A República Transatlântica: a saga de Generoso Ponce em Mato Grosso
A reportagem publicada na página 72 da revista sob o título “A República Transatlântica de Mato Grosso”, escrita por Generoso Ponce Filho em homenagem ao centenário de nascimento de Generoso Ponce, ocorrido em 10 de julho, resgata um dos episódios mais dramáticos e curiosos da história política mato-grossense: a efêmera e ousada tentativa de criação da chamada República Transatlântica de Mato Grosso.
O Movimento Separatista de 1892
O episódio teve início em meio às turbulências que marcaram os primeiros anos da República. Após a constitucionalização de Mato Grosso e a deposição do então presidente Manuel Murtinho, a oposição, aliada a setores militares descontentes, aproveitou o pretexto do 23 de Novembro para promover uma insurreição. O movimento, que encontrou terreno fértil em Corumbá, rapidamente assumiu contornos separatistas, e os revoltosos proclamaram o surgimento de uma nova entidade política: a “República Transatlântica de Mato Grosso”, também chamada “Estado Livre de Mato Grosso”.
A decisão de fundar essa singular “nação sul-americana” foi tomada em janeiro de 1892, durante uma reunião de oficiais rebelados em Corumbá. O comando coube ao coronel João da Silva Barbosa, o “Barbosinha”, que chegou a impedir o ingresso em território mato-grossense do general Oliveira Ewbank, enviado pelo marechal Floriano Peixoto com poderes de governador, forçando-o a recuar com os canhões do Forte de Coimbra.
As ambições separatistas de Barbosinha eram tão audaciosas quanto arriscadas. Planejava declarar Mato Grosso um estado livre e comunicar oficialmente o fato às repúblicas do Prata, acreditando que, ao reconhecerem a neutralidade da nova república, impediriam o avanço de tropas federais pelos rios da região. Diante da escassez de recursos financeiros, o coronel sugeria inclusive hipotecar o Estado à Inglaterra — um gesto que revela o grau de delírio político e desespero de um movimento fadado ao fracasso.
A Intervenção de Generoso Ponce
Diante da anarquia instalada, emergiu a figura de Generoso Ponce, então primeiro vice-presidente do Estado. Ciente da gravidade da situação, Ponce mobilizou forças fiéis à legalidade e organizou um exército de cerca de três mil homens. À frente dessa tropa, sitiou Cuiabá, enfrentou e derrotou as forças rebeldes do Exército, restabelecendo a ordem.
Não se limitou, porém, a pacificar a capital. Seguiu para o sul e Corumbá, onde consolidou a vitória do governo legítimo. Sua postura exemplar ficou marcada numa célebre resposta a Antônio Azeredo, que lhe perguntara qual recompensa desejava por ter restaurado a autonomia do Estado. Ponce respondeu com serenidade e firmeza:
“Desejo apenas restabelecer a Constituição e permanecer no Governo até o retorno do Dr. Manuel Murtinho, o legítimo presidente.”
E assim o fez. Cumpriu sua palavra e devolveu o poder ao governante deposto, um gesto de desprendimento político raro para o período.
Em reconhecimento à sua lealdade e bravura, Floriano Peixoto nomeou-o Coronel Honorário do Exército, e o 7 de maio, data da entrada triunfal das tropas de Ponce em Cuiabá, foi consagrado como um marco na história de Mato Grosso.
O Legado Político de Ponce
Nascido em 1845, Generoso Ponce foi um homem do povo. De origem modesta, ascendeu pela força de sua inteligência e de seu caráter. No Império, destacou-se como Deputado Provincial e líder do Partido Liberal. Com a Proclamação da República, manteve-se à frente da política estadual, exercendo cargos de Senador Federal, Presidente do Estado e Deputado.
Ao longo da vida, liderou três movimentos armados — em 1892, 1899 e 1906 — sempre com o mesmo propósito: restaurar a legalidade e defender as liberdades públicas. Sua trajetória política, marcada por fidelidade institucional e coragem cívica, o transformou em símbolo de resistência e integridade moral no oeste brasileiro.
Eleito Presidente do Estado em 1907, por unanimidade, foi forçado a renunciar no ano seguinte devido a problemas de saúde. Vítima de arteriosclerose, faleceu em 1911, deixando um legado de honra e dedicação ao seu povo.
Em seu túmulo, repousa a inscrição que resume a admiração de uma terra inteira:
“Homenagem do Estado de Mato Grosso ao seu diletíssimo filho, a quem nenhum outro ultrapassou em dedicação e amor ao seu Estado natal.”
Assim, a chamada República Transatlântica, embora breve e insólita, acabou por revelar a grandeza de um homem cuja lealdade à Constituição e à Pátria tornou-se exemplo histórico. Generoso Ponce transformou uma crise separatista em marco de união — e, com isso, inscreveu definitivamente seu nome na galeria dos grandes construtores do Mato Grosso.
