1940: O Dia em Que o Grupo Escolar Afonso Pena Foi Entregue ao Povo de Três Lagoas

Um dos momentos mais importantes da visita foi a inauguração do edifício do Grupo Escolar Afonso Pena.

Um dos momentos mais importantes da visita foi a inauguração do edifício do Grupo Escolar Afonso Pena. Foto Feres Zaguir

Por alguns dias de março de 1940, Três Lagoas deixou de ser apenas uma cidade ferroviária em crescimento para se transformar no centro das atenções políticas do antigo Estado de Mato Grosso.

As locomotivas da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil continuavam chegando e partindo, lançando nuvens de fumaça sobre os trilhos que cortavam a cidade. Os apitos dos trens ecoavam pela Praça Santo Antônio. Comerciantes abriam suas portas logo nas primeiras horas da manhã. Crianças caminhavam para as escolas. Carroças cruzavam as ruas de terra vermelha.

Mas naquela semana havia algo diferente no ar.

A notícia corria de boca em boca.

O interventor federal Júlio Strübing Müller, homem escolhido por Getúlio Vargas para governar Mato Grosso, estava a caminho de Três Lagoas.

A cidade inteira se preparava para recebê-lo.

Naquele tempo, Júlio Müller não era apenas um administrador estadual. Era a maior autoridade política do estado. Seu nome estava ligado às grandes obras públicas, à expansão da infraestrutura e aos projetos de modernização que transformavam Mato Grosso durante os anos do Estado Novo.

Sua visita representava um reconhecimento da crescente importância econômica e estratégica de Três Lagoas.

E a população compreendia perfeitamente isso.

Nas vésperas da chegada, escolas foram mobilizadas. Autoridades municipais organizaram recepções. Líderes religiosos prepararam homenagens. Comerciantes decoraram estabelecimentos.

A cidade aguardava.

Quando o trem finalmente se aproximou da estação da Noroeste, uma multidão já se encontrava reunida.

Ali estavam estudantes, professores, funcionários públicos, militares, comerciantes, fazendeiros e famílias inteiras.

A estação ferroviária era o coração de Três Lagoas.

Tudo passava por ela.

Pessoas.

Mercadorias.

Notícias.

Esperanças.

E naquela manhã histórica, também chegava o governante do estado.

Acompanhado de uma numerosa comitiva de autoridades civis e militares, Júlio Müller desembarcou sob aplausos.

A recepção foi conduzida pelo prefeito municipal, Tenente-Coronel Manoel Pereira da Silva.

O jornal da época descreve uma verdadeira manifestação popular.

A massa humana ocupava os arredores da estação.

Os estudantes formavam alas.

As bandeiras tremulavam.

As autoridades alinhavam-se para os cumprimentos oficiais.

A cidade apresentava ao visitante sua face mais otimista.

Mas o ponto alto da viagem ainda estava por vir.

A inauguração do Grupo Escolar Afonso Pena

A principal razão da visita era a inauguração do novo edifício do Grupo Escolar Afonso Pena.

Hoje pode parecer apenas mais uma obra pública.

Em 1940, porém, a construção de uma escola representava muito mais do que paredes e salas de aula.

Representava civilização.

Representava progresso.

Representava futuro.

O novo prédio escolar era considerado um dos mais importantes investimentos educacionais já realizados em Três Lagoas.

A solenidade reuniu praticamente toda a elite política e intelectual da cidade.

Representantes do governo estadual.

Militares.

Professores.

Religiosos.

Funcionários públicos.

Famílias inteiras.

A diretora da instituição, professora Lúcia Couto Lima, realizou um discurso emocionado destacando o papel da educação na formação das futuras gerações.

Seu pronunciamento simbolizava as aspirações de uma cidade que crescia rapidamente e desejava oferecer novas oportunidades para seus jovens.

Quando chegou a vez de Júlio Müller falar, o silêncio tomou conta do local.

O interventor exaltou a importância do ensino público e relacionou a inauguração ao processo de desenvolvimento vivido pelo estado.

Para muitos presentes, aquele discurso representava a promessa de um futuro mais moderno para Três Lagoas.

A cidade vive uma festa cívica

Após a inauguração, a programação continuou.

O interventor seguiu para o tradicional Colégio 2 de Julho.

Ali aconteceu uma nova sessão solene.

Discursos foram proferidos.

Homenagens foram prestadas.

O diretor Magno Pinto recebeu a comitiva.

O professor Sabino José da Costa falou em nome da instituição.

A presença de estudantes tornou o evento ainda mais simbólico.

Crianças e adolescentes representavam o futuro da cidade.

Ao colocá-los em destaque nas cerimônias, as autoridades buscavam demonstrar que o progresso passava inevitavelmente pela educação.

Mas as festividades não terminariam com o pôr do sol.

Uma noite de gala em Três Lagoas

Quando a noite chegou, a cidade vestiu suas melhores roupas.

A sociedade três-lagoense reuniu-se para um grande baile em homenagem ao visitante ilustre.

Era um evento reservado às famílias mais influentes da região.

Homens trajavam ternos escuros.

Mulheres exibiam vestidos elegantes.

A iluminação elétrica, ainda uma novidade para muitos municípios brasileiros, ajudava a criar uma atmosfera festiva.

A professora Ester Viegas realizou a saudação oficial.

A música tomou conta do ambiente.

Conversas sobre política, desenvolvimento e futuro preenchiam os salões.

Durante algumas horas, Três Lagoas viveu uma de suas noites mais sofisticadas.

Banquetes e homenagens

O jornal registra ainda uma série de banquetes oferecidos ao interventor.

Entre os locais de destaque estava o Hotel Rio, um dos estabelecimentos mais importantes da cidade na época.

Ali reuniram-se autoridades municipais, empresários e convidados especiais.

Brindes foram erguidos.

Discursos foram feitos.

Promessas de crescimento e cooperação eram discutidas em torno das mesas.

As homenagens não ficaram restritas a Três Lagoas.

Ao longo da viagem, Júlio Müller recebeu recepções semelhantes em Campo Grande e Corumbá.

Mas os relatos publicados pelo jornal demonstram que a passagem por Três Lagoas foi uma das mais calorosas.

O dia seguinte

Na manhã seguinte, o interventor visitou repartições públicas.

Conheceu instalações municipais.

Conversou com autoridades locais.

Observou o funcionamento dos serviços públicos.

Era uma oportunidade para que a administração municipal apresentasse suas demandas diretamente ao governo estadual.

Mais tarde, antes da partida, ocorreu um tradicional churrasco em sua homenagem.

O encontro reuniu lideranças locais e membros da comitiva.

A confraternização encerrava oficialmente a visita.

Pouco depois, o trem voltou a apitar.

Os vagões começaram a se mover lentamente.

A locomotiva retomou seu caminho pelos trilhos da Noroeste.

A multidão observava.

As bandeiras eram recolhidas.

As cerimônias chegavam ao fim.

Mas a memória daquele acontecimento permaneceria viva por décadas.

Um retrato da Três Lagoas de 1940

Hoje, mais de oitenta anos depois, essas páginas amareladas do jornal O Estado de Mato Grosso revelam muito mais do que uma simples visita oficial.

Elas mostram uma cidade em transformação.

Uma cidade que acreditava no poder da educação.

Uma cidade que via na ferrovia sua ligação com o mundo.

Uma cidade que começava a assumir protagonismo no sul do antigo Mato Grosso.

A visita de Júlio Müller foi, acima de tudo, um símbolo desse momento histórico.

Por alguns dias de março de 1940, Três Lagoas tornou-se palco de desfiles, discursos, inaugurações, banquetes e festas.

E enquanto o restante do mundo assistia ao avanço da Segunda Guerra Mundial, uma jovem cidade do interior brasileiro celebrava seu próprio futuro, acreditando que os trilhos da Noroeste e os novos prédios escolares a conduziriam para uma era de prosperidade e crescimento.

Nota de rodapé (fonte primária): As informações desta reportagem foram extraídas das páginas 1 e 4 do jornal O Estado de Mato Grosso, Ano I, nº 155, publicado em 12 de março de 1940, em Cuiabá. As matérias registram a visita do interventor federal Júlio Strübing Müller a Três Lagoas, a inauguração do Grupo Escolar Afonso Pena, as homenagens no Colégio 2 de Julho e os eventos oficiais promovidos pela Prefeitura Municipal e pela comunidade local. Os recortes utilizados correspondem às reportagens “Acompanhado de sua comitiva, regressou ontem a esta Capital o Sr. Interventor Federal” (p. 1) e “Acompanhado de sua comitiva…” (continuação) (p. 4), edição de 12 mar. 1940.

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