Campo Grande: De Entreposto do Gado a Capital Pulsante do Mato Grosso do Sul
Campo Grande
Campo Grande, a vibrante capital do Mato Grosso do Sul, emerge de uma história de desbravamento e transformação, consolidando-se como um polo econômico e cultural no coração do Brasil. Desde suas origens como uma modesta parada de boiadeiros até sua elevação à categoria de metrópole moderna, a cidade é um testemunho da resiliência e do espírito empreendedor de seu povo.
Raízes Históricas e o Alvorecer da “Cidade Morena”
A fundação de Campo Grande é oficialmente atribuída ao mineiro José Antônio Pereira, que visitou a região em 1872 e, em 1875, retornou para se instalar definitivamente, introduzindo cultivos como café e cana-de-açúcar e dando início ao povoamento. Inicialmente, o local era conhecido como um campo de vacaria, um ponto de parada para comitivas de tropeiros que negociavam gado.
Localizada sobre o Planalto de Maracaju-Campo Grande, a uma altitude média de 587,5 metros, a cidade se destaca pela sua topografia que oferece vistas deslumbrantes da linha do horizonte. Sua designação popular como “Cidade Morena” deriva da cor avermelhada de seu solo. O clima predominante é tropical, com verões quentes e chuvosos e invernos amenos e secos. O bioma predominante é o Cerrado, com campos limpos e sujos, e a hidrografia é dividida entre as bacias do Paraguai e do Paraná, com o Rio Anhanduí sendo o principal curso d’água. O Aquífero Guarani, a segunda maior reserva de água doce do mundo, também está presente no relevo local.
Em 1889, Campo Grande se tornou uma vila e, em 16 de julho de 1918, alcançou o status de cidade. Sua importância estratégica e econômica cresceu exponencialmente, levando-a a ser designada a capital do recém-criado estado de Mato Grosso do Sul em 1977.
A Era da Ferrovia: Trilhos de Progresso e Transformação Urbana
A chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) em 1914 foi um divisor de águas para Campo Grande, marcando o início de uma nova era de progresso e integração. Antes da ferrovia, a região era vista como isolada, carente de infraestrutura e lideranças ativas. A NOB não apenas conectou Campo Grande aos grandes centros do Sudeste brasileiro, mas também impulsionou um processo de ocupação e ordenamento do espaço urbano, transformando a vila em um empório comercial e um centro de serviços.
A urbanização de Campo Grande foi um produto da modernização do campo brasileiro. O traçado da ferrovia influenciou a definição de ruas e bairros, concentrando as referências para a formação da malha urbana central. Em 1909, o engenheiro Nilo Javary Barém elaborou o primeiro Plano de Alinhamento de Ruas e Praças, que limitava a expansão urbana e buscava um traçado organizado e funcional para a cidade. A NOB também teve um papel crucial no fomento da pecuária, tornando Campo Grande um importante centro de comércio e exportação de gado, atraindo compradores de Minas Gerais e São Paulo.
A população de Campo Grande, impulsionada pela ferrovia, saltou de 17 mil habitantes em 1912 para 143 mil em 1970, atraindo migrantes de diversas regiões do Brasil e imigrantes de países vizinhos e de origens variadas, como libaneses, sírios, japoneses e portugueses.
Desafios e o Legado Ferroviário: Entre Memória e Modernidade
O Complexo Ferroviário de Campo Grande é reconhecido como um patrimônio cultural de grande valor, estando tombado em níveis municipal (1996), estadual (1997) e federal (2009). O complexo inclui a Estação Ferroviária, escritórios, oficinas, armazéns, a rotunda de manutenção, e casas para operários e funcionários. A estação, em particular, é considerada o símbolo máximo da história da ferrovia na cidade.
No entanto, as transformações urbanas também trouxeram desafios para a preservação desse legado. A retirada arbitrária dos trilhos na Avenida Noroeste, substituídos pelo projeto da Orla Morena, é criticada por descaracterizar a história da ferrovia e da cidade. Muitos ex-ferroviários expressam saudade e a percepção de que a “cultura ferroviária” desapareceu com a remoção dos trilhos do centro.
Apesar das controvérsias, houve esforços para revitalizar e dar novos usos a essas estruturas. A antiga Estação Ferroviária foi recuperada e readequada para abrigar o Centro de Documentação e Referência da EFNOB/RFFSA em Mato Grosso do Sul, tornando-se um Armazém Cultural. Projetos como o “Coral Tudo de Cor” também buscam manter o aspecto histórico das ruas e edificações.
Campo Grande Contemporânea: Economia, Infraestrutura e Diversidade
Atualmente, Campo Grande é a capital mais populosa do Mato Grosso do Sul, com 898.100 habitantes em 2022, e a quarta maior capital brasileira em área. Sua economia é o centro econômico do estado, respondendo por 24,4% do PIB estadual, com o setor terciário (comércio, serviços e turismo) sendo o principal contribuinte. O ecoturismo desempenha um papel importante, devido à proximidade com destinos como Bonito e o Pantanal, e a cidade sedia o principal aeroporto do estado.
Em termos de infraestrutura, a cidade tem avançado na coleta de lixo (99,22% da área urbana) e abastecimento de água (95% do município), e a rede elétrica atende a quase totalidade dos domicílios. O transporte urbano movimenta mais de 200 mil pessoas diariamente. A BR-163 é uma das principais rodovias que atravessam a capital, e o transporte ferroviário é utilizado principalmente para cargas, sendo um dos gargalos estruturais do estado.
A cidade é um verdadeiro caldeirão cultural, com influência indígena e de imigrantes como portugueses, japoneses, africanos e paraguaios. Monumentos como o Obelisco (em memória aos fundadores), a Fonte Luminosa na Praça Ary Coelho, a estátua de José Antônio Pereira, o Monumento ao Sobá (patrimônio imaterial da cultura okinawana) e o Monumento aos Desbravadores (marco zero) adornam a paisagem urbana, cada um contando uma parte da rica história de Campo Grande.
A contínua evolução de Campo Grande, entre a preservação de sua história e a busca por um futuro modernizado, a consolida como um polo de desenvolvimento e um local de múltiplas identidades no cenário brasileiro.
