O Ouro, a Borracha e o Mate – A Economia de Enclave e as Riquezas Extrativas no Início do Povoamento do Centro Oeste

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Créditos: Autoria desconhecida.

Longe dos trilhos e das rotas fluviais, a verdadeira história econômica de Mato Grosso foi escrita pela busca incessante por recursos naturais: do ouro fundacional de Cuiabá aos poderosos enclaves da erva-mate e borracha, impulsionando a geopolítica regional e a cobiça internacional por minérios e petróleo.

No cenário do antigo Mato Grosso (que incluía o atual Mato Grosso do Sul) no início do século XX, a economia de mercado se sustentava em grande parte em atividades extrativas e industriais simples, que eram estritamente dependentes das matérias-primas locais. A busca por riquezas minerais e vegetais não apenas moldou a vida social, mas também justificou as grandes obras de infraestrutura e a expansão territorial.

A Fundação Aurífera: Cuiabá e o Ouro

A origem de alguns dos primeiros núcleos populacionais no Centro-Oeste está intimamente ligada à exploração do ouro. Inicialmente, a povoação de “Forquilha” era um modesto acampamento de Bandeirantes. Posteriormente, esse assentamento desceu para um sítio antes povoado por malocas Carijós.

O abandono do primeiro local foi completo, pois a emigração se deu para uma nova lavra que recebeu o nome de Cuyabá, do rio mais próximo. A abundância mineral desse novo sítio era tamanha que, em menos de um mês, quatrocentas arrobas de ouro foram extraídas dos arredores. Mesmo com grandes obstáculos naturais e ataques de selvagens, a notícia de que “o ouro em Cuyabá era em tanta abundância que os caçadores serviam-se d’elle em vez de chumbo” continuava a ser repetida em São Paulo.

Apesar do entusiasmo, na prática corrente da dragagem do ouro, o custeio era exorbitante, o que não encontrava justificativa nas condições econômicas de trabalho da região. O método de extração consistia em grandes escavações e no transporte da terra para ser lavada em um “canoa”—um paralelogramo inclinado de terra batida, fechado por tábuas, à beira de um rio ou lagoa.

Os Enclaves da Borracha e do Mate

Duas das atividades extrativas de maior projeção no contexto da economia de mercado eram a extração e o beneficiamento da erva-mate e a indústria do charque. Essas indústrias voltavam-se basicamente para mercados externos (estrangeiros ou outros estados brasileiros), tendendo a assumir características de enclave.

Borracha (Goma)

A extração de borracha (Hevea brasiliensis, Castilloa elastica e Mangabeira) era uma indústria concentrada na parte noroeste do Estado. Os seringais se estendiam pelos municípios de Diamantino, Rosario-Oeste e Mato Grosso.

A borracha era um dos principais produtos de exportação. No entanto, o preço de custo da borracha era muito elevado devido às enormes dificuldades logísticas e às grandes distâncias a percorrer, sem meios fáceis de condução ou caminhos apropriados. Os processos de extração do látex eram frequentemente primitivos e prejudiciais às árvores, como o uso de alúmen na coagulação, que desvalorizava o produto.

Os brasileiros foram os descobridores dos seringais nas margens brasileira e boliviana do Rio Guaporé.

Erva-Mate

A erva-mate constituía o segundo produto de exportação da Nação em termos de valor. O município de Porto Murtinho (que formava uma zona rica e futura, com facilidade de transporte) abrigava a Empresa Matte Larangeira.

A Companhia Matte-Larangeira (que exportava para Argentina e Uruguai) operava como um virtual monopólio, caracterizando-se como um enclave. Ela providenciava seus próprios meios de transporte e infraestrutura, incluindo:

• Mais de 500 carretas.

• 30 chatas.

• Lanchas a vapor.

• Estradas de rodagem e pontes.

• Uma pequena via férrea Decauville de 25 quilômetros, ligando Porto Murtinho à Serra de S. Roque, usada para transportar mate.

Contudo, na década de 1920, a produção de mate passou por problemas, com a derrubada de árvores inteiras para agilizar o serviço, resultando em uma rápida devastação dos ervais.

A Geopolítica dos Minérios e do Petróleo Boliviano

Além das riquezas já estabelecidas, o Estado de Mato Grosso era visado por suas potenciais riquezas minerais e, estrategicamente, como porta para as fontes de recursos da Bolívia, o que elevava a questão econômica a uma “questão internacional de ordem elevada”.

Manganês e Ferro

O minério de manganês de Urucum, uma mercadoria de pequeno valor que não exigia cuidado no transporte, era considerado uma futura fonte poderosa de riqueza pública e particular. No caso de se concretizar a exploração (que não se verificou na época), o manganês tinha duas vias possíveis para o carregamento transatlântico: a Noroeste (ferroviária, cerca de 1.900 km até Santos) ou um caminho misto (30 km de via férrea até Corumbá e navegação fluvial até Rosário ou Montevidéo).

O Petróleo Boliviano e a Ferrovia Brasil-Bolívia

A Estrada de Ferro Corumbá-Santa Cruz (Brasil-Bolívia) foi um empreendimento que se ligou diretamente ao problema do petróleo boliviano e ao projeto de uma ferrovia transcontinental entre o Atlântico e o Pacífico.

O Tratado de Petrópolis (1903) obrigou o Brasil a construir uma ferrovia que, partindo entre Porto Esperança e Corumbá, terminasse em Santa Cruz de La Sierra. Esta linha Corumbá-Santa Cruz (656 km pelos tratados) deveria ser alimentada pelo petróleo boliviano, sendo o principal alimento de seu tráfego.

O traçado da ferrovia foi conduzido diretamente para a faixa petrolífera, da qual Santa Cruz era o ponto extremo setentrional. A ferrovia era vista como um “eixo de ligação entre os dois oceanos”, e o Brasil se interessava pelo desenvolvimento do comércio de trocas com a Bolívia, importando óleo cru em troca de tecidos e produtos manufaturados. O objetivo era que a ferrovia Corumbá-Santa Cruz ligasse as duas regiões da Bolívia, oriental e ocidental, e permitisse a ligação transcontinental.

Em suma, as indústrias extrativas de Mato Grosso, desde o ouro até o potencial petrolífero boliviano, funcionaram como motores de atração e pontos focais de interesses econômicos e estratégicos, moldando a ocupação e o desenvolvimento regional através da criação de enclaves voltados para a exportação.

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