O peso da dívida paraguaia e a voz de Mato Grosso no Império
Palácio Imperial no Rio de Janeiro, datada do século XIX — utilizada como sede do governo e espaço do parlamento imperial
Rio de Janeiro, Maio de 1882 – Nos círculos políticos e financeiros da Corte, ganha relevo uma petição veemente apresentada pelo advogado Dr. Eduardo Barbosa Oliveira Taques, procurador de diversos cidadãos brasileiros que sofreram perdas durante a invasão paraguaia nas fronteiras do Alto Uruguai e do Mato Grosso. O documento, protocolado na Augusta Câmara, exige providências imediatas do Governo Imperial a fim de restaurar a honra nacional e assegurar os direitos de seus súditos lesados pela guerra.
A crise das apólices paraguaias
O cerne da questão repousa sobre as apólices emitidas pelo Paraguai como forma de indenização aos particulares brasileiros prejudicados no conflito. Conforme argumenta o Dr. Taques, tais títulos encontram-se em absoluto estado de depreciamento, dificultando a circulação por serem emitidos em grandes valores, com prazos variados e passados ao portador. A situação, segundo o advogado, deve-se unicamente à inação do governo brasileiro, que teria a obrigação de intervir.
A proposta do procurador
Para resolver o impasse, o Dr. Taques propõe que o Império do Brasil autorize a permuta dessas apólices por títulos da dívida pública brasileira, assumindo o crédito para juros e amortização, caso o Paraguai falhe em seus compromissos anuais.
Em defesa dessa medida, o advogado apresenta argumentos robustos:
Responsabilidade solidária – O Tratado de Paz, ao assegurar as indenizações, tornou o Brasil solidariamente responsável pela dívida.
Capacidade financeira paraguaia – Taques rebate a ideia de insolvência do Paraguai. Recorda protestos de 1876 e um relatório de 1878 do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que registrava proposta paraguaia para quitar a dívida em dez anos. Critica a decisão do Brasil de reduzir a dívida em um terço, recusando oferta mais vantajosa de pagamento da metade do capital em prazo reduzido.
Capacidade e desperdício brasileiros – As vultosas despesas da ocupação do Paraguai, avaliadas em 3.000 contos de réis anuais (18.000 em seis anos), demonstram que o Brasil possuía recursos suficientes. Questiona por que uma nação jovem e próspera, que se endividou para financiar observações astronômicas ou para conceder empréstimos a Buenos Aires e ao Estado Oriental, hesita em aplicar o mesmo crédito em favor de seus próprios cidadãos. A permuta, em sua visão, seria lucrativa e nada onerosa.
Crítica à gestão imperial – O documento denuncia o mau uso da receita, consumida em mais de 8% com pessoal e arrecadação, quando em países mais organizados não ultrapassava 4%. Atribui à falta de unidade contábil e simplicidade administrativa o excesso de servidores e ineficiência. Considera “espantoso” que o Império economize justamente em detrimento daquilo que representa direito, honra e moralidade governamental.
O apelo à honra e a crítica política
O Dr. Taques não se furta a comparações históricas. Evoca o período absolutista, lembrando que em 1814 D. João VI conseguiu da Inglaterra 300 mil libras esterlinas em indenizações para súditos portugueses. Pergunta, em tom cortante, se o cidadão estaria hoje menos amparado sob o regime constitucional que sob a monarquia absoluta.
Suas críticas se estendem à política de terras, à limitação do voto popular e ao projeto de permitir a participação de estrangeiros nas representações locais, provinciais e gerais. Para ele, tais medidas transformariam o brasileiro em um “paria da América”.
Um alerta sombrio
Em tom alarmista, o advogado chama a atenção para a Confederação Argentina, então sob a liderança de Roca e Avellaneda, que aspiraria à restauração da unidade do antigo Vice-Reinado do Rio da Prata. Acusa o governo imperial de complacência, lembrando a inação que precedera a Guerra do Paraguai, e prevê que as “velozes cavallarias argentinas” poderiam novamente assolar os campos do sul. Defende, como único caminho para preservar a paz, a neutralidade absoluta nos negócios da casa alheia.
A petição de Eduardo Barbosa Oliveira Taques não se limita a um pleito financeiro. Representa um manifesto sobre as fragilidades administrativas do Império e um chamado à defesa da honra nacional. Ao acusar o governo de menor zelo pelos direitos de seus cidadãos do que os reis absolutos do passado, o advogado expõe a tensão entre a promessa do regime constitucional e sua prática no ocaso do século XIX.
O documento histórico que embasa essas críticas foi publicado originalmente na edição de 6 de maio de 1882 do jornal A Província de São Paulo, trazendo à tona o debate levantado pelo advogado mato-grossense Dr. Eduardo Barbosa Oliveira Taques. Essa fonte é hoje um importante testemunho das tensões políticas e econômicas que marcaram o Império do Brasil no pós-Guerra do Paraguai, revelando não apenas os embates sobre a responsabilidade financeira, mas também a defesa da honra nacional e dos direitos dos cidadãos prejudicados.

