O Eco dos Sinos da Meia-Noite: A Rusga de 1834 e o Extermínio dos “Bicudos” em Mato Grosso
No início da década de 1830, o Brasil recém-independente atravessava um dos períodos mais instáveis de sua história política. O hiato entre a abdicação de D. Pedro I, em 1831, e a ascensão definitiva de D. Pedro II gerou um vácuo de poder centralizado que alimentou revoltas regionais por todo o território nacional. Em Mato Grosso, a fragilidade institucional combinada a ressentimentos econômicos e sociais acumulados culminou, na noite de 30 de maio de 1834, em um dos episódios mais trágicos e marcantes do período regencial no Centro-Oeste: a “Rusga”.
Documentada com minúcia pelo Visconde de Taunay em sua obra A Cidade de Matto-Grosso, a Rusga representou um levante nativista e xenófobo que expôs as profundas fraturas da sociedade cuiabana do século XIX.
1. Origens e Contexto do Conflito
As raízes da Rusga residiam nas assimetrias de poder e riqueza herdadas do período colonial. A despeito do processo de independência de 1822, a elite mercantil e administrativa da capital, Cuiabá, permanecia amplamente dominada pelos “portugueses” ou “brasileiros adotivos” (portugueses naturalizados após a Constituição de 1824).
| Grupo Social | Denominação Popular | Posição e Interesses |
| Portugueses / Adotivos | Bicudos, Bicudagem, Caramurus | Controle do grande comércio, acesso a cargos públicos, defensores da estabilidade colonial/conservadora. |
| Brasileiros Natos | Exaltados, Nativistas, Rusguentos | Militares de baixa patente, artesãos e pequenos comerciantes marginalizados do poder político e financeiro. |
O ressentimento popular contra a preeminência comercial dos bicudos foi catalisado por sociedades secretas e organizações políticas de cunho nativista, como a Sociedade dos Zelosos da Independência do Brasil. A circulação de boatos indicando que D. Pedro I pretendia retornar da Europa para reescravizar o Brasil ou que os portugueses tramavam a tomada das armas locais inflamou definitivamente os ânimos da população.
2. A Eclosão do Massacre de 30 de Maio
A tensão política atingiu o ponto de ruptura ao fim de maio de 1834. Por volta das 22 horas do dia 30, dois contingentes de tropas militares locais se sublevaram e arrombaram o depósito do quartel dos municipais permanentes para distribuir pólvora e munição à turba nativista em fúria.
Ao bater da meia-noite, os sinos das igrejas de Cuiabá começaram a dobrar a rebate, acompanhados pelo toque de cornetas e o soar de tambores ordenando o ataque. Sob o grito de guerra “Mata bicudo!”, bandos armados percorreram as ruas da capital arrombando portas, pilhando estabelecimentos e promovendo a execução sumária de comerciantes e cidadãos nascidos em Portugal.
A carnificina estendeu-se pela madrugada e ao longo dos dias seguintes. Nem mesmo o apelo direto do Bispo de Cuiabá, D. José Antônio dos Reis, que percorreu as ruas carregando um crucifixo para interceder pelas vítimas, conseguiu conter imediatamente a fúria da populaça. O rastro do levante foi marcado por centenas de vítimas fatais, residências metralhadas e um saque generalizado que desmantelou a estrutura comercial da cidade.
3. Lideranças e Impasses Políticos: Manso Tigre e João Popinio
O papel das elites políticas locais durante o levante envolveu teias complexas de conveniência, radicalismo e posterior arrependimento:
- Antônio Luiz Patrício da Silva Manso (“Manso Tigre”): Médico militar, botânico respeitado no meio científico internacional e deputado geral. Apontado como um dos principais mentores intelectuais e conspiradores da Rusga no âmbito da maçonaria, utilizou sua influência política para endossar o sentimento anti-lusitano.
- João Popinio Caldas: Assumiu interinamente a presidência da província poucos dias antes do levante. Inicialmente simpático às reivindicações dos nativistas, Popinio vacilou no controle da guarda militar. No entanto, ao testemunhar o horror da noite de 30 de maio, rompeu violentamente com os rebeldes, utilizando a própria força pública para reprimir seus antigos aliados.
A reviravolta de Popinio lhe custou a vida. Em 29 de agosto de 1836, o coronel foi assassinado a tiros no centro de Cuiabá, vítima de uma emboscada articulada pelos próprios líderes do movimento nativista que ele passara a perseguir.
4. O Contraste de Vila Bela da Santíssima Trindade
Enquanto a violência se espalhava por Cuiabá e atingia arraiais vizinhos como Diamantino, a antiga capital da província, Vila Bela da Santíssima Trindade (atual cidade de Mato Grosso), adotou uma postura radicalmente oposta.
As autoridades civis e militares de Vila Bela recusaram-se categoricamente a aderir às ordens exortatórias dos revoltosos de Cuiabá. Sob a liderança do comandante das armas local e das forças de resistência organizadas na comunidade, Vila Bela transformou-se em um refúgio seguro. Dezenas de famílias de portugueses e brasileiros adotivos que conseguiram escapar da capital encontraram na antiga sede do governo colonial um asilo blindado pela proteção armada da população local.
A Rusga de 1834 deixou marcas profundas na memória histórica e na demografia do estado de Mato Grosso. O extermínio e o êxodo forçado de grande parte da elite mercantil portuguesa provocaram uma grave retração econômica na região nas décadas que se seguiram.
Mais do que um conflito sangrento, o episódio refletiu as dores do processo de consolidação do Estado-Nação brasileiro, onde a disputa pelo controle da cidadania, do comércio e do poder regional frequentemente transbordou a arena institucional para se converter em tragédia social.
Para reconstituir os desdobramentos da Rusga de 1834, recorre-se à documentação historiográfica preservada pela Biblioteca do Senado Federal, com destaque para a obra “A Cidade de Matto-Grosso (antiga Villa-Bella), o rio Guaporé e a sua mais illustre victima” (1891), de autoria do Visconde de Taunay. Nos capítulos XVI a XXII do livro, Taunay detalha a eclosão do levante nativista em Cuiabá, o rastro de assassinatos contra a comunidade portuguesa e o papel ambíguo exercido pelas lideranças regionais, ressaltando ainda a postura de Vila Bela da Santíssima Trindade, cujas autoridades recusaram o derramamento de sangue e ofereceram asilo armado aos perseguidos.
