A Jornada do fundador de Campo Grande José Antônio Pereira aos Campos da Vacaria

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Em 1872, José Antônio Pereira empreendeu uma ambiciosa jornada rumo aos campos da Vacaria, localizados ao sul da Província de Mato Grosso. Seu objetivo era alcançar aquelas terras distantes, seguindo, em grande parte, o mesmo trajeto percorrido pela coluna do exército brasileiro durante a Guerra do Paraguai, entre 1865 e 1866. Partindo de Campinas, São Paulo, e atravessando Minas Gerais e Goiás, a expedição militar chegara ao teatro de guerra no sul mato-grossense. José Antônio, movido por determinação, traçou um caminho semelhante, carregado de desafios e promessas de novas oportunidades.

Preparativos para a Expedição

A viagem, longa e árdua, exigia meticulosa preparação. José Antônio organizou uma tropa composta por cerca de uma dúzia de animais, incluindo cavalos de montaria e mulas de carga, devidamente equipados para transportar alimentos, remédios e sementes. A escolha de um guia experiente era essencial, e, para isso, contratou Luiz Pinto Guimarães, sertanista de Uberaba que integrara a expedição militar à campanha da Laguna. Meses foram dedicados ao planejamento: desde a definição dos meios de transporte e suprimentos até a previsão de despesas financeiras. A época escolhida, o outono, entre março e junho, aproveitava as estiagens prolongadas, que facilitavam a travessia dos rios a vau.

A Partida: Monte Alegre de Minas

No dia 4 de março de 1872, uma segunda-feira, José Antônio, acompanhado de seu filho Antônio Luiz Pereira, do guia Luiz Pinto e de dois escravos, partiu de Monte Alegre de Minas. O percurso inicial foi descrito com vivacidade pelo Visconde de Taunay, cujas obras Cartas da Campanha de Matto Grosso (1865-1866) e Marcha das Forças (Expedição de Matto Grosso) oferecem um retrato detalhado da região. Segundo Epaminondas Alves Pereira, neto de Antônio Luiz, que conviveu com ele por 35 anos, a rota de José Antônio espelhava a dos militares, passando pelos mesmos povoados para descanso e reabastecimento.

Monte Alegre, conforme relatado por Taunay em 1865, era um arraial modesto, com 400 a 500 habitantes, algumas casas caiadas e telhadas, e uma matriz de aparência simples. O comércio, quase inexistente, dependia da passagem esporádica de tropas de animais. A descrição de Taunay evoca um lugar pitoresco, mas de movimento escasso, onde a comitiva de José Antônio iniciou sua jornada rumo ao noroeste, por uma estrada que ligava Uberaba às terras goianas, atravessando os cerrados mineiros.

Santa Rita do Paranaíba (Itumbiara, Goiás)

A primeira etapa levou a comitiva ao povoado de Santa Rita do Paranaíba, hoje Itumbiara, Goiás, após percorrer onze léguas (66 km). A travessia do rio Paranaíba era feita em uma balsa rudimentar, composta por duas canoas unidas por tábuas, capaz de transportar dez animais por vez, em cerca de 40 minutos, ao custo de 700 réis por pessoa. Taunay, ao descrever Santa Rita em 1865, destacou sua fundação recente, por mineiros exploradores, e seu porto, estabelecido em 1824 por Cunha Mattos. O povoado, com casas dispostas na rampa que levava ao rio, vivia em relativa estagnação, animada apenas pela passagem ocasional de recovas de sal rumo a Goiás.

Vila das Dores do Rio Verde (Rio Verde, Goiás)

Prosseguindo em direção noroeste, a comitiva enfrentou o Rio dos Bois, cuja correnteza e largura de 170 metros exigiam canoas para a travessia de pessoas e a passagem a vau para os animais. Após 41 léguas (246 km) desde Santa Rita, chegaram à Vila das Dores do Rio Verde, também chamada Vila das Abóboras, hoje Rio Verde. Taunay descreveu o local, em 1865, como um povoado de rua única, com palhoças espaçadas, algumas em ruínas, e uma capela de Nossa Senhora das Dores em um alto dominante. Apesar de sua condição de vila, o lugar não correspondia à sua titulação, mas era animado pelo trânsito de boiadas rumo a Uberaba e ao Rio de Janeiro.

Baús (Costa Rica, Mato Grosso do Sul)

A jornada seguiu para oeste, rumo à região de Baús, no atual município de Costa Rica, Mato Grosso do Sul, a 54 léguas (324 km) de distância. A travessia dos cerrados goianos incluiu passagens por rios como o Doce, Claro e Verde, aproveitando vaus naturais. Em Baús, a comitiva encontrou uma fazenda à margem do ribeirão homônimo, onde, como as forças brasileiras em 1865, provavelmente fez uma pausa para descanso. Taunay relatou a exaustão dos animais após marchas prolongadas, destacando a necessidade de tratar as mulas para prosseguir.

Camapuã (Mato Grosso do Sul)

Continuando em direção a Coxim, a comitiva atravessou o ribeirão Sucuriú por uma ponte e passou pelas cabeceiras do rio Jauru, contornando as serras de Santa Marta e Sellada. Após quase 40 léguas, alcançaram o extremo norte da serra de Maracaju, dirigindo-se ao sul, às margens do rio Coxim, até Camapuã. Taunay, em Céus e Terras do Brasil, descreveu Camapuã como uma fazenda outrora próspera, com vestígios de uma grande casa de sobrado e uma igreja, mas já abandonada, habitada apenas por alguns negros e mulatos livres. As ruínas, cercadas por matagais e laranjeiras, testemunhavam um passado de movimento intenso.

Chegada aos Campos da Vacaria

A última etapa da viagem levou José Antônio aos campos da Vacaria, atravessando cerrados e pousos como Jabota, Brejinho, Pontinha, Maribondo e Perdizes, até alcançar o ribeirão das Botas. Após cerca de 30 léguas, em 21 de junho de 1872, a comitiva chegou à confluência dos córregos Prosa e Segredo, em uma área desabitada da região conhecida como Campo Grande, ao norte dos campos da Vacaria e a leste da serra de Maracaju. Taunay descreveu o Campo Grande como um vasto chapadão, de mais de 50 léguas, com raras árvores quebrando a monotonia da planura.

Foram três meses e meio de viagem, percorrendo aproximadamente 180 léguas (1.080 km), desde Monte Alegre de Minas até o destino final. A jornada de José Antônio Pereira, marcada por desafios naturais e logísticos, reflete não apenas sua determinação, mas também a riqueza histórica de um Brasil em transformação, cujos caminhos foram registrados por viajantes como Taunay, que imortalizaram os sertões em suas narrativas.

A Segunda e Terceira Viagem de José Antônio Pereira ao Campo Grande

Em 1875, José Antônio Pereira, com a determinação que lhe era característica, liderou uma comitiva de 65 pessoas, composta quase inteiramente por sua família, em uma segunda jornada rumo à pequena propriedade que deixara no Campo Grande, em 1872. A expedição, que incluía doze carros mineiros, animais de montaria e carga, além de um lote de gado de cria, seguiu um trajeto alternativo, mais curto, passando pelo povoado de Sant’Anna do Paranahyba, na divisa entre as províncias de Mato Grosso e Minas Gerais. Esta viagem, marcada por desafios logísticos e um inesperado papel humanitário, consolidou o legado de José Antônio como pioneiro na região.

Partida de Monte Alegre e Chegada à Vila da Prata

Deixando Monte Alegre de Minas, a comitiva tomou o rumo sul, atravessando o rio Tejuco a meio caminho até alcançar a Vila da Prata, hoje Prata, Minas Gerais, a cerca de 9 léguas de distância, no Sertão da Farinha Podre. Maior que Monte Alegre, a vila, fundada como Arraial de Nossa Senhora do Monte do Carmo em 1811 e renomeada Prata em 1848, ofereceu um ponto de descanso. Após a parada, a jornada prosseguiu em direção sudoeste, cruzando o rio da Prata e vadeando os afluentes à direita do rio Verde, em terras mineiras. Após cerca de 20 léguas, a comitiva chegou à freguesia de São Francisco de Sales, na divisa com São Paulo.

Freguesia de São Francisco de Sales

A descrição do Visconde de Taunay, em Céus e Terras do Brasil, ilumina o cenário encontrado por José Antônio. Ao passar pela freguesia de São Francisco de Sales em 1867, Taunay retratou um povoado de cerca de 40 casas, muitas em ruínas, fundado por volta de 1837. Apesar do solo fértil e da beleza da paisagem, com várzeas adornadas por buritis, o lugar estagnava, sem sinais de progresso. Após descansar ali, a comitiva de José Antônio seguiu a oeste, em linha reta, margeando a direita do Rio Grande, passando por áreas que hoje correspondem às cidades de Iturama, Alexandrita e Carneirinho.

Travessia do Rio Paranaíba

Após percorrer mais 20 léguas, a caravana alcançou as margens do Rio Paranaíba, na altura do atual Porto Alencastro, na divisa entre Mato Grosso e Minas Gerais. Taunay descreveu a região como uma mata densa, marcada por sinais de cheias recentes, com solos lodacentos e uma atmosfera insalubre que espalhava febres por três a quatro léguas ao redor. O rio, de margens barrancosas e águas rápidas, com 350 a 400 braças de largura, era atravessado por uma precária barcaça mantida pela barreira provincial de Mato Grosso, composta por duas canoas de tamboril.

Vila de Sant’Anna do Paranahyba

A apenas uma légua e meia do rio, a comitiva chegou à Vila de Sant’Anna do Paranahyba, na Província de Mato Grosso. Planejando uma pausa para descanso e reabastecimento, José Antônio providenciou um terreno emprestado para uma pequena roça. Contudo, um surto de febre palustre forçou a comitiva a permanecer por meses. Com seus conhecimentos em fitoterapia e homeopatia, José Antônio foi convocado a tratar os doentes, atuando como médico em uma vila desprovida de profissionais de saúde. Sua atuação salvou muitas vidas, consolidando sua reputação como líder compassivo. Taunay, que visitou a vila em 1867, descreveu-a como um lugar pitoresco, com laranjeiras perfumando o ar, mas marcado pela decadência, com ruas silenciosas, uma matriz inacabada e uma população de cerca de 800 habitantes, dizimada pelas febres do rio Paranaíba.

Rumo a Camapuã

Superado o surto de malária, com nenhum integrante da comitiva perdido, José Antônio retomou a viagem com 62 pessoas e onze carros mineiros, após sua filha Maria Carolina, seu genro Antônio Gonçalves Martins e sua neta Maria Joaquina decidirem retornar a Minas Gerais. A jornada, agora rumo a Camapuã, cobriu 63 léguas pelos sertões de Mato Grosso, seguindo a “estrada do Piquiri” e passando por fazendas no Sertão dos Garcias, nas proximidades do atual município de Cassilândia. A comitiva atravessou ribeirões como Pombas e Indaiá, descritos por Taunay, e o rio Sucuriú, onde encontrou moradores vivendo em condições precárias. A travessia do Sucuriú foi feita por canoas para os viajantes e a vau para os animais e carros. Até Camapuã, a caravana cruzou rios como São Domingos, Verde e Claro, alcançando o Brejão e, finalmente, o Corredor, um lugarejo habitado por negros e mulatos livres, próximo à abandonada Fazenda Camapuã, onde descansaram por alguns dias.

Chegada ao Campo Grande

De Camapuã, restavam 22 léguas até a propriedade de José Antônio, situada na confluência dos córregos Prosa e Segredo. Seguindo ao sul, a comitiva vadeou as cabeceiras do rio Pardo, na região do atual Capim Verde, e passou por áreas hoje conhecidas como Bandeirante, Bom-Fim e Jaraguari. Em 14 de agosto de 1875, alcançaram o destino. No local, encontraram uma família proveniente da Prata, liderada por Manoel Vieira de Souza (Manoel Olivério), que ali se instalara recentemente. Com hospitalidade, Manoel devolveu a propriedade a José Antônio mediante ressarcimento. Juntos, iniciaram a construção de ranchos às margens do córrego Prosa, na altura da atual Rua 26 de Agosto. Com 72 habitantes, o núcleo foi batizado como Arraial de Santo Antônio do Campo Grande, em cumprimento a uma promessa feita por José Antônio em Sant’Anna, em agradecimento pela proteção contra a febre palustre. Embora mais curta, com cerca de 140 léguas, a viagem foi prolongada pela lentidão dos carros de bois e pela longa estadia na vila.

A Terceira Viagem: Reencontro e Reconciliação

Em 1878, José Antônio empreendeu sua terceira e última viagem a Monte Alegre de Minas, movido pela saudade e pelo desejo de reunir toda a família no Campo Grande. O motivo remontava à segunda viagem, quando sua filha Maria Carolina, seu genro Antônio Gonçalves Martins e sua neta Maria Joaquina retornaram a Minas após um desentendimento. Entre 1875 e 1878, Maria Carolina faleceu, deixando Antônio viúvo. Ao retornar, José Antônio encontrou o genro, a neta, agora casada com Tomé Martins Cardoso, e sua bisneta, Maria Jesuína. A reconciliação foi natural, e ele os convenceu a se juntarem ao Arraial de Santo Antônio do Campo Grande. Seguindo um itinerário semelhante ao da segunda viagem, com paradas nos mesmos pontos de descanso e reabastecimento, a comitiva retornou ao Campo Grande, consolidando a união familiar.

Legado de um Pioneiro

As viagens de José Antônio Pereira, marcadas por coragem, resiliência e um profundo senso de comunidade, foram fundamentais para a fundação do Arraial de Santo Antônio do Campo Grande, hoje a próspera capital de Mato Grosso do Sul. Suas jornadas, que enfrentaram sertões inóspitos, rios traiçoeiros e surtos de doenças, refletem o espírito desbravador do Brasil oitocentista. Apoiado pelas vívidas descrições de Taunay e pela memória familiar preservada, o legado de José Antônio transcende a história local, simbolizando a construção de um futuro em terras até então desabitadas, onde sua visão e determinação plantaram as sementes de uma nova comunidade.

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