Reclamavam de Cuiabá: O Sul do Mato Grosso e a luta contra o abandono no início do século XX
Ponte Ferroviária Francisco de Sá, no Rio Paraná
No início do século XX, uma reclamação ecoava forte entre os moradores do sul do então Mato Grosso: “Cuiabá nos esqueceu”.
Enquanto a capital da província vivia voltada para seus próprios interesses no norte, a região sul — rica em terras férteis, pecuária, rios navegáveis e povoamentos em expansão — sentia-se isolada, abandonada e explorada fiscalmente. A distância geográfica era imensa, mas o abismo político e econômico parecia ainda maior.
A geografia do isolamento
A cidade de Cuiabá, situada no meio do cerrado, tinha pouca ou nenhuma ligação direta com cidades do sul como Paranaíba, Porto Murtinho, Aquidauana, Nioaque e o nascente povoado de Três Lagoas (fundado oficialmente em 1915). Para se chegar até o sul, era necessário viajar por dias a cavalo, enfrentar rios, matas, e a ausência quase total de infraestrutura.
Enquanto isso, as cidades do sul se comunicavam com muito mais facilidade com o interior de São Paulo e o triângulo mineiro, através da navegação fluvial pelo Paraná e pela recém-inaugurada ferrovia Noroeste do Brasil.
💸 Impostos pagos, investimentos negados
Mesmo com o sul produzindo boa parte da riqueza agrícola e pecuária da província, os recursos arrecadados eram enviados para Cuiabá e dificilmente retornavam em forma de escolas, estradas, hospitais ou policiamento. Os habitantes se viam obrigados a manter por conta própria:
- As estradas de acesso;
- As pontes e balsas;
- A segurança contra invasões e roubos de gado;
- E até mesmo a educação básica.
🗣️ Vozes do sul: os primeiros clamores por autonomia
Jornais regionais da época, como a Gazeta do Comércio, já publicavam textos com duras críticas à capital, cobrando descentralização e autonomia. Líderes políticos, fazendeiros e comerciantes passaram a se organizar, defendendo a divisão do estado como única solução viável para o desenvolvimento da região.
A queixa era recorrente:
“Pagamos impostos como cidadãos do Império, mas somos tratados como colônia de Cuiabá.”
🚂 A ferrovia que aproximou São Paulo e afastou Cuiabá
Com a inauguração da ferrovia Noroeste do Brasil em 1914, ligando Bauru (SP) a Porto Esperança (MS), o sul passou a se desenvolver com mais rapidez, voltado para o eixo sudeste. A influência de São Paulo se intensificou, e muitos moradores do sul sequer precisavam mais ir à Cuiabá — reforçando a ideia de que a capital nada fazia por eles.
Essas tensões não ficaram apenas no discurso. Durante as décadas seguintes, movimentos separatistas surgiram e ganharam força. Em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, parte do sul chegou a aderir ao movimento paulista, sonhando com uma separação imediata — o que não ocorreu, mas deixou claro o tamanho da insatisfação.
A divisão definitiva só aconteceria em 11 de outubro de 1977, com a criação do Estado de Mato Grosso do Sul, graças à mobilização popular e à pressão de lideranças que nunca aceitaram a condição de “filhos esquecidos do norte”.
A reclamação dos sulistas contra o abandono de Cuiabá no início do século XX não era mero capricho regional. Era o reflexo de uma realidade dura: um povo trabalhador, produtor de riqueza, deixado de lado por uma capital distante e alheia à sua realidade.
Essa história merece ser lembrada, porque explica não só a divisão do estado, mas também o espírito independente, empreendedor e resiliente do povo sul-mato-grossense até os dias de hoje.
