Companhia Matte Larangeira: o império da erva-mate no sul de Mato Grosso
A Companhia Matte Larangeira teve origem na concessão imperial feita ao comerciante Thomaz Larangeira, em reconhecimento aos serviços prestados durante a Guerra do Paraguai (1864–1870). Inicialmente chamada Empresa Matte Larangeira, a companhia consolidou-se como uma das mais poderosas organizações econômicas da região, atuando na extração e exportação de erva-mate nativa, produto que se tornaria central para o desenvolvimento do sul de Mato Grosso (atual Mato Grosso do Sul).
As origens
A primeira sede da empresa foi estabelecida em Concepción, no Paraguai, em 1877, ponto estratégico para o início da exploração da erva-mate. Posteriormente, a administração transferiu-se para Porto Murtinho, no Brasil, e, anos mais tarde, para Guaíra, no Paraná.
O marco jurídico da atividade veio com o Decreto Imperial nº 8.799, de 9 de dezembro de 1882, que autorizava Larangeira a explorar os ervais nativos por um período inicial de dez anos. A partir dessa base legal, ele fundou a Empresa Matte Larangeira, trazendo do sul do país fazendeiros com experiência no cultivo da erva-mate e recrutando mão de obra local — indígenas, em especial das etnias Kaiowá e Guarani, além de paraguaios.
Expansão e poder econômico
Com a Proclamação da República, em 1889, a área de concessão foi sucessivamente ampliada, sempre com o apoio de políticos influentes, como Joaquim e Manuel José Murtinho, além do general Antônio Maria Coelho. Em 1890, a empresa conquistou o monopólio da exploração da erva-mate em uma área que ultrapassava 5 milhões de hectares.
Em 1892, após um novo contrato de concessão, a empresa passou a chamar-se oficialmente Companhia Matte Larangeira, obrigando-se a transferir sua sede para o território mato-grossense. Nesse mesmo ano, a Companhia adquiriu a Fazenda Três Barras, à margem esquerda do rio Paraguai, onde construiu um porto batizado de Porto Murtinho, em homenagem ao político Joaquim Murtinho.
O apogeu econômico da empresa foi impressionante: em seu auge, os lucros da Matte Larangeira chegaram a ser seis vezes superiores à arrecadação de impostos de todo o estado de Mato Grosso, evidenciando a força de seu monopólio. A exploração e exportação da erva-mate cancheada destinavam-se principalmente a Buenos Aires, de onde era industrializada e redistribuída para mercados internacionais, alcançando centros como Assunção, Paris, Londres e Roma.
A mão de obra indígena
Grande parte da produção da Companhia baseava-se no trabalho de indígenas Kaiowá e Guarani, muitas vezes submetidos a condições precárias de trabalho. Mesmo após a criação de reservas indígenas a partir de 1915, as atividades da empresa continuaram a se sobrepor ao território tradicional desses povos. Em muitos casos, a utilização da mão de obra foi intermediada pelo próprio Serviço de Proteção aos Índios (SPI), revelando a íntima relação entre o Estado e os interesses econômicos da Matte Larangeira.
Auge e declínio
A partir de 1902, com a falência do Banco Rio Branco, a estrutura acionária da Companhia mudou de mãos, e a organização passou a chamar-se Larangeira Mendes & Cia., sob forte influência de capitais argentinos. Nesse período, investiu-se em infraestrutura, como a Estrada de Ferro Porto Murtinho–São Roque, concluída em 1906, e a Estrada de Ferro Guaíra–Porto Mendes, planejada em 1911 para vencer o obstáculo das Sete Quedas.
No entanto, as pressões políticas em Mato Grosso aumentaram. Enquanto parte das lideranças defendia a prorrogação do monopólio até 1930, outra ala via na fragmentação das áreas arrendadas uma oportunidade de democratizar o acesso à terra. Esse embate resultou na aprovação da Lei nº 725, de 24 de agosto de 1915, que rompeu definitivamente o monopólio da Companhia, encerrando sua hegemonia na região.
O fim de um ciclo
Apesar de ainda manter influência e atuar como credora do Estado de Mato Grosso durante as décadas de 1920 e 1930, a Companhia entrou em declínio após a Segunda Guerra Mundial, quando a Argentina restringiu a importação da erva-mate brasileira. Em 1943, o governo de Getúlio Vargas extinguiu oficialmente a concessão, incorporando parte de suas estruturas ao Serviço de Navegação da Bacia do Prata (SNBP).
Em 1944, o Decreto nº 6.428 determinou a liquidação de seus bens, resultando no leilão de estâncias, oficinas, tropas e rebanhos. Apesar disso, a Companhia ainda operou a ferrovia de Porto Murtinho para transporte de madeira até a década de 1950, havendo indícios de funcionamento esporádico até o início dos anos 1970.
A trajetória da Companhia Matte Larangeira é um dos capítulos mais marcantes da história econômica e social do Centro-Oeste brasileiro. Mais do que uma empresa, constituiu-se como um verdadeiro império privado que, durante décadas, moldou o destino de cidades, influenciou a política regional e deixou um legado profundo de conflitos fundiários e impactos sobre os povos indígenas que até hoje reverberam na região.
