Mato Grosso do Sul: Uma Terra Modelada por Ciclos Econômicos, Migrações e a Rede de Trilhos e Rios

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Maria Fumaça em Três Lagoas

Longe de ser uma paisagem estática, a formação do que hoje conhecemos como Mato Grosso do Sul é a história de uma terra moldada por ciclos econômicos externos, intensas ondas migratórias e a fundamental rede de transporte fluvial e ferroviário. O desenvolvimento do estado, desde suas primeiras incursões, tem sido historicamente dependente de dinâmicas nacionais e internacionais, resultando em uma inserção periférica na economia brasileira e global.

As Raízes da Ocupação: Ouro, Índios e Rotas Fluviais

As primeiras incursões nos territórios que hoje compõem o Centro-Oeste brasileiro, incluindo o sul do antigo Mato Grosso, foram realizadas pelos bandeirantes com o objetivo de explorar recursos, tanto humanos (escravização de indígenas) quanto naturais (metais preciosos). Inicialmente sob domínio espanhol pelo Tratado de Tordesilhas, a região só se integrou à América Portuguesa no século XVII, com os bandeirantes adentrando para aprisionar e escravizar os povos indígenas, como os Guarani, num processo de “despovoamento”. A ocupação não visava a dominação territorial efetiva, mas sim a integração em circuitos econômicos, fornecendo mão de obra escrava para o planalto paulista.

Com a descoberta do ouro em Cuiabá no século XVIII, o sul do Mato Grosso tornou-se uma “área de passagem” crucial entre Cuiabá e São Paulo. As expedições fluviais, conhecidas como monções, estabeleceram uma corrente regular de comunicação e comércio, utilizando rios como Tietê, Paraná, Pardo, Coxim e Cuiabá, além de parte do rio Paraguai. A navegação pelo rio Paraguai, em particular, era vista como a melhor alternativa para comunicação e comércio, devido às condições de viagem mais favoráveis e o potencial de acesso ao mercado internacional, facilitando o abastecimento e o escoamento de matérias-primas.

A Guerra do Paraguai e a Ascensão de Corumbá

A liberação da navegação pelo rio Paraguai em 1856, após pressão política do Império brasileiro, transformou a dinâmica da Província de Mato Grosso. Corumbá, então conhecida como Albuquerque, começou a se destacar como polo comercial, devido à sua localização estratégica que permitia o acesso de embarcações oceânicas, algo inviável para Cuiabá. Após a Guerra do Paraguai (1864-1870), Corumbá se consolidou como o mais importante entreposto comercial de Mato Grosso, beneficiada pela internacionalização das águas do rio Paraguai. A guerra também impulsionou a extração da erva-mate e a posterior construção da ferrovia, processos determinantes para o recrudescimento do regionalismo sul-mato-grossense.

Corumbá tornou-se um ponto de confluência de povos e culturas, com intensa circulação de “forasteiros” de Montevidéu e Buenos Aires, além de imigrantes europeus e latino-americanos, incluindo paraguaios fixados na cidade após a guerra.

O Ciclo da Erva-Mate e a Ferrovia Noroeste do Brasil (NOB)

A exploração da erva-mate no sul do antigo Mato Grosso tornou-se uma atividade econômica central, especialmente a partir da concessão de monopólio a Thomaz Laranjeira em 1882, que mais tarde fundou a Companhia Mate Laranjeira. Essa atividade, voltada principalmente para o mercado externo (Argentina), operava muitas vezes com regime de semiescravidão, dificultando a formação de um mercado consumidor interno e impedindo que a maior parte do capital gerado permanecesse na região.

A construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), iniciada em 1905, foi um marco estratégico mais do que puramente econômico. Originalmente planejada para ligar Bauru a Cuiabá, o traçado foi alterado para Bauru-Corumbá, o que teve como uma das principais consequências a ascensão de Campo Grande como o principal polo comercial e político do sul de Mato Grosso. A ferrovia propiciou uma ligação direta e rápida do sul do estado com os grandes centros do Sudeste brasileiro, como São Paulo e Rio de Janeiro, atraindo imigrantes e indústrias, impulsionando o intercâmbio socioeconômico e político da região. Isso contrabalanceou a influência dos circuitos fluviais platinos e fortaleceu a economia sulista.

Marcha para o Oeste e a Construção da Identidade Sul-Mato-Grossense

O movimento nacionalista liderado por Getúlio Vargas, com o programa “Marcha para o Oeste” a partir de 1938, visava à integração e ocupação das “áreas desertas” do país, incluindo Mato Grosso. Essas políticas desenvolvimentistas, bem como aquelas implementadas durante o Regime Militar, viam a região como um “vazio demográfico” que precisava ser povoado para garantir a segurança nacional e o desenvolvimento capitalista do Brasil. A ideia era transformar o Centro-Oeste e, em particular, Mato Grosso do Sul em um dos “celeiros do Brasil” para ampliar as exportações de commodities agrícolas e captar divisas.

Essa visão de “espaços vazios” e a necessidade de ocupação impulsionaram fluxos migratórios significativos. O sul de Mato Grosso foi influenciado por migrantes de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul, enquanto o norte recebia mais nordestinos. A construção da NOB também atraiu imigrantes e fomentou a colonização. A mistura desses povos com indígenas e estrangeiros (paraguaios, bolivianos, argentinos, uruguaios, italianos, espanhóis, portugueses, e mais tarde, japoneses e pessoas do Oriente Médio) criou uma sociedade plural e culturalmente híbrida.

A identidade sul-mato-grossense, nesse contexto, é frequentemente (re)discutida e (re)construída, com manifestações culturais que ultrapassam as fronteiras locais, como a sopa paraguaia, a chipa, o chamamé e o tereré, refletindo uma “transterritorialidade” e “transculturalidade”. Essa rica tapeçaria cultural é um reflexo das sucessivas ondas de migração e dos intercâmbios que ocorreram e continuam a ocorrer na região, desafiando a noção de uma cultura estática ou presa a limites políticos.

A trajetória do Mato Grosso do Sul, portanto, é um testemunho da complexa interação entre forças econômicas globais, estratégias geopolíticas nacionais e a resiliência e adaptabilidade dos diversos povos que habitaram e continuam a habitar esta fronteira.

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