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Estação de Três Lagoas

A história de Três Lagoas, localizada no atual estado de Mato Grosso do Sul, remonta à presença indígena muito antes da chegada dos colonizadores europeus. A região era habitada pela tribo Ofaié (também conhecida como Ofaié-Xavante), pertencente à família linguística Macro-Jê, com origens nas civilizações do Chaco boliviano. Esses indígenas eram nômades, vivendo como coletores, caçadores e pescadores, ocupando territórios entre o Rio Paraná e a Serra de Maracaju, limitados ao norte pelo Rio Sucuriú. Sua presença é documentada desde o século XVIII, quando sofreram impactos das expedições bandeirantes paulistas em busca de territórios e recursos. No entanto, com a expansão colonial, os Ofaié começaram a evitar contatos, refugiando-se ao sul e oeste, para áreas como o Rio Verde e a Serra de Maracaju (atual Brasilândia). Por volta de 1900, com a aproximação da ferrovia, eles já haviam deixado a área central de Três Lagoas, e sua língua é considerada extinta hoje.

A exploração europeia da região iniciou-se no século XIX, impulsionada por sertanistas mineiros, paulistas e goianos em busca de rotas e terras para criação de gado. Em 1828-1829, Joaquim Francisco Lopes, um sertanista de Monte Alto (atual Araraquara, SP), liderou uma expedição composta por 11 pessoas, organizada pelos irmãos José Garcia Leal e Januário Garcia Leal, com o apoio do Barão de Antonina (João da Silva Machado). Essa jornada, partindo do Triângulo Mineiro, visava mapear e ocupar terras no sertão, fazendo contato pacífico inicial com os Ofaié. Lopes reencontrou os indígenas em 1840 nas cabeceiras dos rios Negro, Taboco e Aquidauana, consolidando a presença colonial. Na metade do século XIX, grande parte das terras já estava delimitada pelas famílias Garcia, Lopes, Barbosa, Souza e Pereira, que apropriavam-se de vastas áreas para pecuária extensiva, com posses não habitadas regularmente, visitadas apenas para salgar o gado.

Colonização Intensiva e os Primeiros Assentamentos (Década de 1880)

A colonização mais estruturada ocorreu na década de 1880, após o fim da Guerra do Paraguai (1864-1870), que incentivou o retorno de sertanistas e a expansão agropecuária. Três pioneiros principais dividiram a região em áreas distinctas, formando os núcleos iniciais de ocupação:

  • Norte do Rio Sucuriú: Luís Correia Neves Neto (ou Luís Correia Neves Filho) instalou-se nas proximidades do Ribeirão Beltrão, com sua esposa Claudina Correia Neves. Ele é considerado o colonizador mais antigo da área. Outros como Jovino José Fernandes estabeleceram plantações de cana-de-açúcar e destilarias ali.
  • Centro (Área das Três Lagoas): Antônio Trajano dos Santos fixou-se entre o Ribeirão Palmito e o Rio Sucuriú, denominando sua propriedade como Fazenda das Alagoas, em referência às três lagoas naturais (Lagoa Maior, Lagoa Menor e uma terceira) que deram nome à futura cidade. Essa área corresponde ao perímetro urbano atual e era strategicamente localizada próximo à confluência dos rios Paraná e Sucuriú.
  • Sul, Região da Piaba: Protásio Garcia Leal, neto de Januário Garcia Leal, estabeleceu-se às margens do Rio Verde, na área conhecida como Piaba (ou “região da Piaba”). Essa zona atraiu comerciantes e peões devido à criação de gado. Outros colonizadores como Necésio Ferreira de Melo (fundador da propriedade Piaba), Antônio Ferreira Bueno (em Serrinha, hoje Garcias), Antônio Paulino, e famílias como Garcia Tosta, Camargo, Ottoni e Juscelino Ferreira Guimarães também se fixaram ali.

Esses assentamentos eram rurais e dispersos, focados na pecuária, sem formar uma vila organizada. A região era quase desconhecida antes da ferrovia, com ocupação esparsa por posseiros, indígenas remanescentes e criadores de gado. Zulmira Maria de Jesus, filha de Luís Correia Neves Neto, nasceu em 1884 e é considerada a primeira pessoa de ascendência europeia no município, após a saída dos Ofaié. A “história da Piaba” refere-se especificamente à colonização dessa região sul por Protásio Garcia Leal e outros, que representava um dos polos iniciais de povoamento antes da integração ferroviária. Embora Piaba tenha ganhado uma estação ferroviária em 1943 (parte da NOB, km 516,522, inaugurada em 15 de setembro de 1943 e abandonada em 2022), sua origem remonta aos assentamentos de 1880, sem conexão direta com povoados pré-ferrovia além da fazenda homônima.

Chegada da Ferrovia e Formação do Povoado (1909-1914)

O catalisador para a urbanização foi a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), cuja construção iniciou em Bauru (SP) em 1905, visando conectar o interior paulista ao Mato Grosso e à Bolívia. Em 1909, engenheiros da NOB instalaram um acampamento às margens da Lagoa Maior, na Fazenda das Alagoas, dividindo as terras de Antônio Trajano e marcando o início de um núcleo populacional. Em 1911, o acampamento motivou a construção de moradias, formando um povoado incipiente com ruas de terra e atividades comerciais básicas.

Há controvérsias sobre a chegada exata dos trilhos: algumas fontes indicam atividades da estação a partir de 1912, possivelmente referindo-se ao início da construção ou extensão do trecho Itapura-Corumbá, mas a maioria aponta para 1914-1915. Em 1914, Antônio Trajano doou parte de suas terras para a estação, impulsionando o crescimento. Um relato raro de 1914, por Dr. E.O.M., descreve Três Lagoas como o primeiro povoado da NOB no estado, destacando que antes da ferrovia ao Rio Paraná, a região era quase desconhecida, mas expandiu-se rapidamente com comércio e imigração. O povoado foi elevado a distrito pela Lei Estadual nº 656, de 12 de junho de 1914, pertencente a Santana do Paranaíba (atual Paranaíba).

Fundação Oficial e Desenvolvimento Inicial (1915)

Em 15 de junho de 1915, a Lei Estadual nº 706 criou a Vila de Três Lagoas, ainda subordinada a Paranaíba, mas emancipada politicamente, marcando a fundação oficial da cidade com a inauguração da Estação Ferroviária. O engenheiro Oscar Guimarães planejou o traçado urbano inicial, projetado pela Companhia Machado de Melo, com praças e monumentos. Sebastião Fenelon Costa foi o primeiro intendente interino, e Antônio de Sousa Queirós, o primeiro presidente da Câmara Municipal. A ferrovia trouxe colonos, comércio e infraestrutura, transformando o povoado rural em um polo econômico, inicialmente baseado em café, gado e minérios, e mais tarde em celulose.

Em resumo, antes da ferrovia, Três Lagoas era uma área de assentamentos dispersos e fazendas, sem vila consolidada, mas com núcleos como Piaba representando o “início” rural. A integração ferroviária em 1915 consolidou sua identidade como “Cidade das Águas” e “Capital Mundial da Celulose”.

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