A Petrobras veio buscar petróleo em Três Lagoas — e encontrou outra coisa: a história do Poço do Palmito

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Sonda de perfuração da Petrobras durante programa de prospecção de petróleo no Brasil nos anos 1960 — período em que a estatal perfurou o Poço do Palmito em Três Lagoas (Foto: reprodução/Petrobras)

Em 1964, a Petrobras perfurou 4.569 metros de profundidade em solo três-lagoense em busca de petróleo. Não encontrou óleo. Mas abriu um poço de água quente a 46,5°C que, décadas depois, abasteceu bairros inteiros, gerou polêmica, causou suspeitas de doenças renais e quase virou um resort termal. A história do Poço do Palmito.

Se você morou nos bairros Jardim Guanabara, São Carlos ou Santa Rita há décadas atrás, talvez lembre de uma água diferente saindo da torneira. Uma água com gosto esquisito, levemente salgada, quente até no inverno. Uma água que as pessoas chamavam, com certa desconfiança, de “água do Palmito”.

Não era água de palmito de lata. Era água que veio do fundo da terra — de quase cinco quilômetros de profundidade — trazida à superfície por um poço perfurado pela Petrobras em 1964, quando a estatal chegou ao Bolsão sul-mato-grossense com um objetivo ambicioso: encontrar petróleo sob o solo de Três Lagoas.

Não encontrou petróleo. Mas o que encontrou no lugar mudaria a história da cidade por décadas.


1964: a Petrobras chega ao Bolsão em busca de ouro negro

O ano era 1964. O Brasil vivia os primeiros meses do regime militar. A Petrobras, criada por Getúlio Vargas em 1953 com o lema “O Petróleo é Nosso”, estava em plena expansão — perfurando poços em bacias sedimentares por todo o país em busca de reservas que tornassem o Brasil autossuficiente em petróleo.

A Bacia do Paraná, que se estende por parte de Mato Grosso do Sul e São Paulo, era uma das regiões sob investigação. Os geólogos da estatal acreditavam que as formações rochosas profundas poderiam guardar jazidas de hidrocarbonetos. Um programa de prospecção foi lançado, com gastos estimados em US$ 250 milhões — cerca de R$ 1 bilhão em valores atualizados.

Às margens da BR-158, entre Três Lagoas e Brasilândia, próximo ao Córrego do Palmito, a Petrobras escolheu o local para uma das perfurações. As máquinas chegaram. A terra começou a ser furada.


4.569 metros — e nenhuma gota de petróleo

A perfuração foi um feito de engenharia. Chegou a 4.569 metros de profundidade — quase cinco quilômetros de rocha perfurada, camada por camada, sob o solo do Bolsão. Para ter uma ideia da escala: o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, tem 38 metros de altura. Seriam necessários mais de 120 Cristos Redentores empilhados para atingir a profundidade desse poço.

Mas petróleo, nenhum. A perfuração foi considerada seca — sem hidrocarbonetos em quantidade exploráveis.

O que brotou do fundo da terra, no entanto, foi uma surpresa: água. Muita água. Quente. Jorrando espontaneamente à superfície sem necessidade de bombeamento — o que os geólogos chamam de poço jorrante. A água saía a aproximadamente 46,5°C e com uma vazão de cerca de 200 mil litros por hora.

A Petrobras havia perfurado, sem querer, até abaixo do Aquífero Guarani — o maior aquífero transfronteiriço do mundo, que se estende pelo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai e guarda uma das maiores reservas de água doce subterrânea do planeta. A temperatura elevada se deve à profundidade extrema do poço, onde o gradiente geotérmico — o calor natural do interior da Terra — aquece a água progressivamente.

O poço ganhou o apelido de “Palmito”, por conta do córrego próximo. E ali ficou, jorrando água quente, por décadas.


2006: a água do Palmito chega às torneiras

Por anos, o Poço do Palmito permaneceu praticamente ignorado — um curiosidade geológica às margens da BR-158. Mas em 2006, com o crescimento populacional de Três Lagoas e a pressão sobre o sistema de abastecimento de água da cidade, a Sanesul decidiu aproveitar o poço.

A água passou a compor a rede de abastecimento de bairros como Jardim Guanabara, São Carlos e Santa Rita. Era potável, dentro dos padrões técnicos estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde. Mas tinha uma característica que os moradores logo perceberam: era salobra, rica em sais minerais, com um sabor diferente da água doce dos rios e poços rasos a que a população estava acostumada.

A rejeição foi imediata e generalizada.

Reclamações chegavam à Sanesul, às câmaras de vereadores, aos jornais. “A água tá quente e com gosto de sal” era a queixa mais comum. O Jornal do Povo, principal veículo da cidade na época, chegou a dedicar capítulos e páginas inteiras ao assunto.

E então surgiram os rumores mais preocupantes: a água do Palmito estaria causando doenças renais.


Fato ou mito: a água do Palmito causava doenças?

A suspeita se espalhou pelos bairros abastecidos pelo poço: pessoas que beberam a água do Palmito por anos estariam desenvolvendo problemas nos rins. O assunto chegou à imprensa e virou tema de consultas médicas.

Para esclarecer a questão, o nefrologista Dr. Renato Pontelli, do Hospital Auxiliadora de Três Lagoas, foi consultado. Sua avaliação foi técnica: a água do Palmito era potável e dentro dos padrões de qualidade. O alto teor de sais minerais, por si só, não seria suficiente para causar doença renal em pessoas saudáveis. A relação entre o consumo da água e as doenças relatadas nunca foi comprovada cientificamente.

Mas a desconfiança permaneceu. Para muitos moradores, os dados técnicos não conseguiram superar a percepção sensorial — uma água quente e com gosto diferente não podia ser boa. A memória coletiva dos bairros ficou marcada.


O sonho do resort termal que nunca foi

Em 2012, quando a desativação do poço já estava sendo discutida, surgiu uma ideia que empolgou moradores e autoridades: e se, em vez de lacrar o Poço do Palmito, Três Lagoas construísse um resort termal com aquela água quente?

A vice-governadora Simone Tebet, presente em Três Lagoas para assinar uma ordem de serviço da Sanesul, lançou publicamente a proposta. A prefeita Márcia Moura abraçou a ideia. Fontes termais com características similares sustentam complexos turísticos em diversas cidades do Brasil e do mundo — o Caldas Novas de Goiás é o exemplo mais próximo.

O apelo era real: o Poço do Palmito jorrava água termal a quase 50°C, numa vazão de 200 mil litros por hora. Havia até um empresário da rede hoteleira da região da Pousada do Rio Quente que havia demonstrado interesse em apresentar um projeto.

Havia, porém, um problema fundamental: o poço pertencia à Petrobras. A área era da Prefeitura, mas o poço era da estatal — e a Petrobras tinha obrigação legal de desativá-lo por questões ambientais.

O sonho do termal nunca saiu do papel.


2014: o tamponamento e o dano ambiental

A desativação do Poço do Palmito foi um processo longo e polêmico. Em 2014, a Sanesul e a Petrobras assinaram um termo de tamponamento definitivo — o processo de lacrar o poço em profundidade para interromper o fluxo de água.

Mas antes disso, a situação havia se agravado. A água quente que jorrava livremente pelo poço — sem destino útil após a desativação do sistema de abastecimento — estava causando danos sérios ao meio ambiente. Um buraco de aproximadamente 20 metros de profundidade havia se formado pela força da água. O Córrego do Palmito, que recebia a descarga, havia sofrido mudanças drásticas no habitat das espécies — afinal, água a quase 50°C simplesmente cozinha a vida aquática.

Em 2017, a Petrobras foi condenada judicialmente a reparar os danos ambientais causados pelo vazamento. A estatal que veio buscar petróleo em 1964 saiu do Bolsão deixando uma conta ambiental para pagar.


O legado do Poço do Palmito

O Poço do Palmito está lacrado. O Córrego do Palmito segue seu curso. Os bairros que beberam aquela água quente e salobra por quase uma década guardam a memória na expressão que ainda circula entre os mais antigos: “na minha casa, antes, era água do palmito.”

É uma história que começa com a ambição do petróleo, passa pela surpresa de uma fonte termal descoberta por acidente, atravessa a polêmica do abastecimento de água, flerta com o sonho de um resort e termina com uma condenação ambiental.

Uma história tipicamente brasileira: grandiosa nas intenções, acidentada na execução, memorável no resultado.

E que aconteceu aqui, a poucos quilômetros do centro de Três Lagoas, às margens da BR-158, num lugar que hoje não tem mais nada para mostrar — exceto a memória de quem viveu.


FICHA TÉCNICA — Poço do Palmito:
Nome oficial: Poço Palmito
Localização: Margem da BR-158, entre Três Lagoas e Brasilândia
Perfurado por: Petrobras
Ano de perfuração: 1964
Profundidade: 4.569 metros
Vazão: 200 mil litros por hora
Temperatura da água: 46,5°C
Aquífero: Abaixo do Aquífero Guarani
Uso para abastecimento: Até 2014
Bairros abastecidos: Jardim Guanabara, São Carlos, Santa Rita
Tamponamento definitivo: 2014
Condenação ambiental da Petrobras: 2017



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