A Pecuária como Eixo Fundador de Três Lagoas no Início do Século XX
Foto: Yuri Spazzapan
No alvorecer do século XX, a pecuária emergiu como a espinha dorsal do desenvolvimento e da ocupação inicial de Três Lagoas, configurando não apenas a economia, mas também a identidade social e espacial da região. Desde o final do século XIX, as primeiras famílias que se estabeleceram no território três-lagoense encontraram nos vastos campos, no clima propício e na abundância de recursos hídricos as condições ideais para a criação de gado. Essa atividade, complementada pela exploração de madeira e, mais tarde, pela coleta de erva-mate, foi o motor inicial da ocupação do sertão, moldando a paisagem e a dinâmica social da nascente cidade.
A chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) em 1912 marcou um ponto de inflexão. A ferrovia não apenas conectou Três Lagoas aos grandes centros comerciais, como Rio de Janeiro e São Paulo, mas também consolidou a vocação pecuarista da região. A NOB facilitou o acesso de compradores de gado, impulsionando a expansão da atividade na década de 1920 e transformando Três Lagoas em uma autêntica “cow-town”. A cidade passou a funcionar como um ponto estratégico de articulação entre as trilhas das boiadas do sertão e o terminal ferroviário, estabelecendo-se como um entreposto vital para o comércio pecuário.
A centralidade da pecuária manifestava-se também no uso do espaço urbano e periurbano. A Lagoa Maior, coração geográfico da cidade, era utilizada como pastagem e bebedouro para as boiadas que pernoitavam antes de serem embarcadas no Embarcadouro Municipal, às suas margens. Milhares de cabeças de gado e toneladas de madeira partiam dali em vagões de trem, conectando a produção local aos mercados distantes. A Lagoa Menor, por sua vez, também sustentava a pecuária extensiva, reforçando a predominância dessa atividade no entorno da cidade.
A institucionalização da pecuária como pilar econômico ficou evidente com a criação da Feira de Três Lagoas, em 1919, por meio da Lei nº 810. Esse evento, voltado à comercialização de gado, consolidou a cidade como um polo comercial e industrial, atraindo criadores e comerciantes de regiões vizinhas. A escala da atividade era impressionante: em 1940, o município registrava mais de 300 mil cabeças de gado, um testemunho da magnitude da pecuária extensiva, que reproduzia o modelo histórico de concentração fundiária característico da conquista do Oeste brasileiro.
A vida cotidiana em Três Lagoas refletia essa integração entre a pecuária e o espaço urbano. Relatos da imprensa de 1928 descrevem gado vagando pelas ruas, uma imagem que ilustra a permeabilidade entre o rural e o urbano na formação da cidade. O transporte de gado e produtos derivados, como queijos e charque, era realizado por meios rudimentares, incluindo as “pelotas” – embarcações feitas de couro de boi – que navegavam os rios da região. Figuras como Protázio Garcia Leal, um dos pioneiros do povoamento, exemplificam a resiliência dos sertanistas, que enfrentavam terrenos inóspitos e desafios logísticos para consolidar a pecuária como a base econômica da região.
Assim, a pecuária não foi apenas uma atividade econômica em Três Lagoas; ela estruturou a ocupação do território, definiu as relações comerciais e moldou a identidade da cidade como um ponto nevrálgico no Oeste brasileiro. Sua influência, amplificada pela ferrovia e enraizada nas práticas dos primeiros povoadores, permanece como um marco indelével na história três-lagoense.
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