Das mãos ao forno: a história das olarias que construíram Três Lagoas tijolo por tijolo
Ceramica MS - Foto de Reprodução
Antes das grandes indústrias, foram as olarias artesanais às margens do Rio Paraná que forneceram os tijolos e telhas que ergueram as primeiras casas, igrejas e escolas de Três Lagoas. Uma história de barro, suor e fogo que merece ser contada.
Toda cidade tem uma história contada em pedra, ferro e concreto. Três Lagoas tem a sua contada em barro. Em tijolos vermelhos moldados à mão, secos ao sol do Bolsão e queimados em fornos de lenha que ardiam por dias inteiros. Nas telhas que cobriram as primeiras casas às margens do Rio Paraná. Nas olarias que funcionavam nos fundos das chácaras antes mesmo de existir uma rua calçada na cidade.
Essa é a história que os livros não contaram. A história das mãos que construíram Três Lagoas.
O presente que veio do subsolo: a argila do Bolsão
Antes de qualquer fábrica, antes de qualquer empresário, antes de qualquer tijolo, havia o barro. E Três Lagoas tem barro de sobra.
A região do Bolsão sul-mato-grossense é geologicamente privilegiada: os solos argilosos às margens do Rio Paraná e ao longo dos córregos que cortam o município contêm depósitos de argila de alta plasticidade — o tipo ideal para a fabricação de cerâmica estrutural. É uma argila vermelha, densa, que ao ser queimada adquire resistência, impermeabilidade e aquela cor característica que até hoje marca as construções mais antigas da cidade.
Os primeiros moradores de Três Lagoas — chegados na esteira da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, inaugurada no trecho da cidade em 1910 — logo perceberam esse presente do subsolo. Não havia como trazer material de construção de longe. O frete era caro, a logística era precária. O que existia era o que o chão oferecia.
E o chão oferecia argila.
As primeiras olarias: fabricação artesanal nas margens do Paraná
As primeiras olarias de Três Lagoas surgiram ainda nas décadas de 1910 e 1920, instaladas propositalmente próximas às fontes de argila — geralmente nas margens de córregos e nas baixadas onde o barro era mais abundante e úmido.
O processo era inteiramente artesanal. Não havia máquinas. Havia braços.
A extração começava com picaretas e enxadas. A argila era cavada do solo, transportada em carroças e depositada em grandes tanques de pisoteio — chamados de “barreiros” — onde era misturada com água e amassada repetidamente por homens e, em algumas olarias, por animais que circulavam em torno de um eixo central.
O resultado era uma massa densa e homogênea, sem bolhas de ar, pronta para ser moldada. Os oleiros então pegavam porções dessa massa e as pressionavam em formas de madeira — uma para tijolos, outra para telhas. A precisão era manual: cada peça dependia da força, do ângulo e da experiência de quem a moldava.
As peças recém-moldadas eram dispostas em fileiras ao ar livre, sobre esteiras de palha ou diretamente no chão batido, e secavam ao sol por dias. Dependendo da estação e do tempo, a secagem podia levar de três a sete dias. No período das chuvas, a produção caía drasticamente — e os oleiros sabiam disso. A estação seca era a estação do barro.
O coração da olaria: o forno de lenha
Após a secagem, chegava o momento mais crítico — e mais fascinante — de todo o processo: a queima.
Os fornos das olarias de Três Lagoas eram construídos em alvenaria, com paredes grossas de tijolo maciço que acumulavam e distribuíam o calor de forma uniforme. A estrutura mais comum era o chamado forno-caieira, em forma de abóbada, capaz de comportar centenas ou até milhares de peças em cada fornada.
O carregamento do forno era uma arte em si. Os tijolos e telhas eram empilhados de forma específica, com espaços calculados entre eles para permitir a circulação do calor sem que as peças se encostassem e deformassem. Cada oleiro tinha seu método próprio, passado de pai para filho, de mestre para aprendiz.
A queima durava entre 24 e 72 horas. Durante todo esse período, o forno precisava ser alimentado continuamente com lenha — eucalipto, peroba, angico, tudo que a região oferecia. Os forneiros se revezavam em turnos, dia e noite, controlando a temperatura pela cor das chamas e pelo aspecto da fumaça. Não havia termômetro. A experiência era o instrumento.
Quando o forno esfriava — o que levava mais um ou dois dias — os oleiros abriam o carregamento com cautela. As peças que saíam de cor vermelho-tijolo uniforme eram as boas. As que apresentavam manchas escuras ou esbranquiçadas eram aproveitadas para outros fins ou descartadas.
O cheiro de terra queimada que exalava de uma fornada recém-aberta era, para os moradores das cercanias, o cheiro do progresso.
Quem eram os oleiros de Três Lagoas
Por trás de cada tijolo havia um trabalhador. E a história das olarias de Três Lagoas é, sobretudo, a história desses homens e mulheres.
Muitos dos primeiros oleiros da cidade eram migrantes nordestinos — vindos da Bahia, de Pernambuco, do Ceará — que chegaram ao Bolsão atraídos pela construção da ferrovia e ficaram. Encontraram nas olarias um trabalho pesado, mas estável. Um trabalho que exigia força, paciência e habilidade.
Havia também descendentes de famílias indígenas que conheciam o trabalho com o barro desde antes da colonização — afinal, a cerâmica indígena no Centro-Oeste tem milhares de anos. E havia trabalhadores rurais que, nos períodos de entressafra, complementavam a renda nas olarias.
O trabalho era duro. O dia começava antes do sol nascer e terminava depois que ele se punha. No verão, a secagem ao sol era produtiva, mas o calor sobre o barreio era sufocante. No inverno seco do Bolsão, as mãos rachavam no barro. E a fumaça do forno, inalada durante décadas, deixava marcas nos pulmões de muitos forneiros.
Mesmo assim, as olarias eram espaços de comunidade. Famílias inteiras trabalhavam juntas. Crianças aprendiam o ofício observando os mais velhos. Os donos de olaria, na maioria das vezes, moravam no mesmo terreno da produção, e a relação com os trabalhadores era próxima — paternalista, como era o costume da época, mas próxima.
O Distrito Industrial Jupiá e a modernização
Com o crescimento de Três Lagoas a partir dos anos 1950 e 1960, e especialmente com a construção da Usina Hidrelétrica de Jupiá entre 1962 e 1969, a demanda por material de construção explodiu. Não havia como atender a essa demanda com olarias artesanais.
Foi nesse período que as cerâmicas industriais começaram a se estabelecer no Distrito Industrial Jupiá, ao longo da Avenida Ponta Porã. Com prensas mecânicas, extrusoras e fornos contínuos — os chamados fornos-túnel, onde as peças percorrem uma esteira lenta através de câmaras de calor progressivo —, a produção que antes era medida em centenas passou a ser medida em milhares de peças por dia.
A Cerâmica MS, fundada em 1985 na Avenida Ponta Porã, 1600, no Distrito Industrial Jupiá, é um dos remanescentes dessa era de industrialização. Especializada em telhas, tijolos, lajotas, manilhas e tubos de cerâmica, a empresa atravessou quatro décadas abastecendo a construção civil de Três Lagoas e da região.
A Cerâmica Modelo e a Cerâmica Guerra também figuram entre os nomes que escreveram essa história — empresas que absorveram o conhecimento das olarias artesanais e o transformaram em produção industrial sem perder a essência do barro vermelho do Bolsão.
O que restou das olarias
Hoje, quase nenhuma das olarias artesanais originais de Três Lagoas existe. Algumas foram demolidas. Outras foram engolidas pela expansão urbana. Os antigos barreiros viraram bairros, loteamentos, avenidas.
Mas quem presta atenção ainda encontra vestígios. Há casas no centro histórico de Três Lagoas construídas com tijolos de dimensões ligeiramente diferentes dos padrões modernos — tijolos mais largos, mais pesados, com aquela coloração vermelho-escuro que só o barro do Bolsão produz. São tijolos de olaria. Fabricados à mão. Queimados em forno de lenha. Podem ter mais de cem anos.
Cada um deles é um documento. Uma testemunha silenciosa de um tempo em que construir uma cidade significava literalmente tirar do chão o que você precisava.
O legado do barro
A indústria cerâmica não é mais o motor econômico de Três Lagoas — hoje, esse papel pertence à celulose, à energia e ao agronegócio. Mas o legado das olarias está em toda parte: nas paredes das casas antigas, nas calçadas, nas igrejas, nas escolas que existiam antes de qualquer indústria moderna chegar ao Bolsão.
Três Lagoas foi construída de barro. E o barro do Bolsão, moldado pelas mãos de gerações de trabalhadores anônimos, ainda sustenta a cidade — tijolo por tijolo, telha por telha — até hoje.
FICHA TÉCNICA — Cerâmicas ativas em Três Lagoas:
Cerâmica MS Ltda — Av. Ponta Porã, 1600, Distrito Industrial Jupiá (desde 1985)
Cerâmica Três Lagoas — Rua Egídio Thomé, 5659, Jardim Alvorada
Cerâmica Modelo — Av. Ponta Porã, 1800, Jardim Alvorada
Cerâmica Guerra — Rua Antônio de Barros Guerra, 1250, Santa Rita
Olaria Três Lagoas — Rua Manoel Ferreira da Rocha, 135, Jardim Santa Aurélia
