municipal do Pombo
O Veterinário Danilo Kluyber apresentou o Programa de Conservação do Tatu-canastra – Saúde Única, que atua no entorno do Parque Natural Municipal do Pombo.
O palestrante, médico-veterinário integrante do projeto, iniciou agradecendo a parceria com a Prefeitura de Três Lagoas e a gestão do parque, destacando que a iniciativa surgiu a partir de uma pesquisa de doutorado sobre a espécie e que hoje se expandiu para monitorar também animais domésticos e a saúde das comunidades locais.
O tatu-canastra, espécie ameaçada e de baixa densidade populacional, vem sendo monitorado desde 2010 no Pantanal, no Cerrado e agora no Parque do Pombo. O trabalho envolve captura, colocação de transmissores e coleta de amostras biológicas, possibilitando estudos aprofundados sobre saúde e ameaças à espécie. Ao longo dos anos, pesquisas revelaram a presença de patógenos como Salmonella, vírus da cinomose canina e até um herpesvírus específico do tatu-canastra, com potencial de causar mortalidade significativa.
Segundo o veterinário, o avanço das atividades humanas, a presença de cães não vacinados em áreas de conservação e a perda de habitat aumentam os riscos de transmissão de doenças entre animais domésticos, silvestres e seres humanos. Casos concretos já foram registrados, como cães infectados com cinomose no entorno do parque e tatus selvagens positivos para a mesma doença.
O projeto também investiga zoonoses históricas associadas aos tatus, como hanseníase e doença de Chagas, e monitora outras enfermidades de importância para a saúde pública, como leishmaniose, toxoplasmose e paracoccidioidomicose.
Dentro do conceito de Saúde Única, que integra saúde animal, humana e ambiental, a iniciativa busca compreender de forma ampla o impacto das interações entre fauna, flora, animais domésticos e comunidades. Para isso, além de veterinários e biólogos, a equipe conta com profissionais de diferentes áreas, aplicando questionários e promovendo ações de educação ambiental.
O palestrante encerrou reforçando a importância da cooperação entre órgãos públicos, pesquisadores e população local para garantir a preservação do tatu-canastra e a saúde de todo o ecossistema que depende dele.
