Santana de Paranaíba: Ocupação e Povoamento de Paranaíba no Século XIX
A história de Santana de Paranaíba
A história de Santana de Paranaíba, localizada na região leste do atual estado de Mato Grosso do Sul, remonta ao século XIX, marcada por um processo de ocupação e povoamento que reflete as dinâmicas regionais do sul de Mato Grosso. Este período foi caracterizado pela chegada de entrantes não-indígenas, que se valeram do estatuto jurídico sesmarial, vigente no Brasil desde o período colonial, para ocupar terras. Apesar da presença de populações nativas, como os caiapós (do grupo linguístico Jê), que habitavam a região, os mineiros e francanos – oriundos de São Paulo, Minas Gerais e Goiás – foram frequentemente descritos como “desbravadores” e “primeiros ocupantes”. Esses colonos chegavam a cavalo ou em carroças, enxergando a vasta extensão territorial como um espaço desabitado, pronto para ser apropriado.
A ocupação resultou na concentração de grandes extensões de terra nas mãos de poucas famílias, o que gerou isolamento e dispersão populacional. A pecuária emergiu como uma atividade econômica central, impulsionada pelas vastas áreas de campos com pastagens naturais que atraíam os colonos.
Figuras e Famílias Notáveis
Entre as famílias pioneiras, destaca-se a família Garcia Leal, que desempenhou um papel central na ocupação de Santana de Paranaíba. Segundo o historiador Mário Monteiro de Almeida, a trajetória dos Garcia Leal começou na fazenda Monte Alto, em Minas Gerais. Os irmãos José, João, Joaquim e Januário Garcia Leal, filhos de José Garcia Leal, foram figuras proeminentes. Em 1836, José Garcia Leal apossou-se de extensas áreas de terra na região.
Um descendente notável, Protázio Garcia Leal, neto de Januário, participou de uma expedição em 1884 aos sertões da margem direita do rio Sucuriú. Essa expedição marcou a fundação do município de Três Lagoas, para onde Protázio se mudou. Em uma entrevista de 1943, ele relatou a descoberta de áreas como a zona de capim-mimoso, a região chamada Piaba e uma antiga posse de seu avô, conhecida como Campo Triste.
Outras famílias de destaque na ocupação incluem os Lopes (com figuras como Joaquim Francisco e José Francisco, conhecido como Guia Lopes da Laguna), os Barbosa, Lima, Pereira e Sousa, que também contribuíram para o povoamento da região.
Geografia e Contexto Histórico
A cidade de Sant’Anna do Paranahyba foi elevada à categoria de cidade pela Lei nº 78, de 13 de julho de 1894, e já era sede de comarca desde 1873. Situada em um terreno levemente acidentado, a localidade era marcada por ventos constantes de nordeste e um cenário pitoresco, descrito pelo Visconde de Taunay em obras como Inocência e Céus e Terras do Brasil. Taunay retratou Santana de Paranaíba como um ponto terminal do sertão de Mato Grosso, com extensos laranjais e casas integradas à paisagem de folhagem verde-escura.
No século XIX, a região de Santana de Paranaíba abrangia territórios que hoje correspondem a municípios como Aparecida do Taboado, Brasilândia, Inocência, Paranaíba e Três Lagoas. Para alguns historiadores, Paranaíba é considerada o “berço de Mato Grosso do Sul”, sendo o ponto de partida para a ocupação que se expandiu para a Vacaria e Campo Grande.
Historiografia e Memória Coletiva
A narrativa histórica sobre Santana de Paranaíba frequentemente enaltece os colonos mineiros e francanos como “heróis da conquista”, como destacou o senador Ramez Tebet. No entanto, essa visão muitas vezes omite a contribuição de atores sociais menos visibilizados, como populações nativas, trabalhadores livres, pobres, agregados e escravizados, que também foram fundamentais para a formação da região.
A história ambiental oferece uma perspectiva valiosa para compreender a ocupação, analisando as transformações na paisagem natural promovidas pelos não-indígenas e a relação da sociedade com o meio ambiente. Embora o estudo da ocupação de Santana de Paranaíba ainda seja incipiente, fontes como os relatos de viajantes, incluindo O Descobrimento do Sertão e fundação de Santana do Paranaíba, de Justiniano Augusto de Salles Fleury, e a memória coletiva preservada pela comunidade, são essenciais para reconstruir essa história.
