Mato Grosso do Sul: A Construção de uma Identidade em Meio a Disputas e Narrativas Históricas

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A criação do estado de Mato Grosso do Sul em 1977, através da assinatura da lei de desmembramento pelo presidente Ernesto Geisel, representou um marco geopolítico significativo para o Brasil. No entanto, a trajetória que levou à sua formação e, posteriormente, à construção de sua identidade foi permeada por intensas disputas políticas, o uso estratégico da mídia e a necessidade de forjar um passado oficial para a nova unidade federativa.

Disputas Políticas e o Poder da Imprensa

A decisão de desmembrar Mato Grosso em 1977 solidificou uma certeza de que essa solução era consentânea com os interesses de todos e correspondia à vontade popular, trazendo uma mensagem de confiança, esperança e otimismo para o novo empreendimento. Contudo, o processo não foi isento de conflitos, especialmente entre os políticos de Dourados e Campo Grande, duas cidades próximas na região sul do então Mato Grosso uno.

A imprensa desempenhou um papel crucial nesse cenário. Jornais como “O Progresso” (de Dourados) e “Correio do Estado” (de Campo Grande) foram utilizados como instrumentos estratégicos por agentes públicos para defender seus interesses e legitimar suas posições. As narrativas jornalísticas e os discursos políticos frequentemente manipulavam elementos de identificação e diferenciação regionais, evidenciando uma complexidade maior do que a simples dicotomia “nortistas versus sulistas”.

Um dos pontos mais acirrados dessas disputas foi a escolha do nome da nova capital. Inicialmente, o nome divulgado para o novo estado, tido como uma escolha de Geisel, era “Estado de Campo Grande”, o que provocou intensos debates entre políticos de Campo Grande e Dourados, envolvendo até mesmo os editores e redatores dos jornais.

• O “Correio do Estado” explorou amplamente a questão, dedicando uma edição especial com cerca de quarenta páginas à divisão e utilizando a Rádio Cultura (do mesmo proprietário) para divulgar as notícias e mobilizar a população. O jornal se posicionou como um representante “sulista”, ou até mesmo “campo-grandista”, e construiu uma narrativa “histórica”, “econômica” e “desenvolvimentista” em favor da divisão. A publicação reforçava o ideal de “estado modelo” dos militares, focado em desenvolvimento econômico, ordem e progresso.

• Em contrapartida, “O Progresso” combateu intensamente a denominação “Estado de Campo Grande”, percebendo a forte representação simbólica que promoveria apenas um município da região sul. O diário douradense chegou a mencionar a subjugação de Dourados a Campo Grande, acusando esta última de usurpar a força econômica da primeira, de forma similar ao que alguns campo-grandenses faziam em relação a Cuiabá.

Interessante notar que, enquanto o “Correio do Estado” narrava uma “comoção pública” e “grande festa” com fogos e buzinaço para celebrar a divisão, a própria reportagem, em uma contrariedade, admitia que “a grande festa se concentrava em alguns pontos isolados”, sugerindo que a participação em massa da sociedade na comemoração era um exagero. A sugestão de que a população deveria ser ouvida sobre a divisão foi ignorada pelos periódicos, pois a possibilidade de plebiscito em questões de redivisão territorial havia sido retirada do texto constitucional em 1967.

A divisão, em última instância, foi um ato “de cima para baixo”, ocorrido em um contexto autoritário, onde as elites sulistas já não estavam tão mobilizadas pela ideia, abrindo espaço para a construção de um discurso histórico que justificasse o fato consumado.

A Forja de uma Identidade e História Oficial

A criação de Mato Grosso do Sul em 1977 trouxe o desafio de criar uma região, com recortes geográficos, políticos e culturais, e forjar sentimentos de pertença coletiva. A necessidade de construir uma história oficial para o novo estado levou à solidificação de mitos de fundação e à ordenação de fatos dispersos, com discursos politicamente engajados que defendiam a região e, por vezes, legitimavam interesses e projetos políticos específicos.

Eventos como a Retirada da Laguna (ocorrida em 1867, durante a Guerra do Paraguai) foram mitificados e apresentados como o “mito fundador” de Mato Grosso do Sul, lançando as bases de um novo período histórico para a região. Essa abordagem historiográfica, muitas vezes de caráter memorialista, buscou construir uma história consensual, glorificadora de líderes intrépidos e de uma ocupação territorial entendida como civilizadora.

A identidade sul-mato-grossense e sua cultura foram e continuam sendo (re)discutidas e (re)construídas, com cantautores e artistas registrando, em suas obras, as histórias e memórias do território. No entanto, a arte regional pode, paradoxalmente, restringir o alcance midiático dos artistas, mantendo-os dependentes de ações governamentais para divulgação.

A trajetória de Mato Grosso do Sul é um exemplo vivo de como a história é construída e disputada, não apenas por meio de documentos oficiais, mas também através das narrativas midiáticas e das manifestações culturais que moldam a percepção de uma comunidade sobre si mesma.

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