Dos Trilhos à Modernidade: Os Primeiros 30 Anos de Três Lagoas (1915-1945)
Estação ferroviária demolida no começo da década de 1960
Os primeiros trinta anos de Três Lagoas, desde sua fundação em 15 de junho de 1915 até meados da década de 1940, configuram um período de profundas transformações que moldaram a identidade de uma cidade nascida na confluência de dinâmicas econômicas, sociais e culturais do interior brasileiro. Situada no coração do então Mato Grosso, a emancipação de Três Lagoas, desmembrada da Comarca de Sant’Anna do Paranaíba e elevada à categoria de cidade em 19 de outubro de 1920, foi impulsionada pela chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) e pelo crescimento da pecuária extensiva. Nomeada em homenagem às suas três lagoas emblemáticas — Maior, do Meio e Menor —, a cidade emergiu como um ponto estratégico de integração entre o sertão e o eixo Rio-São Paulo, simbolizando a expansão da fronteira econômica e social do Brasil no início do século XX. Este período, marcado por avanços e adversidades, reflete o caráter ambivalente do projeto desenvolvimentista brasileiro, no qual a modernização convivia com desigualdades estruturais e desafios de infraestrutura.
A gênese de Três Lagoas está intrinsecamente ligada à chegada da NOB, cujos trilhos alcançaram a região em 1912, com a inauguração da estação ferroviária no quilômetro 33 da linha Itapura-Corumbá. Antes disso, a ocupação local teve início com a pecuária, centrada no povoado de Formigueiro, nas proximidades da Lagoa Maior, em terras doadas por Antônio Trajano dos Santos, que denominou a área de “Fazenda das Alagoas”. A ferrovia, planejada desde 1851 e iniciada em 1905 a partir de Bauru (SP), transformou Três Lagoas em um entreposto comercial vital, atraindo migrantes de estados como Minas Gerais, São Paulo, Goiás e Bahia, além de imigrantes de origens tão diversas quanto Polônia, Síria, Espanha, Itália, Paraguai e Argentina. Esse fluxo populacional diversificado conferiu à cidade uma rica tapeçaria cultural, evidente na formação de seus primeiros núcleos urbanos, que se organizaram em torno da estação ferroviária. O traçado urbano, projetado pelos engenheiros da NOB com ruas largas e quarteirões amplos, refletia uma visão de modernidade, complementada pela construção de equipamentos como hotéis, padarias, teatros, escolas públicas e oficinas mecânicas nos anos 1920. Contudo, a travessia do rio Paraná, inicialmente feita por balsas, impunha limitações logísticas, transformando Três Lagoas em um ponto de pernoite para viajantes e mercadorias, o que estimulou o comércio local, mas também expôs a precariedade da infraestrutura inicial.
Os anos 1920 e 1930 trouxeram tanto avanços quanto desafios para Três Lagoas, que enfrentou momentos de estagnação e crise em meio ao seu crescimento. A conclusão da ponte metálica Francisco de Sá sobre o rio Paraná em 1927, iniciada dois anos antes, foi um marco de engenharia que eliminou a dependência das balsas e consolidou a conexão direta entre São Paulo e Mato Grosso. Contudo, paradoxalmente, a ponte reduziu a função de Três Lagoas como ponto de pernoite, resultando em uma diminuição populacional e em um período de declínio econômico descrito pela imprensa local como “quase paralítico”. Esse revés, sentido entre 1930 e 1935, foi agravado pela saída de trabalhadores da ferrovia e pela concentração fundiária, que favorecia grandes proprietários em detrimento de pequenos agricultores e migrantes nordestinos, frequentemente marginalizados. A Lagoa Maior, epicentro da vida social, servia como espaço de lazer, batismos e até embarcadouro para gado e madeira, mas também sofria com a degradação causada pelo descarte irregular de resíduos, um problema que persistiria até iniciativas de revitalização décadas mais tarde. Socialmente, a cidade lidava com uma população flutuante, composta por trabalhadores itinerantes e indivíduos em situação de vulnerabilidade, além de desafios sanitários graves, como surtos de varíola, tuberculose, sífilis e lepra, em um contexto de atendimento médico insuficiente.
A partir de 1936, Três Lagoas experimentou uma revitalização impulsionada por novas obras, como a construção de um quartel e oficinas da NOB, e pelo incentivo do governo de Getúlio Vargas a eventos cívicos que buscavam mobilizar a população. A pecuária continuou a ser a espinha dorsal da economia, mas a cidade começou a diversificar suas atividades, pavimentando o caminho para sua consolidação como polo regional. A Praça da Estação, mais tarde Praça da Bandeira, e o cemitério municipal, construído em 1915 em terras particulares e tombado como patrimônio cultural em 1973, tornaram-se símbolos da identidade local. Apesar dos avanços, a criminalidade — incluindo homicídios, furtos e acidentes de trabalho — e as desigualdades sociais permaneciam como desafios. Assim, os primeiros trinta anos de Três Lagoas foram um microcosmo das tensões do Brasil modernizante: um espaço de confluência entre a promessa de progresso, representada pela ferrovia e pela urbanização, e as dificuldades de integrar uma população diversa em um contexto de recursos limitados e desigualdades estruturais. A cidade, nascida como um ponto de contato entre o sertão e o “mundo civilizado”, lançou as bases para sua futura transformação em um dos principais centros econômicos de Mato Grosso do Sul.
