Um Retrato Histórico da Locomotiva 405: Relíquia da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil em Três Lagoas
Vejo nesta fotografia de 2014, capturada pelo fotógrafo Yuri Spazzapan, um testemunho visual comovente do declínio e da resiliência das antigas vias férreas que moldaram o Oeste paulista e mato-grossense no século XX, retrata um momento de abandono poético, onde a natureza reivindica os artefatos da era industrial, mas também prenuncia um renascimento. Ambientada na antiga oficina de vagões da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) — um complexo de galpões e pátios em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul, erguido no início dos anos 1910 para manutenção de composições que ligavam Bauru a Corumbá —, a cena evoca o fim de uma era de vapor e o início de um capítulo de preservação cultural.
No centro da composição, domina a locomotiva a vapor Baldwin modelo 405, fabricada em 1920 pela renomada Baldwin Locomotive Works, nos Estados Unidos, e incorporada ao inventário da NOB nos anos 1930. Essa máquina, do tipo 4-6-0 (ten-wheeler), com bitola métrica de 1 metro, foi projetada para tração mista de cargas e passageiros em linhas sinuosas como as do Pantanal mato-grossense. Seu número “405” — visível, embora desgastado, na chapa frontal do caldeirão — surge como uma cicatriz metálica sobre a carroceria enferrujada, coberta por uma pátina ocre de ferrugem que se funde ao solo arenoso. A caldeira, outrora reluzente de rebites e válvulas Walschaerts, agora exibe buracos como feridas abertas, com hastes de metal contorcidas emergindo como ossos expostos. As rodas motrizes, de aro largo e raiado, jazem semi-enterradas em meio a tufos de capim seco e gravetos caídos, enquanto o tender (o vagão de combustível e água) pende de forma precária, como se o trem inteiro tivesse sido abandonado à beira do esquecimento após sua última viagem nos anos 1970. Ramas de árvores e cipós rasteiros invadem o vão das engrenagens, simbolizando como a selva circundante — representada pela imponente mangueira (Mangifera indica) ao fundo, com folhas verde-esmeralda contrastando o céu azul sem nuvens — devora os símbolos do progresso humano.
Ao redor, o cenário da oficina amplifica essa narrativa de decadência nobre. Os galpões de tijolos aparentes, com telhados de telhas vermelhas rachadas e portas azuis semi-abertas, erguem-se como sentinelas silenciosas de uma infraestrutura que, no auge da NOB (1914-1970s), abrigava centenas de mecânicos e carpinteiros dedicados à reparação de vagões de madeira e locomotivas a lenha ou carvão. Esses edifícios, datados da década de 1920, foram o coração pulsante da esplanada ferroviária de Três Lagoas, onde a NOB não só transportava gado, algodão e imigrantes, mas também fundou a própria cidade: os trilhos cruzaram o rio Paraná em 1915, transformando um povoado ribeirinho em polo de escoamento para o interior do Mato Grosso, fomentando um boom populacional e econômico que elevou Três Lagoas de vila a “Capital Mundial da Celulose” décadas depois. O chão de terra batida, salpicado de cinzas e detritos, sugere anos de negligência pós-desativação da linha, agravada pela transição para o transporte rodoviário na era Vargas e pelo declínio da RFFSA (Rede Ferroviária Federal) nos anos 1980.
Essa fotografia de Spazzapan, com sua composição ampla e tons terrosos que evocam os mestres do realismo fotográfico como Sebastião Salgado, não é mero registro documental; é um retrato alegórico do Brasil profundo, onde o ferro enferrujado narra histórias de migração, trabalho braçal e sonhos de modernidade frustrados pela obsolescência. Capturada em 2014, ela documenta a locomotiva em seu ponto mais baixo: parada há cerca de 40 anos no pátio das oficinas de pontes e carpintaria da NOB, vulnerável à depredação e ao tempo, quase removida em 2020 pelo DNIT para Campo Grande, mas salva pela intervenção do prefeito local, que a reivindicou como patrimônio municipal.
Avançando para 2025, essa relíquia ganhou nova vida. Restaurada a partir de 2017 pela prefeitura de Três Lagoas, a 405 foi meticulosamente recomposta: caldeira polida, rodas realinhadas e acabamento em preto e vermelho, fiel aos padrões de 1920. Hoje, exposta permanentemente no galpão restaurado da antiga oficina da NOB, ao lado da Estação Ferroviária no centro da cidade, ela serve como monumento vivo — não mais enferrujada, mas reluzente, convidando visitantes a rememorar os trilhos que uniram o Brasil. Essa transformação, de ferro oxidado a ícone cultural, reflete o esforço nacional de preservação ferroviária, a NOB uma ferrovia que, ao conectar o Sertão ao Prata, tecia o tecido social do Centro-Oeste. Em 2025, ao pisar no pátio revitalizado, o observador não vê ruínas, mas um portal para o passado — prova de que a história, como o vapor, pode ser reacendida.
