A Consolidação de Campo Grande: Um Registro Histórico (1892–1910)
No final do século XIX, a região que hoje conhecemos como Campo Grande, no coração do Mato Grosso, começava a ganhar contornos definidos, moldada por esforços administrativos e técnicos que buscavam organizar a posse de terras e estruturar um núcleo urbano promissor. Este relato, fundamentado em documentos históricos, resgata os marcos que consolidaram a vila de Campo Grande, desde a regularização fundiária até a demarcação precisa de seu território.
A Regularização Fundiária de 1892
Em 9 de novembro de 1892, o Presidente da Província de Mato Grosso promulgou a Lei nº 20, um marco na administração territorial da região. A legislação determinava o reexame rigoroso de todos os títulos de posse, exigindo que os proprietários comprovassem residência habitual e exploração efetiva das terras. Para garantir a precisão, um perito era designado para medir as áreas, e qualquer excesso identificado implicava o pagamento de uma taxa à Província. Somente após esse processo, o título de posse era registrado na intendência local, conforme estipulado pelo Regulamento nº 38, de 15 de fevereiro de 1893.
Um exemplo emblemático desse procedimento é o registro da área do Arraial de Santo Antônio de Campo Grande, documentado sob o número 427, no livro nº 14, do município de Nioaque. Em 20 de junho de 1894, João Luiz da Fonseca e Moraes, Intendente Geral de Nioaque, aprovou o registro de uma área de 3.600 hectares pertencente a José Antônio Pereira, administrador da Igreja do Patrimônio de Santo Antônio de Campo Grande. A descrição detalhava os limites da propriedade: a leste, as cabeceiras do córrego Prosa e seus afluentes; a oeste, as posses de Dona Francisca Taveira e José Alves Rabello, demarcadas pelo espigão mestre; ao norte, o córrego Segredo e seus afluentes, em linha reta até a cabeceira do Prosa; e ao sul, os limites de Joaquim Antônio Pereira, atravessando o rio Anhanduí e o córrego Lagoa. Este registro, fundamentado no artigo 5º, parágrafo 5º, da Lei nº 20, legitimava a posse e assegurava a propriedade, consolidando a presença humana na região.
A Demarcação do Rocio de Campo Grande (1910)
Dezesseis anos depois, em 1910, a vila de Campo Grande foi objeto de um novo esforço de ordenamento territorial, liderado pelo engenheiro militar Themístocles Paes de Souza Brasil. Enviado em maio de 1909 para coordenar a instalação da 5ª Brigada Estratégica, Themístocles colocou suas habilidades a serviço da municipalidade, sem remuneração, movido pelo desejo de contribuir para o progresso de um povoado que já se destacava por seu potencial.
Sob a orientação do Intendente Municipal José Santiago e autorizado pelo Presidente do Estado, Themístocles iniciou, em 16 de novembro de 1909, a demarcação de uma área destinada ao Rocio da vila, equivalente a 3.600 hectares, conforme determinado pelo governo estadual. Os trabalhos, realizados com rigor técnico, empregaram métodos como o caminhamento para traçar o perímetro e o radiamento para integrar a área à planta do povoado. Instrumentos como teodolito, pedômetro, bússola, estadia, sextante e cronômetro foram utilizados para medições precisas, incluindo a determinação de coordenadas astronômicas e da declinação magnética (1º31’14” Oeste). A latitude foi calculada por observações solares, enquanto a longitude foi estimada por caminhamento a partir de Aquidauana, cuja posição era conhecida pelo telégrafo.
A ausência de registros prévios ou marcos físicos para os limites das terras públicas exigiu que Themístocles se baseasse nas indicações da municipalidade e dos moradores mais antigos. O polígono demarcado considerava três critérios fundamentais: respeitar os limites das fazendas Estribo e Bandeira, circunscrever as cabeceiras dos córregos Prosa e Segredo — essenciais para o abastecimento hídrico — e manter uma forma geométrica regular. Contudo, ao calcular a área, constatou-se um total de 6.504 hectares, 34 ares e 79 metros quadrados, superando em cerca de 2.900 hectares o estipulado.
A decisão de manter a área ampliada foi estratégica. Themístocles argumentou que reduzir o polígono cortaria cabeceiras vitais para os córregos, comprometendo o abastecimento de água e o desenvolvimento da vila. Após consulta ao Intendente e aprovação do Presidente do Estado, a área total foi oficializada, garantindo o controle sobre as águas e terras essenciais ao crescimento de Campo Grande.
Aspectos Geográficos e Hidrográficos
A vila de Campo Grande, situada a 20º27’15,6” de latitude Sul, 11º36’55,5” de longitude Oeste (em relação ao meridiano do Rio de Janeiro) e a 735 metros de altitude, ocupava uma posição privilegiada no planalto da serra de Maracaju. A confluência dos córregos Prosa e Segredo, que formam o rio Anhanduí, era o coração hidrográfico da vila. O Prosa, com 7.800 metros de curso, e o Segredo, com 10.000 metros, forneciam, juntos, 621 litros por segundo, capazes de abastecer uma população estimada em 170.000 habitantes, segundo padrões da época. Contudo, a má utilização das águas, com despejos e derivações inadequadas, comprometia sua qualidade, um problema que Themístocles destacou como urgente.
Geologicamente, a região era marcada por um subsolo de grês ferruginoso, coberto por argila vermelha e, em áreas favoráveis, por húmus que sustentava matas exuberantes. A ausência de calcário e a escassez de materiais de construção limitavam o desenvolvimento, enquanto a vegetação variava entre matas densas e cerrados típicos do planalto central.
Clima e Potencial de Crescimento
O clima temperado de Campo Grande, com temperaturas entre 4ºC e 29ºC em 1909, favorecia a salubridade, apesar das práticas higiênicas precárias. A brisa leste trazia alívio ao calor, e a divisão clara entre estações seca e chuvosa facilitava a organização da vida local. Themístocles via na vila um núcleo de progresso, destinado a se tornar o principal empório do sul do Mato Grosso, graças à sua posição estratégica e ao potencial para a pecuária e a agricultura, embora esta última estivesse limitada a culturas como milho, arroz e mandioca.
Os esforços de regularização fundiária em 1892 e de demarcação em 1910 foram fundamentais para transformar Campo Grande de um arraial incipiente em um centro urbano promissor. A visão de Themístocles, aliada à administração rigorosa de José Santiago e à legislação provincial, assegurou a posse legítima das terras e a proteção de recursos vitais, como as águas dos córregos Prosa e Segredo. Esses passos iniciais lançaram as bases para o crescimento de uma cidade que, décadas mais tarde, se tornaria a capital de Mato Grosso do Sul, um testemunho da foresight de seus pioneiros e da riqueza natural de sua região.

